Diário da Covid-19: Brasil tem grande queda de casos e de mortes

Na Califórnia, um aluno acompanha remotamente a aula ao online do professor da escola regular em uma mesa separada dos outros por barreiras de plástico na STAR Eco Station Tutoring. Foto Robyn Beck/AFP

Perigo de uma segunda onda, no entanto, não está afastado e ainda falta muito para zerar o número de infectados e de óbitos

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 13 de setembro de 2020 - 11:32 • Atualizada em 17 de setembro de 2020 - 09:49

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Na Califórnia, um aluno acompanha remotamente a aula ao online do professor da escola regular em uma mesa separada dos outros por barreiras de plástico na STAR Eco Station Tutoring. Foto Robyn Beck/AFP

Finalmente o Brasil apresenta uma grande redução dos novos números de pessoas infectadas e de vidas perdidas para o novo coronavírus. Na 37ª semana epidemiológica (06 a 12 de setembro), a média diária de casos ficou abaixo de 30 mil e a média de mortes ficou na casa de 700 óbitos. São os menores valores em cerca de 4 meses.

Mas precisamos ser realistas e reconhecer que estes valores ainda são muito altos e que, se o país ganhou uma batalha, ainda não venceu a guerra. Falta muito para zerar o número de casos e de vítimas fatais. Além do mais, há o perigo de uma segunda onda. Países de diferentes regiões do mundo como França, Espanha, Israel, Austrália, Jamaica e Cuba apresentaram uma subida no número de casos nas últimas semanas. O Brasil necessita ter cuidado e tomar as medidas preventivas corretas para evitar um repique da pandemia e precisa se esforçar para conseguir controlar a doença e zerar o número de vítimas da covid-19 o mais rápido possível.

As vacinas contra o SARS-CoV-2 estão chegando. Há uma corrida mundial sem precedentes pois já são mais de 150 produtos candidatos, sendo 28 em etapa clínica (testados em humanos), dos quais 6 estão na fase mais avançada. Mas o processo é longo e cheio de percalços até se chegar à vacinação em massa. A recente interrupção dos protocolos clínicos da vacina de Oxford é um exemplo das incertezas inerentes do processo. Além do mais, as disputas comercias e geopolíticas podem atrapalhar o acesso aos medicamentos. Por conseguinte, ainda não é possível prever os prazos para o início da vacinação, a efetividade da vacina e o grau de adesão da população. Acima de tudo, é sempre preferível precaver do que remediar.

O panorama nacional

Os dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde registraram 4.315.687 pessoas infectadas e 131.210 vidas perdidas, no dia 12 de setembro, com uma taxa de letalidade de 3%. Foram 33.523 novos casos e 814 óbitos em 24 horas.

O gráfico abaixo mostra os valores diários das variações dos casos e das mortes no Brasil da 16ª semana epidemiológica (SE = 12 a 19 de abril) até a 37ª SE (06 a 12/06). Nota-se que todas as baixas acontecem nos fins de semana e as elevações nos dias úteis. Mas as linhas (pontilhadas) da tendência polinomial de terceiro grau apresentam uma suavização das oscilações sazonais e indicam uma extrapolação para os próximos 7 dias. Observa-se uma tendência de queda do número diário de casos durante os meses de agosto e setembro. A média móvel de casos bateu o recorde no dia 29 de julho, com 46.393 novas pessoas infectadas e ficou abaixo de 30 mil casos no dia 12/09. Em termos de mortes, a linha pontilhada vermelha mostra que a curva estava estacionada em um platô elevado, com um pico da média móvel atingindo 1.097 óbitos no dia 25/07, mas a média caiu para um valor próximo de 700 óbitos no dia 12/09. O ajuste polinomial indica que os números devem continuar caindo na próxima semana (13 a 19 de setembro).

O gráfico abaixo mostra a variação média diária do número de casos no Brasil nas diversas semanas epidemiológicas (SE). Nota-se que o número de pessoas infectadas passou da média de 397 casos na 13ª SE (variação relativa de 19,4% ao dia), para 37.620 pessoas na 27ª SE (2,6% ao dia), um aumento absoluto de quase 100 vezes. Houve uma queda nas duas semanas seguintes e um grande salto para 45.665 casos na média diária da 30ª SE. Nas quatro semanas seguintes os números diários foram menores. Na 36ª SE o número médio subiu e ficou em 39.550 casos, mas teve uma queda abrupta na 37ª SE, para 27.527 casos. Como sempre fazemos todos os domingos, apresentamos uma projeção para a 38ª SE (13 a 19/09), com estimativa de 26,4 mil casos diários no Brasil, com variação relativa de 0,6% ao dia.

O gráfico abaixo mostra que o número de vítimas fatais foi de 13 óbitos ao dia na 13ª SE (variação relativa de 29,7% ao dia), passou para 387 óbitos diários na 18ª SE e chegou a 1.014 óbitos diários na 23ª SE. Nas semanas seguintes o número diário oscilou em torno de 1.000 óbitos e bateu o recorde de 1.097 óbitos na 30ª SE. Nas demais semanas houve queda do número médio diário até 965 óbitos na 33ª SE e um ligeiro aumento para 1.003 óbitos na 34ª SE. Mas nas últimas 3 semanas a queda foi a mais significativa da série, chegando à média móvel de 715 óbitos na 37ª SE (05 a 12/09). Seguindo a tendência de queda, nossa projeção indica os números de vítimas fatais deve continuar caindo para uma média de 679 mortes diárias na 38ª SE, com variação relativa de 0,51% ao dia.

Os dados comparativos indicam que, pela primeira vez desde o início da série histórica, o ritmo da pandemia no Brasil ficou abaixo do ritmo médio do resto do mundo. Mas ao mesmo tempo, o Brasil continuou galgando posições no ranking de global de casos, quando se considera a dimensão demográfica.

O panorama global

O mundo está se aproximando de 30 milhões de pessoas infectadas e de 1 milhão de mortes. No dia 12, os registros globais indicavam 28,9 milhões de casos e 924 mil mortes, com uma taxa de letalidade de 3,2%.

No gráfico abaixo, a curva do número de casos parecia indicar uma reversão em meados de abril, começando a esboçar um declínio. Porém, manteve a tendência de alta e acelerou a subida, quase batendo o recorde de 300 mil casos em 24 horas nos últimos dois dias de julho e finalmente ultrapassando esta marca em setembro. A curva de mortalidade apresentou uma variação máxima diária em 16 de abril com cerca de 8 mil óbitos. A partir deste dia houve queda até o valor mínimo no dia 25 de maio. Porém, a variação diária voltou a subir e atingiu valores acima de 7.000 óbitos nos dias 06 e 13 de agosto. Atualmente, a média móvel de mortes está em torno de 6 mil óbitos.

Os três países mais impactados, em termos absolutos, são EUA, Brasil e Índia. A Índia assumiu a liderança do número de novos casos e de novas mortes e caminha para ser o país com os maiores números acumulados até o final do ano. Porém, quando se leva em consideração a dimensão demográfica as cifras da Índia estão abaixo da média mundial e muito abaixo dos 10 países mais impactados.

Em termos de coeficiente de incidência, os EUA e o Brasil estão praticamente empatados com cerca de 20 mil casos por milhão de habitantes, enquanto a Índia, embora possua um coeficiente cada vez maior, tem apenas 3,4 mil casos por milhão de habitantes.

Em termos de coeficiente de mortalidade o Brasil ultrapassou o Chile e o Reino Unido na semana que passou e agora ocupa a 4ª posição no ranking global, conforme mostra o gráfico abaixo. O primeiro lugar disparado cabe a San Marino com 1.237 óbitos por milhão de habitantes. Acontece que San Marino é um país muito pequeno, com apenas 34 mil habitantes e possui uma alta proporção de idosos na população. Em termos acumulados o país apresentou apenas 722 casos e 42 óbitos. Algo parecido ocorre com Andorra, que tem uma população de 77 mil habitantes e apresentou um coeficiente de mortalidade de 686 óbitos por milhão de habitantes. Mas em termos acumulados são somente 1.344 casos e 53 óbitos.

Assim, desconsiderando estes dois países com menos de 1 milhão de habitantes, o líder do ranking, no dia 12/09, é o Peru com 925 óbitos por milhão de habitantes, seguido da Bélgica com 855 óbitos por milhão, Espanha com 636 óbitos por milhão e o Brasil com 624 por milhão (segundo o Ministério da Saúde). Em seguida aparecem Chile com 621 óbitos por milhão, Reino Unido com 612 óbitos por milhão, Itália com 589 óbitos por milhão, EUA com 598 óbitos por milhão e Suécia com 578 óbitos por milhão de habitantes. A média mundial é de 119 óbitos por milhão. A Índia apresenta coeficiente de mortalidade de apenas 57 óbitos por milhão. Provavelmente o Brasil, mesmo tendo a média diária de óbitos em queda, deve ultrapassar a Espanha e assumir a 3ª posição no ranking global do coeficiente de mortalidade.

Todos estes dados mostram que a pandemia já começou a perder força no Brasil, mas ainda está longe de ser resolvida e o país é o segundo em número acumulado de mortes (atrás apenas dos EUA) e já é o 4º no ranking global do coeficiente de mortalidade. Os próximos meses ainda serão de sofrimento, tanto no Brasil quanto no mundo.

Poucas nações da comunidade internacional vão poder comemorar, com festa, o réveillon de 2021. As grandes aglomerações para festejar a passagem do ano no Rio de Janeiro, São Paulo e outras grandes cidades do país foram proibidas. Os festejos do carnaval foram adiados. E se o escritor Graciliano Ramos fosse vivo, ficaria surpreso com a possibilidade de cancelamento do carnaval brasileiro de 2021.

Frase do dia 13 de setembro de 2020

“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”

Graciliano Ramos (1892-1953), escritor alagoano

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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