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Diário da Covid-19: Brasil, desgovernado, segue em direção à marca de meio milhão de mortes

Em Outubro deste ano o Cristo Redentor estará completando 90 anos, sem festas. Nesta época o país ainda estará chorando pelos seus mais de 500 mil mortos. Que Deus nos ajude. Foto Carl de Souza/AFP. Março/2021

Projeções indicam que chegaremos a 400 mil em maio e que recorde de 500 mil será alcançado em agosto

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 28 de março de 2021 - 10:22 • Atualizada em 2 de abril de 2021 - 14:02

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Em Outubro deste ano o Cristo Redentor estará completando 90 anos, sem festas. Nesta época o país ainda estará chorando pelos seus mais de 500 mil mortos. Que Deus nos ajude. Foto Carl de Souza/AFP. Março/2021

O Brasil bateu diversas marcas trágicas na semana de 21 a 27 de março de 2021 e a velocidade da pandemia é tão exagerada que os eventos estão sendo contados em minutos. No dia 25/03, o Ministério da Saúde registrou 100.158 novas infecções (70 casos por minuto) e no dia 26/03 foram registradas 3.650 vidas perdidas (2,5 mortes por minuto). O país ultrapassou o montante acumulado de 12 milhões de brasileiros infectados e 300 mil vítimas fatais da covid-19. A semana foi de recordes não desejados por ninguém, pois, superando todos os limites hebdomadários anteriores, houve impressionantes 539.903 casos e 17.798 mortes em 7 dias ou 10.080 minutos.

Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Poeta e escritor

O Brasil pandêmico parece um trem desgovernado que vai perdendo seus vagões ao longo dos trilhos. Nesta analogia, ilustrada no gráfico abaixo, cada vagão perdido significa 50 mil vítimas. O primeiro vagão descarrilhou no dia 21 de junho de 2020. O segundo, saiu dos trilhos 48 dias depois (08/08), somando 100 mil falecimentos. O terceiro se perdeu no dia 10 de outubro somando 150 mil vítimas fatais. O quarto se soltou no dia 07 de janeiro de 2021, acumulando 200 mil mortes. O quinto se desprendeu no dia 24 de fevereiro notificando 250 mil óbitos e, 28 dias depois, o último vagão baldado, com outros 50 mil óbitos, foi registrado na quarta-feira passada (dia 24 de março de 2021), atingindo a lastimável marca de 300 mil vidas perdidas para a covid-19.

Se as instituições da “Ferrovia Brasil” estivessem funcionando com presteza e seriedade, o trem poderia ser controlado e paralisado. Mas nada parece deter a máquina maluca que mais parece o Titanic, pois há vagões realizando festas, enquanto a República assiste bestificada as manobras descontroladas dos maquinistas, comandados por um capitão genocida. Neste ritmo, pode-se prever (entre os diversos cenários possíveis) que o sétimo vagão se perderá, com uma distância de apenas 24 dias, no dia 16 de abril e o oito sairá dos trilhos no dia 13 de maio, somando 400 mil vidas perdidas. Provavelmente alguma coisa será feita para mitigar esta tragédia e para diminuir o ritmo das perdas. Supondo que em algum momento o ritmo do trem vá diminuir, o nono vagão poderá ficar atrelado por 45 dias antes de descarrilhar (no dia 26 de junho) e o décimo vagão poderá se manter por 50 dias antes de tombar com outras 50 mil mortes, acumulando, em 14 de agosto de 2021, a dramática cifra de meio milhão de vidas perdidas nesta fatídica jornada do maligno serial killer, chamado coronavírus (parente impiedoso da “gripezinha”).

O Brasil se destaca na comparação dos 10 maiores países do mundo, em termos demográficos. Conforme mostra o gráfico abaixo, para a semana de 21 a 27 de março, na dezena que engloba as nações mais populosas do globo, o Brasil (com 2,7% dos habitantes globais) somou a média de 2.543 mortes diárias, enquanto os EUA tiveram 998 mortes diárias em média, o México 517 óbitos, a Rússia 395 óbitos, a Índia 251 óbitos, a Indonésia 120 óbitos, o Paquistão 50 óbitos, Bangladesh 29 óbitos, Nigéria 2 óbitos e na China não houve nenhuma morte por covid-19. Portanto, o volume de vidas perdidas na semana no Brasil foi superior à soma das mortes dos outros 9 países, que, em conjunto, registraram 2.362 óbitos diários, embora possuindo 4,3 bilhões de habitantes, o que representa 55% da população total do Planeta.

A situação brasileira é calamitosa. A campanha de vacinação está mais devagar do que o andor de barro. Em consequência, boa parte do Brasil estará em lockdown no domingo de Ramos (28/03) e o país passará a Semana Santa em penitência. Como mostrou Agostinho Vieira, aqui no # Colabora, no dia 24/03, o Brasil poderia ter salvo a vida de dezenas de milhares de seus filhos e filhas se tivesse levado a sério as políticas de saúde e de controle sanitário: “Se apenas uma vida pudesse ser preservada já faria uma enorme diferença. Nada aconteceu”.

O panorama nacional

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil teve novamente a sua pior semana epidemiológica com números acumulados em toda a série de 12.490.362 pessoas infectadas e 310.550 mil vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 2,5%. Foram 54 casos e 1,8 mortes para cada minuto da semana. As médias móveis de 7 dias superaram todos os montantes anteriores e ficaram em 77,1 mil casos e 2.543 óbitos.

O gráfico abaixo mostra a média diária de casos nas diversas semanas epidemiológicas de 22 de março de 2020 a 27 de março de 2021. Nota-se que o número de casos subiu rapidamente até o pico de 45,7 mil casos diários na semana de 19 a 25/07. A partir do final de julho o número médio de casos, com algumas oscilações, caiu até o mínimo de 16,8 mil casos na primeira semana de novembro. Mas a partir daí teve início uma 2ª onda de contágio que culminou com 47,5 mil casos em meados de dezembro, houve uma breve queda nos feriados de fim de ano e uma nova marca recorde da curva epidemiológica de 77,1 mil casos diários na semana de 21 a 27 de março de 2021. O Brasil vai começar a Semana Santa com perspectiva de números ainda mais elevados, se as medidas de isolamento social e restrição das atividades não funcionarem na prática.

O gráfico abaixo, mostra a variação média diária de óbitos nas diversas semanas epidemiológicas de 22 de março de 2020 a 27 de março de 2021. Observa-se que o número diário de óbitos da covid-19 passou de 13 vítimas diárias na semana de 22 a 28/03 para o pico de 1.097 em 19 a 25 de julho de 2020. Nas semanas seguintes, com pequenas oscilações, os números foram caindo até 343 óbitos diários em 01 a 07/11. Porém, houve inflexão da curva e o número médio de vítimas fatais voltou para a casa de 1.000 óbitos diários em janeiro e ultrapassou 2.000 óbitos diários em março. Na semana de 21 a 27 de março foram registrados, em média, 2.543 mortes diárias, confirmando a semana mais letal de toda a série histórica da pandemia.

O panorama global

O Planeta ultrapassou 126 milhões de pessoas infectadas e 2,7 milhões de vidas perdidas para a covid-19 no dia 27 de março de 2021, com taxa de letalidade de 2,2%. As médias móveis de 7 dias voltaram a subir e estão em 540 mil casos diários e 9,5 mil óbitos diários, segundo o site Our World in Data, com base nos dados da Universidade Johns Hopkins.

O gráfico abaixo mostra a evolução da média diária dos casos da covid-19 no mundo, desde o início de março de 2020. Nota-se que o número de infecções passou de 7 mil casos diários entre 08 e 14 de março para 329 mil casos no início de outubro de 2020, acelerou em seguida e, depois de uma leve redução no final do ano, atingiu o pico absoluto de 728 mil casos na semana de 03 a 09 de janeiro de 2021. A partir daí houve uma queda abrupta e o número de casos diários atingiu 363 mil casos na semana de 14 a 20 de fevereiro. Porém, os números voltaram a subir ligeiramente nas últimas 5 semanas, em parte, devido ao aumento ocorrido no Brasil e na Índia, mas também por conta de uma 3ª onda que teve início na Europa e em alguns países do Oriente Médio.

O gráfico abaixo mostra a média diária de óbitos no mundo por semanas epidemiológicas. Na segunda semana de março houve menos de 1 mil mortes diárias, mas entre 29/03 e 04/04 já tinha saltado para 5,2 mil óbitos diários e o primeiro pico aconteceu na semana de 12 a 18 de abril com 7 mil mortes diárias. Nas semanas seguintes os números variaram, mas foram sempre menores do que o pico de abril, atingindo 6,5 mil na última semana de outubro. Todavia, nas diversas semanas de novembro foram batidos recordes sucessivos e na quarta semana foi ultrapassado o limiar de 10 mil mortes diárias. O pico da 2ª onda ocorreu na semana de 24 a 30 de janeiro, com 14,1 mil óbitos. No mês de fevereiro houve queda significativa e na primeira quinzena de março uma queda mais modesta. Todavia, o número de mortes voltou a subir nas duas últimas semanas, se aproximando de 10 mil vidas perdidas a cada 24 horas.

Em números acumulados, os EUA, o Brasil e a Índia estão no pódio do ranking dos países mais impactados da pandemia, em termos absolutos. Mas para comparar os países de diferentes dimensões é preciso considerar o peso demográfico. O gráfico abaixo apresenta o coeficiente de mortalidade (óbitos por milhão de habitantes) dos países do topo do ranking, a média mundial, os exemplos da Índia e Uruguai e, por fim, alguns dos países que conseguiram vencer o SARS-CoV-2 e tiveram baixíssima proporção de mortes entre a população.

A República Tcheca e a Hungria já passaram de 2 mil mortes por milhão de habitantes. A Bélgica, a Eslovênia e a Bósnia e Herzegovinea possuem coeficientes entre 1.900 e 2.000 mortes por milhão. O Brasil já aparece em 16º lugar com 1.478 mortes por milhão (segundo o Ministério da Saúde). A média de mortes do mundo é de 358 óbitos por milhão, sendo que o Uruguai tem 251 óbitos por milhão e a Índia 117 óbitos por milhão. Entre os países menos impactados pela pandemia estão Nova Zelândia (5 óbitos por milhão), China (3 óbitos por milhão), Camboja (0,5 óbito por milhão) e Vietnã e Taiwan com 0,4 óbito por milhão de habitantes.

O ranking dos países não é fixo, pois muda em função dos diferentes ritmos nacionais da pandemia. Há países subindo no ranking e outros descendo. No dia 12 de fevereiro, apresentamos o gráfico abaixo (à esquerda) no Diário da Covid-19, intitulado “Na contramão da queda global, mortes sobem no Brasil”, aqui no # Colabora, quando o Brasil estava na 22ª posição do ranking. Mas, como vimos no gráfico anterior (reproduzido abaixo no painel da direita), o Brasil deu um salto para a 16ª posição, ultrapassando: Colômbia, Suíça, Lituânia, Suécia, França, Panamá e Croácia. A Bélgica que estava em primeiro lugar em fevereiro caiu para o 3º lugar, enquanto a República Tcheca que estava em 4º lugar, passou para a liderança geral. Portugal estava em 8º lugar e caiu para 12º lugar. A Suíça estava em 20º lugar e caiu para 27º lugar. O Camboja que não tinha registrado nenhuma morte até fevereiro, anotou 8 mortes em março e atingiu o coeficiente de 0,5 óbito por milhão de habitantes. Entre todos os países, o Brasil é o que apresenta o ritmo mais acelerado de mortalidade. Entre os países da América Latina, o Brasil deve ultrapassar o Peru e o México ainda no mês de abril ficando na triste liderança da mortalidade da região. Se a pandemia não for mitigada, o Brasil pode pular para o grupo das 10 nações com maior coeficiente de mortalidade até o mês de junho de 2021, ficando em companhia apenas de países de clima mais frio e de estrutura etária mais envelhecida.

O Ministério da Saúde registrou 3.438 vidas perdidas para o novo coronavírus no sábado (27/03), imediatamente anterior à Semana Santa. Foi um recorde absoluto e indesejado para qualquer dia, mas especialmente para um sábado. Foi também o terceiro dia com mais de 3 mil mortes na semana. Na quarta-feira (24/03) o Brasil atingiu 300 mil mortes e no sábado ultrapassou 310 mil falecimentos provocados pela covid-19. Desta forma, o trem pandêmico continua avançando em ritmo alucinante e fazendo vítimas em todo o território nacional. O expresso que fez as primeiras vítimas em 2020, deve superar as suas próprias marcas em 2021 e, mesmo sem o general Pazuello, já parte com atropelo para 2022. O novo Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tem dado algumas declarações sensatas, mas o seu receituário deveria ter sido adotado quando o “trem” ainda estava na estação de partida. O plano de imunização deveria ter sido planejado com antecedência e com uma logística adequada. Atualmente, a pandemia impõe desafios que devem ser tratados com grandeza de ideias, liderança e firmeza na ação. Mas estes valores parecem distantes dos dirigentes encastelados no Planalto.

Frase do dia 28 de março de 2020

“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Referências:

Agostinho Vieira. Covid-19: Brasil chega a 300 mil mortes. Quantas poderiam ter sido evitadas?, # Colabora, 24/03/2021

https://projetocolabora.com.br/ods3/brasil-chega-a-300-mil-mortes-pela-covid-19/

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Na contramão da queda global, mortes sobem no Brasil, # Colabora, 14/02/2021 https://projetocolabora.com.br/ods3/na-contramao-da-queda-global-mortes-sobem-no-brasil/

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor e pesquisador independente. Currículo Lattes em http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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