Diário da Covid-19: Até no Equador o pior já passou

Enquanto isso, Brasil bate recordes de casos e mortes e segue com a saúde desgovernada

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 6 de junho de 2020 - 12:04 • Atualizada em 7 de junho de 2020 - 09:49

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No transporte público, em Quito, passageiros mantêm uma distância segura entre si como uma medida preventiva contra a propagação da covid-19. Foto Rodrigo Buendia/AFP

O Equador passou por maus momentos nos meses de março e abril de 2020. O elevado número de mortes e as cenas de caixões abandonados nas ruas em frente ao Hospital Guasmo Sur General, em Guayaquil, assustaram o mundo e as mortes provocadas pela covid-19 fizeram o sistema funerário da cidade entrar em colapso. O Equador ainda é o país da América do Sul que possui o maior coeficiente de mortalidade, considerando os números acumulados, mas nas cifras diárias o país andino tem apresentado valores decrescentes.

Para conhecer melhor os dramas e os desafios enfrentados pelo povo equatoriano fizemos uma entrevista com uma testemunha ocular da luta travada contra o novo coronavírus no Equador, o demógrafo e professor do “Centro de Estudios de Población” da “Universidad San Francisco de Quito” e atuante membro da Associação Latino Americana de População (ALAP). Mas como de costume, vamos iniciar este diário com uma breve caracterização sociodemográfica e econômica do país e alguns dados comparativos do avanço da pandemia na América do Sul (com base em informações oficiais sujeitas a todos os problemas de subnotificação já discutidos).

Breve panorama demográfico e socioeconômico do Equador

O Equador é um dos 2 países da América do Sul que não fazem fronteira com o Brasil (o outro é o Chile). Tem uma área de 256.370 km2 e uma densidade demográfica de 55 habitantes por km2. Segundo a Divisão de População da ONU, o Equador tinha uma população de 3,5 milhões de habitantes em 1950, chegou a 17,6 milhões em 2020 e deve atingir, na projeção média, 24,5 milhões de pessoas em 2100.

As mulheres equatorianas tinham em média 6,8 filhos no quinquênio 1950-55, acima da média da América Latina e Caribe (ALC), mas a fecundidade caiu, embora o valor de 2,4 filhos, no quinquênio 2015-20, continue acima da média da região. Os indicadores de mortalidade infantil e de esperança de vida ao nascer estavam abaixo da média da ALC em meados do século passado e agora estão ligeiramente melhor do que o resto do continente. O Índice de Envelhecimento (IE) era de 20 idosos (60 anos e mais) para cada 100 jovens de 0 a 14 anos e está em 40 idosos por 100 jovens atualmente. Em consequência, o Equador possui uma estrutura etária rejuvenescida, o que propiciaria melhores condições para reduzir a letalidade da pandemia.

Em 1980, o Equador tinha uma renda per capita pouco acima da média mundial, mas cerca de 70% da renda da América Latina e do Brasil. Nos últimos 40 anos a renda do Equador seguiu, aproximadamente, o mesmo ritmo da região, mas ficou muito abaixo da média mundial. Conforme mostra o gráfico abaixo, com base nos dados do FMI, a preços correntes, em poder de paridade de compra (ppp na sigla em inglês), o Equador tinha, em 2019, uma renda de US$ 11,7 mil, enquanto o Brasil e a ALC tinham renda de cerca de US$ 16,6 mil e a média mundial de US$ 18,4 mil.

Dados sobre a Covid-19 no mundo, na América do Sul, no Brasil e no Paraguai

A América do Sul tem se consolidado como o novo epicentro da pandemia do coronavírus. Na América do Sul, o Brasil é o país que apresenta o maior número de casos e mortes, mas o Equador é o país que apresenta o maior coeficiente da mortalidade. O Brasil tem 2,7% da população mundial, mas tem 9,4% dos casos e 8,8% dos óbitos globais. A América do Sul tem 5,5% da população mundial, mas tem 15,7% dos casos e 11,9% dos óbitos. O Equador que tem 0,23% da população mundial, tem 0,6% dos casos e 0,9% dos óbitos globais, conforme a tabela.

A tabela também mostra que o Equador está em quarto lugar em coeficiente de incidência e está numa situação intermediária em relação à quantidade de testes por milhão. Mas o continente está claramente dividido entre um grupo de 4 países com forte impacto da pandemia (Brasil, Peru, Chile e Equador) e dois outros países que conseguiram evitar a explosão de casos e de mortes, como o Uruguai e o Paraguai.

Os gráficos abaixo, com base em material do jornal Financial Times que apresenta a série de dados dos países para o número de casos e de mortes, a partir da média móvel de sete dias (uma semana) dos novos casos e novas mortes, por número de dias desde que foram alcançadas, em média, três mortes pela primeira vez. O gráfico da esquerda apresenta o coeficiente de incidência e o gráfico da direita apresenta o coeficiente de mortalidade. Em ambos, o Equador se destacava nos dois primeiros meses, mas conseguiu reduzir os impactos diários no mês de maio e início de junho.

Evidentemente, o Equador ainda tem um longo caminho para controlar a propagação do vírus e reduzir às mortes a zero. Mas parece que o país já passou o pico e agora começa a descer a curva, ao contrário do Brasil e outros países latino-americanos que ainda estão com o surto pandêmico se expandindo. Sem dúvida, a América do Sul tem um grande desafio pela frente nos próximos meses.

Entrevista com o demógrafo Júlio Ortega sobre a pandemia da covid-19

Para entender melhor o que acontece no Equador, apresentamos a entrevista a seguir com um estudioso das questões populacionais e morador da cidade de Quito.

Quando o Equador percebeu a gravidade da pandemia?

Júlio Ortega – Em 14 de fevereiro, em uma conferência de imprensa realizada na cidade de Guayaquil, o Ministro da Saúde confirmou a presença do primeiro caso “importado” de covid-19 no Equador. Era uma cidadã equatoriana que chegou da Espanha naquele dia no aeroporto de Guayaquil. Quando ela chegou, não tinha sintomas. No entanto, dias depois, mostrou desconforto e febre, razões pelas quais ela foi hospitalizada e os respectivos testes para a doença de covid-19 foram realizados e deu positivo.

Quinze dias após a chegada do paciente zero, o Ministério do Governo suspendeu os massivos eventos nas cidades de Guayaquil e Babahoyo devido ao primeiro caso de coronavírus registrado no Equador e pediu aos cidadãos das duas cidades que tomassem precauções extremas para impedir a propagação do vírus.

Júlio Ortega, demógrafo do Equador. Foto Arquivo Pessoal
Júlio Ortega, demógrafo do Equador. Foto Arquivo Pessoal

No entanto, a mesma autoridade que cancelou os eventos autorizou a realização de grandes aglomerações em Guayaquil na terça-feira, 3 de março de 2020, limitando a proibição em Babahoyo, uma cidade a apenas 70 quilômetros de Guayaquil. Um dos eventos realizados na quarta-feira, 4 de março, foi a partida da Copa Libertadores entre Barcelona e Independiente del Valle.

Na tarde da sexta-feira, 13 de março, o governo confirmou que o paciente zero morreu do coronavírus. Naquela época, já havia 23 casos confirmados, mas o país ainda não deu a relevância necessária à pandemia.

O que faz entender a gravidade da epidemia foi o aparecimento de cadáveres nas ruas de Guayaquil, pois isso era um sinal de que esses pacientes não podiam acessar ambulâncias, muito menos o sistema público de saúde. Em 1º de abril, já havia 70 mortos por Covid e 52 deles pertenciam à província de Guayas, da qual Guayaquil é a capital.

Que medidas sanitárias foram tomadas pelo governo e pela sociedade civil?

Júlio Ortega – A primeira medida, tomada pelo governo, foi criar uma barreira epidemiológica para as 177 pessoas que haviam tido contato com a paciente zero. Então, em 11 de março de 2020, o Presidente Lenin Moreno decretou a emergência nacional de saúde, por meio de uma cadeia nacional. Essas medidas do Executivo envolveram:

  1. Novas medidas de prevenção e controle nos pontos de entrada. Todos os passageiros que chegam de países com o maior número de casos registrados deveriam manter o isolamento no domicílio pelo tempo recomendado pelas autoridades mundiais de saúde. Os passageiros que estiveram na China, Coréia do Sul, Espanha, França, Itália, Alemanha e Irã nos últimos 14 dias devem passar por um confinamento solitário obrigatório de 14 dias na cidade de entrada; se não tivessem casa, teriam que pagar pelo próprio hotel.
  2. Maiores medidas de controle e aplicação de restrições para eventos massivos e concentração de pessoas, de acordo com o risco, considerando o território e o número de casos. O número de pessoas presentes em um evento massivo foi reduzido para 250 pessoas.
  3. Fortalecer as medidas de biossegurança para o pessoal de saúde.
  4. Uso de plataformas tecnológicas em telemedicina, educação on-line e teletrabalho nos casos que o justifiquem. Classes de todos os níveis foram suspensas em todo o Equador enquanto a evolução dos coronavírus no país foi analisada. O ministério da educação promoveu plataformas digitais para tele-educação.
  5. A proibição de exportação de máscaras desinfetantes, sabões e géis foi mantida.
  6. Orientação aos governos autônomos descentralizados (GAD) para adotarem medidas preventivas no transporte público.
  7. Cuidados especiais com idosos, pessoas com deficiência e doenças crônicas e catastróficas. Na sexta-feira, 13 de março, o isolamento foi ordenado por um período ininterrupto de catorze (14) dias para viajantes de Cingapura, Japão e Estados Unidos. Em um acordo interministerial, foi solicitado isolamento preventivo obrigatório para viajantes da Dinamarca, Noruega, Holanda, Suécia e Suíça. No caso dos Estados Unidos, foram especificados os estados de Massachusetts, Califórnia, Nova York e Washington. Assim, eles se juntaram aos outros 10 países registrados anteriormente.

Apesar da importância da festa religiosa da Semana Santa no Equador, a Conferência Episcopal também suspendeu todas as atividades relacionadas a esta celebração religiosa. No sábado, 14 de março, o vice-presidente do Equador, que preside o Comitê de Operações Especiais (COE), anunciou a restrição de entrada de passageiros por 21 dias a partir de terça-feira, 17 de março. E no domingo, 15 de março, o primeiro-ministro Lenin Moreno ordenou que a partir das 06:00 de terça-feira, 17 de março, a mobilização de pedestres e veículos fosse restrita. Os cidadãos tinham que ficar em casa e só podiam sair se fossem ao trabalho, consultas médicas, farmácias, supermercados ou para cuidar de idosos.

Além disso, todas as atividades comerciais foram suspensas em estabelecimentos que concentram grande número de pessoas, exceto aquelas que vendem produtos básicos, produtos farmacêuticos, ortopédicos, animais de estimação e telecomunicações e restaurantes, e que só poderiam servir em serviços domésticos. Testes para detectar o coronavírus covid-19 também foram decretados como gratuitos para pessoas com sintomas.

Na quarta-feira, 18 de março, as autoridades do COE, após dialogar com o governador de Guayas e os prefeitos de Guayaquil, Samborondón, Daule e Durán, decidiram estender o horário do recolher obrigatório nesta província por 13 horas, das 16:00 às 05:00 até segunda-feira, 23 de março, quando a medida seria avaliada e não excluía que as restrições poderiam continuar a aumentar se os cidadãos não colaborassem. A pouca colaboração dos cidadãos da província de Guayas e da cidade de Guayaquil desencadeou o aumento exponencial de infecções e as mortes correspondentes.

Dada a seriedade da situação, na segunda-feira, 23 de março, todos os cantões da província de Guayas foram colocados sob o controle militar após a assinatura do Decreto Executivo nº 1019, que a torna uma zona de segurança especial. E a partir desta quarta-feira, 25 de março, o toque de recolher foi estendido por todo o território equatoriano das 14h às 17h.

Como a quarentena (isolamento social) funcionou no Equador?

Júlio Ortega – A quarentena no Equador, que inclui isolamento social, funcionou de maneiras diferentes, dependendo da cidade, e para isso aparecem dois exemplos, aparentemente opostos.

Por um lado, Guayaquil, juntamente com Samborondón e Durán, que são cantões densamente povoados, nos quais a quarentena não foi respeitada desde o início da pandemia, tanto que, segundo um mapa de calor de uma plataforma digital, ficou evidente que mais de 40% dos infectados foram às ruas. O desrespeito foi tão sério que o presidente os exortou a ficar em sua casa e descreveu o fato de não respeitar a quarentena como “uma ação criminosa”, acrescentando que “eles estão matando outros equatorianos”. E eu adiciono:

Há pessoas que estão inconscientes em alguns casos, irresponsáveis ​​em outros, que, apesar de terem resultado positivo para exames médicos ou suspeitas de terem coronavírus, se movimentam, saem de casa, não cumprem a quarentena, ameaçam suas famílias, amigos, vizinhos ameaçam a todos, isto é, com sua caminhada, com sua caminhada irresponsável, deixam um rastro mortal do coronavírus.

Talvez o que explique o comportamento em Guayaquil é que ele possui uma grande população que vive com empregos informais, realizados precisamente nas ruas e, em geral, suas casas carecem de serviços básicos e o que dizer de ar-condicionado, um requisito essencial para a vida. em uma cidade tão quente quanto Guayaquil. A isto devemos acrescentar que as classes de renda mais alta preferiram manter seu estilo de vida, respeitando nenhuma das disposições de quarentena.

Talvez um ponto não menos importante a considerar em Guayaquil seja a falta de liderança política e credibilidade por parte da população em relação ao seu prefeito. Outro ponto a considerar sobre o que aconteceu em Guayaquil é que, antes do início de março, 300 trabalhadores do serviço de fumigação foram demitidos. Isso aumentou a incidência de dengue e malária em setores já afetados pelo covid-19.

Ao contrário de Guayaquil, em Quito, uma cidade localizada nas montanhas e com um clima médio de 20 graus quase o ano todo, a quarentena era respeitada pelo menos no início. Alguns bairros de Quito, com uma pesada carga de trabalho informal, não respeitam a quarentena ou suas provisões, mas esses bairros juntos não representam a maioria da população, ao contrário de Guayaquil. Outro fato importante é a liderança de seu prefeito – um médico em treinamento – que, desde o início da pandemia, considerou sua gravidade e instou seus concidadãos a ficar em casa e seguir as normas de higiene. Além disso, aumentou a capacidade hospitalar, criando um hospital móvel que no início permaneceu vazio, mas que com o andamento já foi utilizado e justifica o motivo pelo qual foi implantado.

Nas cidades menores, a quarentena foi cumprida e isso é explicado pelo fato de o nível de informalidade ser menor e nos setores rurais serem autossustentáveis ​​em termos de alimentos. Um caso separado merece a questão da migração venezuelana, pois é uma população vulnerável e, obviamente, mais em uma pandemia como essa. Em geral, eles vivem dia após dia e, se a situação era difícil antes da pandemia, é ainda mais difícil agora. É comum vê-los em grupos nos semáforos pedindo moedas ou em famílias caminhando pelos bairros de classe média pedindo dinheiro ou comida.

Segundo dados oficiais, o Equador e o Brasil parecem estar em pleno andamento nas infecções e na mortalidade por covid-19. Qual é a sua visão em relação ao caminho futuro? Quando, por exemplo, o Equador alcançará o pico e começará a controlar a pandemia?

Júlio Ortega – Em 22 de abril, o novo ministro da Saúde do Equador, Juan Carlos Zevallos, afirmou que a cidade de Guayaquil, epicentro da pandemia de coronavírus no país, atingiu o “platô” na curva de contágio. A métrica usada para essa afirmação é a redução no número de casos confirmados e suspeitos, bem como as chamadas feitas para 171, que é a linha telefônica habilitada para aqueles com sintomas relacionados ao coronavírus.

No entanto, em Quito, uma cidade que, considerando os primeiros 50 dias de quarentena, é um outro foco principal do vírus, os números estão aumentando porque, depois desses 50 dias, muitas pessoas deixaram de respeitar a quarentena e saíram às ruas e mercados.

Algumas cenas do início da pandemia, mostradas pela mídia, mostraram uma situação dramática em alguns lugares, como Guayaquil. Isso mudou? Existem outras diferenças regionais?

Júlio Ortega – Sim, as circunstâncias mudaram, especialmente em Guayaquil, e parte da mudança se deve à redução de infecções e morte. No entanto, em 11 de maio de 2020, em Guayaquil, persistiram os problemas de identificação de cadáveres e acúmulo de cadáveres sem sepultamento em um dos principais cemitérios da cidade.

Em Quito, como a quarentena era respeitada no início, mas devido ao fato de se estar saindo da quarentena e as pessoas estão indo às ruas de maneira massiva, a taxa de contágio aumenta, mas de maneira controlada. Além disso, medidas sanitárias foram tomadas com antecedência, como a criação de hospitais móveis, apesar da ausência de pacientes. No momento da redação desta entrevista, a capacidade de ocupação do sistema público de saúde já estava ocupada em 80%.

Como o Brasil, poucos testes foram realizados no Equador e parece haver subnotificação de casos e registro de óbitos. Em caso afirmativo, qual é a dimensão disso no Equador e como essa (des) informação afeta as ações e políticas de saúde para conter a pandemia?

Júlio Ortega – No início da pandemia havia pouca disponibilidade de evidências, além do atraso no processamento dos dados, subnotificação dos casos. Quando os testes foram processados ​​com sucesso, a tendência de séries temporais sofreu um salto, embora tenha mantido a tendência de crescimento, exceto por alguns picos causados ​​pela emissão de testes mais reprimidos ou pelo aumento na porcentagem de testes realizados.

Da mesma forma, o grande número de mortes, especialmente em Guayaquil, não foi gerenciado de forma a manter um registro atualizado. Acredita-se até que o número de mortos em Guayaquil seja quase o triplo do declarado pelo governo. O baixo registro e a desinformação, em vez de afetar as políticas de saúde pública, fizeram com que os cidadãos subestimassem a gravidade da pandemia e continuassem a sair às ruas.

Existem medidas econômicas tomadas pelo governo para garantir que as pessoas mantenham sua sobrevivência?

Júlio Ortega – No início da pandemia, o governo decidiu entregar nos meses de abril e maio um chamado título de contingência. Um “call center” foi ativado no Ministério da Inclusão Econômica e Social (MIES) para averiguar se era beneficiário do referido vínculo. De acordo com o MIES, 400 mil pessoas receberiam esse bônus em abril e maio de 2020. O bônus de contingência era de US$ 60 e era destinado a vendedores ambulantes, pessoas que vivem diariamente, que vivem do cabeleireiro ou vendem em pequenos bazares. O título foi pago através do último dígito do ID, por meio de correspondentes não financeiros, como “Banco del Barrio” e “Mi Vecino”, que são baseados em lojas de bairro.

Os beneficiários desse vínculo de contingência não eram as mesmas pessoas que recebem o Bônus de Desenvolvimento Humano (BDH), um benefício que atinge 74 mil famílias e recebe 50 dólares mensais. Da mesma forma, nesses meses, 245.000 kits de alimentos já haviam sido entregues em todo o país desde a semana passada.

Em seguida, foi criada uma segunda fase do título de contingência, chamada Título de Proteção à Família, que consistia em um pagamento único de US$ 120, a ser entregue entre 1º de maio e 30 de junho de 2020, para ajudar 550.000 equatorianos na emergência de saúde por coronavírus. Estes se juntariam aos 400.000 que já estavam coletando esse apoio emergente do Estado através do MIES.

Para evitar multidões e que os beneficiários não precisam sair duas vezes para receber o bônus de proteção à família, foi determinado que esse benefício pode ser realizado nos 10.200 pontos de pagamento disponíveis na rede financeira nacional e que incluem correspondentes não bancários, como Banco del Barrio, Tu Banco, Mi Vecino e Banco Aqui, que operam em lojas, farmácias ou pequenos supermercados. Além disso, houve coordenação das Cooperativas de Poupança para que a entrega fosse realizada em pequenas cidades e locais distantes dos centros financeiros.

Existem medidas que os especialistas consideram necessárias, mas não estão sendo implementadas?

Júlio Ortega – Existem duas medidas recomendadas por especialistas e que não estão sendo respeitadas como deveriam: a primeira é o distanciamento social, quando as pessoas estão em locais como mercados, supermercados, farmácias, etc. e que deve ter pelo menos dois metros.

E o segundo é o isolamento obrigatório, porque, por diferentes razões, não é respeitado, seja pela necessidade de sair para o trabalho, pela pressão para manter as empresas produtoras ou simplesmente porque as pessoas que você ama não suportam seguir o confinamento que já excedeu 70 dias. Nas cidades onde o transporte público já é permitido, a capacidade de 30% nos ônibus não é respeitada, conforme indicado no regulamento.

Quando e como o governo planeja encerrar a quarentena?

Júlio Ortega – Em vez de planejar o fim da quarentena, o que o governo fez foi pensar em um plano de recuperação econômica e semáforos para retomar as atividades normais. O primeiro exemplo disso foi dado em 20 de abril, autorizando a retomada exclusiva de dois setores econômicos: a construção e a comercialização de material de escritório e papelaria.

Então o governo decidiu que, a partir de 4 de maio, passaria do isolamento para o distanciamento social no Equador, baseando essa decisão em indicadores relacionados à emergência de saúde. Para isso, um sistema de semáforo foi implementado e o GAD recebeu a decisão de alterar a cor do semáforo. Para definir o passo do semáforo, são levadas em consideração a curva de contágio de cada cantão, a capacidade de realizar testes ou a colaboração da população. No entanto, o isolamento da população é mantido e há proibição total de eventos massivos e suspensão de aulas.

Semáforo vermelho

  • Eles manterão as medidas com restrição.
  • Toque de recolher: das 14:00 às 05:00.
  • Circulação de veículos restrita a um dia por semana.
  • O comércio on-line será expandido, com entrega em domicílio.

Semáforo amarelo

  • Empresas públicas e privadas podem trabalhar com 50% da equipe.
  • Carros particulares podem circular dois dias por semana.

Semáforo verde

  • As empresas públicas e privadas podem trabalhar até 70% da capacidade com horários diferentes para os trabalhadores.
  • Eles abrirão fisicamente algumas lojas.

Finalmente, sob certos protocolos, é proposta a reabertura de aeroportos para voos nacionais e internacionais a partir de 1º de junho.

Existem lições que você acha que o Equador pode ensinar ao Brasil neste momento diante da pandemia?

Júlio Ortega – Sim, não tanto como país, mas como cidade. Quito é um exemplo de respeito à quarentena, apesar do impacto econômico, uma vez que seu prefeito tomou as respectivas disposições para fortalecer o sistema de saúde e também teve a capacidade política de convencer seus concidadãos a cumprir os padrões exigidos para enfrentar a pandemia.

O mesmo pode ser ensinado como exemplo para não seguir Guayaquil, porque, apesar das indicações que a população foi solicitada a seguir, as medidas não foram respeitadas ou cumpridas, fazendo com que Guayaquil e sua província concentrassem 70% dos casos. em todo o país e a ponto de saturar hospitais e cemitérios, tanto que cadáveres apareceram nas ruas.

O Brasil pode aprender com o Equador, implementando a quarentena, uma vez que essa medida ajuda a reduzir infecções, mortes e impede o colapso do sistema de saúde pública. Outro aprendizado seria manter um discurso coerente e semelhante entre todas as entidades públicas, por exemplo, os executivos e os governos locais ou municipais.

Como você e sua família estão enfrentando esses meses de quarentena?

Júlio Ortega – Graças às condições de trabalho estáveis, podemos cumprir a quarentena e o isolamento social usando o teletrabalho. Da mesma forma, devido à nossa situação econômica, temos a capacidade de escolher um estilo de vida saudável que inclua exercícios e uma dieta equilibrada. Diferentemente de milhares de famílias, todos os dias precisam procurar uma fonte de trabalho, o que aumenta a probabilidade de contágio e morte.

Bibliografia: As informações que aparecem nesta entrevista foram extraídas dos jornais nacionais “El Comercio” e “El Universo” entre as datas de 14 de fevereiro a 20 de maio de 2020

 Frase do dia 06 de junho de 2020

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”

Clarice Lispector (1920-1977)

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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