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Apenas mais um dia de resistência na Cidade de Deus

Na última semana, em uma operação policial, um blindado destruiu barracos na área mais pobre da favela. Mas seus moradores não cruzaram os braços


Moradores da localidade do Brejo, na Cidade de Deus, se reúnem após a destruição de parte das suas casas pela PM. Foto Arquivo Pessoal
Moradores da localidade do Brejo, na Cidade de Deus, se reúnem após a destruição de parte das suas casas pela PM. Foto Arquivo Pessoal

Na favela carioca, até a pobreza é desigual. A entrada é de concreto, costuma ter coleta de lixo, está próxima das linhas de transporte municipal. As casas ostentam cômodos relativamente amplos, ocupados com os mesmos móveis e eletrodomésticos que teria um apartamento da classe média. Quanto mais adentro, menos conforto, menos direitos básicos, mais violências. Até chegar aonde quase tudo falta.

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Na Cidade de Deus, esse lugar é o Brejo. A localidade tem menos de uma década. Foi erguida, sim, em cima de um brejo. Os cerca de 400 barracos de compensado são pressionados pelo mato alto pantanoso. Cobras com frequência aparecem dependuradas nas janelas dos fundos, chegam a entrar nas casas. Jacarés não são raros. As famílias de três, quatro filhos se dividem em um ou dois cômodos, há poucos móveis. Não tem coleta, não tem transporte. Há constantes ameaçadas de remoções. O tráfico é mais visível.

Não moramos por ostentação, porque queremos, ou talvez por prazer!!! Estamos aqui por necessidade, e em nome do povo brasileiro, da democracia…respeitem nosso lugar, nossas casas, nossas crianças…

Rafael Alvez
Mototáxi

“É nesses lugares que a violência do Estado é também mais forte”, comentou em outra ocasião Luciano dos Santos, líder comunitário, representante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

Isso deve explicar por que, na manhã da última terça-feira (3), um blindado do Bope cruzou as vielas que cortam a área, derrubando a fiação elétrica e abalando a estrutura dos barracos. Não foi a primeira vez que aconteceu, relatam os moradores. Mas foi a primeira que eles filmaram e divulgaram o episódio nas redes. Foi a primeira que provocou uma manifestação: a rua Edgard Werneck, principal via a cortar a favela, foi fechada durante uma hora e meia.

Rafael Alves queria ser jornalista, mas a vida, incluindo o nascimento das duas filhas, o levou ao mototáxi. Foto Flávia Milhorance
Rafael Alves queria ser jornalista, mas a vida, incluindo o nascimento das duas filhas, o levou ao mototáxi. Foto Flávia Milhorance

“Se só assim que a gente é ouvido, é assim que vai ser”, disse Rafael Alves, um dos moradores que denunciou o caso nas redes sociais. “Estamos cansados”.

A resposta veio em seguida. Na sexta-feira pela manhã, moradores do Brejo voltavam de uma reunião com autoridades da Polícia Militar. A corporação explicou que o ocorrido foi um acidente e se comprometeu a custear os prejuízos provocados. Também informou ter prendido um suspeito de chefiar o tráfico local.

No mesmo dia, uma comitiva de organizações de saúde mental e direitos humanos percorreu o local, avaliando os danos, coletando relatos e orientando juridicamente os moradores. A visita foi organizada pela Ouvidoria da Defensoria Pública do Rio, que monitora denúncias de abusos das forças armadas em favelas cariocas. Eles voltarão a se reunir com moradores da região em duas semanas.

O blindado do Bope no momento em que cruzava as vielas do Brejo derrubando a fiação elétrica. Foto Rafael Alves
O blindado do Bope no momento em que cruzava as vielas do Brejo derrubando a fiação elétrica. Foto Rafael Alves

Sonho adiado 

Rafael Alves tem 23 anos e queria ser jornalista. Mas a vida, incluindo o nascimento das duas filhas, o levou ao mototáxi. É temporário, garante ele. Enquanto a profissão dos sonhos não vem, ele me mostra orgulhoso o post que publicou em sua rede social denunciando o abuso do Estado.

Essa história é comum ali. Conversei com mais de uma dezena de moradores: nenhum tem carteira assinada. Alguns homens, como Rafael, têm trabalhos informais ou bicos ocasionais. Mas é o programa federal Bolsa Família repassado às mães que os mantêm longe da fome.

Há muitas crianças. Logo na entrada do Brejo, uma menina de conjunto rosa e chinelos puídos abraçava com força um filhote de vira-lata e, em seguida, estendia os braços magricelos para cima, elevando-o como um Rei Leão. O cachorro, na realidade, se chama Lobo. “É porque ele é um lobo de verdade”, tentou me convencer. A reação calorosa era saudade, ela estava fora de casa desde o dia da operação policial.

Um pouco à frente, havia um menino de uns 2 anos afundando, numa poça d’água, um pedaço de plástico vermelho que já deve ter sido, um dia, um brinquedo. Havia muitas poças, principalmente depois da chuva intensa do dia anterior, e os pequenos não se inibiam com elas – embora, com a precariedade do saneamento, não fossem só de água acumulada.

Adultos e crianças colecionam marcas na pele, de picadas, micoses ou problemas que não chegam a ser notados ou diagnosticados. Um homem me perguntou como eles podiam organizar uma campanha de vacinação na região. Doenças infecciosas, como a tuberculose, se proliferam com facilidade na favela.

“A vida aqui já é difícil, imagina com a polícia agindo dessa forma”, comentou outra moradora, Célia Maria. “Tratam a gente como bicho”.

Menina de conjunto rosa brinca com o Lobo como se fosse o Rei Leão: "É porque ele é um lobo de verdade”. Foto Flávia Milhorance
Menina de conjunto rosa brinca com o Lobo como se fosse o Rei Leão: “É porque ele é um lobo de verdade”. Foto Flávia Milhorance

Operações frequentes

A Cidade de Deus tem sido o principal alvo de operações policiais para o combate ao tráfico de drogas este ano. Foi na ação de terça-feira, contam os moradores, que o veículo blindado, largo demais para as vielas, deixou um rastro de destruição por onde passou. Houve danos nas telhas e nas fachadas dos barracos. Nenhum chegou a ser derrubado.

O prejuízo é alto para aquela população que não tem o luxo de descartar nada. Uma senhora se revoltava de terem quebrado um contêiner de lixo. “Paguei R$ 70 nele!”, ouvi-a gritar.

E o estresse, intenso. Quando viu o blindado, Suelen Alves rapidamente colocou o filho de 8 anos no colo e pediu que parassem. “Eles não respeitaram, me xingaram e me mandaram sair da frente”. Ela assistiu à fachada de sua casa sendo destruída na sua frente.

No mesmo dia, no entanto, a reconstrução começou. Um mutirão recolocou os fios elétricos, limpou os entulhos das vielas, ajeitou o que podia. Quatro dias depois, a rotina já tinha voltado ao normal nas ruas do Amor, da Esperança e do Céu, que compõem a localidade. Aquelas pessoas se acostumaram a se reerguer.


Escrito por Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

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