‘Deus, não deixa eu gostar de homens’, pedia jovem gay evangélico

Com medo de ir para o inferno, estudante Gabriel Pires pedia para não ser homossexual. Do passado cristão, só guarda a ideia de amor que Jesus propagava.

Por Alceu Júnior | ODS 16 • Publicada em 26 de agosto de 2019 - 08:06 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:33

Com medo de ir para o inferno, estudante Gabriel Pires pedia para não ser homossexual. Do passado cristão, só guarda a ideia de amor que Jesus propagava.

Por Alceu Júnior | ODS 16 • Publicada em 26 de agosto de 2019 - 08:06 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:33

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Foi ainda na escola que Gabriel começou a sentir atração por meninos (Foto: Yuri Fernandes)

“Deus, não deixa eu gostar de homens”.  Em um retiro da Igreja Batista, o pastor anunciava que os pedidos feitos com fé seriam atendidos. Com medo de ir para o inferno, Gabriel Pires pedia para não ser gay. As incertezas acabaram aos 18 anos, quando beijou o primeiro menino. Hoje, aos 23, ele não sente vergonha e se apresenta como “Bicha” no terceiro episódio da série “LGBTs: Fora do Culto”.

Clique para assistir a todos os episódios de “LGBTs: Fora do Culto” aqui

Como você pode dizer que você ama Deus que você não consegue ver, se você não ama uma pessoa que está ao seu lado?

Gabriel Pires
Estudante

Foi ainda na escola que Gabriel começou a sentir atração pelos meninos da turma: “Eu tentava reprimir porque eu sabia que aquilo era errado e não podia sentir.” Nos grupos de estudo bíblico, trechos que falavam sobre homossexualidade não eram discutidos, nem contextualizados historicamente. Segundo ele, ser LGBT era um pecado sem direito à salvação. Sozinho, decidiu encontrar novas interpretações para os versículos. Aos poucos, se libertou do medo de ser homossexual. “Eu ainda fiquei lidando com isso durante muito tempo sozinho”, contou.

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“Minha mãe que me tirou do armário”, lembra Gabriel, contando que foi confrontado pelos pais quando comemorou no Facebook a liberação do casamento gay nos Estados Unidos. “Foram semanas muito difíceis, o diálogo ficou bem travado dentro de casa. Eles não sabiam como lidar, e eu não esperava que fosse diferente. Acho que eles tentavam não enxergar que eu era bicha.”

'Deus, não deixa eu gostar de homens', pedia jovem gay evangélico
Foi ainda na escola que Gabriel começou a sentir atração por meninos (Foto: Yuri Fernandes)

Em alguns momentos, Gabriel chegou a tentar fundamentar discussões bíblicas com os pais para mostrar que não há pecado em ser gay,  mas eles nunca quiseram. Do passado cristão, só guarda a ideia de amor que Jesus propagava. “Como você pode dizer que você ama Deus que você não consegue ver, se você não ama uma pessoa que está ao seu lado?” Em uma analogia à perseguição que sofreu, o estudante argumenta que hoje existe uma semelhança na trajetória de sofrimento de Cristo e dos LGBTs. “As pessoas não entenderam ainda o que é esse amor que devem sentir através de Jesus Cristo, porque no meu entendimento, eu sou Jesus. Sou essa pessoa que é rejeitada pela sociedade, eu e os LGBTs em geral”, contou.

Por fim, o estudante afirma que é “o próprio ateu agnóstico” e acredita que há várias possibilidades de entender a verdade do mundo. O de Gabriel já não cabe mais dentro das narrativas bíblicas. “Meu é corpo divergente da norma, construo a minha a pessoa a partir disso.”

Alceu Júnior

Estudante de Jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ, nascido na Zona Leste de São Paulo. Tem interesse por cinema documental e infinita admiração pelas mídias independentes.

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Um comentário em “‘Deus, não deixa eu gostar de homens’, pedia jovem gay evangélico

  1. Gessé Antônio de Souza disse:

    Cristianismo e homossexualidade
    Entendo o drama humano, particularmente tento pinçar a questão do prazer associado à sexualidade humana, em especial -, a homossexualidade, o sofrimento e angústia, face às dificuldades de adaptação social e aos conflitos interiores vividos, por aqueles que, por alguma razão, exibem um comportamento sexual diferenciado. Ora, as questões psicoafetivas, que incluem a sexualidade humana, são extremamente complexas. A ciência ainda não conseguiu explicar isso ainda e qualquer juízo sobre, é preconceituoso. De todo modo, o respeito e amor de Deus estão acima das condições humanas e dos humanos julgamentos, por isso, devemos respeitar e amar a todos, considerando a pessoa acima de suas condições as quais estão submetidas. Por outro lado, penso que não há uma ditadura sexual encarceradora, isto é: um indivíduo qualquer tem o seu desejo sexual voltado para a pedofilia e não tem jeito, é pedófilo consciente e só não o declara porque é crime, mas o pratica aliciando menores escondidamente. Será que a abstinência sexual contra essa orientação (perversão) seria melhor, mais agradável e ética, além de evitar um crime hediondo? O tarado hétero também não poderia ponderar sua tara? Ao contrário, não obstante os prejuízos sociais que causa, um tarado hétero pode recebe até elogios sociais. O homossexual ou mesmo o hétero não podem decidir pela abstinência sexual e não propriamente da abstinência afetiva? Pode-se amar sem sexo, isto é, sem relação genital? Qualquer orifício humano ou membros do corpo, outros objetos de fetiche, podem ser utilizados como instrumentos de satisfação sexual? Desejo afetivo é a mesma coisa que desejo sexual? O que é homoerotismo e heteroerotismo, autoerotismo e orientação de desejo? A erotização permanente da sociedade, envolvendo as crianças, é normal e interessa ao mercado ou não? A quem pertence o seu corpo, o mesmo está sendo usado pelo mercado, pelo outro? Muitas perguntas e poucas respostas, não é? Existe uma ditadura sexual padronizadora, que impede a expressão múltipla e amorosa da sexualidade humana? Existe sexualidade fora do sexo anatômico? Bem, até onde se sabe a sexualidade humana reside na cabeça, e não em genitais ou em seus substitutivos. A energia sexual pode ser transformada em arte, religiosidade ou em algum ideal político ou religioso? O homem vive sem prazer, sem se enlouquecer? Segundo Freud, saúde e prazer estão inseparavelmente ligados. Talvez, por isso, a Bíblia diz (Salmos 1:2): “O meu prazer está na lei do Senhor e nela medito de dia e de noite”, antecipando as preocupações de Freud. Em qualquer situação humana, penso que um esforço de se entregar a Deus, o autor do Universo, de corpo e alma, seria uma boa opção. Entregar cada neurônio, cada célula com toda a sua maquinaria, cada tecido, cada órgão, cada sistema e o corpo inteiro ao autor, cuja obra somos nós, parece o justo e a solução de tantos problemas humanos, para além dos sexuais, embora os sexuais sejam mais íntimos e os mais vigiados pelo outro. Será que todo mundo vigia a todos não é exatamente para impedir que os outros façam o que todos gostariam de fazer, mas não se tem coragem? Por fim, quero dizer que este ano (2019) se comemora 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, o autor de Gioconda (Mona Lisa) e outras obras famosas. Conta-se que ao terminar a obra, Da Vinci disse, fala Mona Lisa, fala! Mas Mona não falou, porque era de tinta e não de células, como você e eu. Portanto, podemos falar: SENHOR DEUS, UM COISA QUERO DIZER – SOU A OBRA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO, VEJO EM MIM AS SUAS DIGITAIS, POR ISSO, VOU LHE PEDIR – SENHOR! POSSO SER SERVO SEU, CUIDADOR DE MIM? Certamente, o Autor diria SIM e ficaria muito agradecido! Espero que estas breves reflexões sirvam de apoio a todos os leitores, pois todos se situam nalgum ponto do espectro da sexualidade humana e podem fazer dela um instrumento de respeito, amor, ética, moralidade, alegria, prazer e louvor -, ao eterno artista do mundo, Deus, nosso Senhor. Por outro lado, o ser humano está sujeito a muitos desvios de conduta, erros, mentiras, medo, preguiça, omissão, hipocrisia, falsidade, maldade, drogadicção, egoísmo, hedonismo, crueldade, narcisismo, exploração, injustiça, desrespeito…. Contudo, esse mesmo homem pode cultivar virtudes espetaculares, que emanam do Criador, como a luz emana do sol e desencadeia a fotossíntese nos seres autotróficos, sendo capaz de eliminar os mofos e fungos da vida – eis que Deus é o sol da justiça! Portanto, o único problema humano não são as dificuldades psicossexuais, outras seguem atormentando o ser humano podendo levá-lo a profundos sofrimentos. Somente o Médico dos médicos pode nos ministrar o remédio certo para as nossas fraquezas e dificuldades.

    Nota: A estrutura psíquica, segundo Freud – Id – Ego – Superego. O Id consiste nos desejos, vontades e pulsões primitivas, formado principalmente pelos instintos e desejos orgânicos pelo prazer. O Ego surge a partir da interação do ser humano com a sua realidade, adequando seus instintos primitivos (o Id) com o ambiente em que vive. É também chamado de “princípio da realidade”. O Ego, é o mecanismo responsável pelo equilíbrio da psique. Ele procura regular os impulsos do Id, ao mesmo tempo que tenta satisfazê-los de modo menos imediatista e mais realista. Graças ao Ego, a pessoa consegue manter a sanidade da sua personalidade. O Ego começa a se desenvolver já nos primeiros anos de vida do indivíduo. O Superego se desenvolve a partir do Ego e consiste na representação dos ideais e valores morais e culturais do indivíduo. O Superego atua como um “conselheiro” para o Ego. Isto porque o alerta sobre o que é ou não moralmente aceito, segundo os princípios que foram absorvidos pela pessoa ao longo de sua vida. De acordo com Freud, o Superego começa a se desenvolver a partir do quinto ano de vida. É quando o contato com a sociedade começa a se intensificar, através da escola, por exemplo. O superego pode ser considerado o conjunto leis, regras e outros contratos sociais estabelecidos, visando a sobrevivência do indivíduo e em sociedade. Fonte:.www.diferenca.com/ego-superego-e-id/

    Portanto, existe o princípio do desejo e o princípio da realidade. Nem tudo que se deseja pode ser feito, em ajustamento com o princípio da realidade. O sociólogo Durkheim diz: o homem terá que desfazer de suas convicções pessoais e desejos pessoais para ajustar-se a uma determinada sociedade. Eu acrescento; que temos que abrir mão de desejos pessoais e grupais no sentido de adaptar-se à geografia, onde se vive.

    Hedonismo. A definição de hedonismo no dicionário é uma doutrina filosófica que torna o prazer o fim supremo da vida humana. O hedonismo também é um modo de vida que visa apenas prazeres e satisfações materiais. Será que o prazer a todo custo é bom? O prazer de um pode destruir a vida, a dignidade ou o prazer do outro?

    Estoicismo. Uma alternativa ao exagero hedonista. No estoicismo, ao contrário do hedonismo, acredita-se que a felicidade não vem do prazer, mas sim, no exercício constante da virtude. Portanto, o estoicismo não valoriza a vida sensual, voluptuosa e ligada aos prazeres dos sentidos. Gessé Antônio de Souza 02/04/2019.

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