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‘Deus, não deixa eu gostar de homens’, pedia jovem gay evangélico

Com medo de ir para o inferno, estudante Gabriel Pires pedia para não ser homossexual. Do passado cristão, só guarda a ideia de amor que Jesus propagava.


“Deus, não deixa eu gostar de homens”.  Em um retiro da Igreja Batista, o pastor anunciava que os pedidos feitos com fé seriam atendidos. Com medo de ir para o inferno, Gabriel Pires pedia para não ser gay. As incertezas acabaram aos 18 anos, quando beijou o primeiro menino. Hoje, aos 23, ele não sente vergonha e se apresenta como “Bicha” no terceiro episódio da série “LGBTs: Fora do Culto”.

Clique para assistir a todos os episódios de “LGBTs: Fora do Culto” aqui

Como você pode dizer que você ama Deus que você não consegue ver, se você não ama uma pessoa que está ao seu lado?

Gabriel Pires
Estudante

Foi ainda na escola que Gabriel começou a sentir atração pelos meninos da turma: “Eu tentava reprimir porque eu sabia que aquilo era errado e não podia sentir.” Nos grupos de estudo bíblico, trechos que falavam sobre homossexualidade não eram discutidos, nem contextualizados historicamente. Segundo ele, ser LGBT era um pecado sem direito à salvação. Sozinho, decidiu encontrar novas interpretações para os versículos. Aos poucos, se libertou do medo de ser homossexual. “Eu ainda fiquei lidando com isso durante muito tempo sozinho”, contou.

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“Minha mãe que me tirou do armário”, lembra Gabriel, contando que foi confrontado pelos pais quando comemorou no Facebook a liberação do casamento gay nos Estados Unidos. “Foram semanas muito difíceis, o diálogo ficou bem travado dentro de casa. Eles não sabiam como lidar, e eu não esperava que fosse diferente. Acho que eles tentavam não enxergar que eu era bicha.”

'Deus, não deixa eu gostar de homens', pedia jovem gay evangélico
Foi ainda na escola que Gabriel começou a sentir atração por meninos (Foto: Yuri Fernandes)

Em alguns momentos, Gabriel chegou a tentar fundamentar discussões bíblicas com os pais para mostrar que não há pecado em ser gay,  mas eles nunca quiseram. Do passado cristão, só guarda a ideia de amor que Jesus propagava. “Como você pode dizer que você ama Deus que você não consegue ver, se você não ama uma pessoa que está ao seu lado?” Em uma analogia à perseguição que sofreu, o estudante argumenta que hoje existe uma semelhança na trajetória de sofrimento de Cristo e dos LGBTs. “As pessoas não entenderam ainda o que é esse amor que devem sentir através de Jesus Cristo, porque no meu entendimento, eu sou Jesus. Sou essa pessoa que é rejeitada pela sociedade, eu e os LGBTs em geral”, contou.

Por fim, o estudante afirma que é “o próprio ateu agnóstico” e acredita que há várias possibilidades de entender a verdade do mundo. O de Gabriel já não cabe mais dentro das narrativas bíblicas. “Meu é corpo divergente da norma, construo a minha a pessoa a partir disso.”


Escrito por Alceu Júnior

Estudante de Jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ, nascido na Zona Leste de São Paulo. Tem interesse por cinema documental e infinita admiração pelas mídias independentes.

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