Pacto quer recuperar 2 milhões de hectares de Mata Atlântica

Meta para restauração do bioma, estabelecida por integrantes da sociedade civil, deve ser cumprida até 2025. Em dez anos, quase 1 milhão de hectares foi plantado

Por Elizabeth Oliveira | ods15 • Publicada em 22 de janeiro de 2020 - 08:00 • Atualizada em 17 de fevereiro de 2020 - 19:37

Coletores de sementes na Floresta Nacional do Rio Preto, núcleo do Programa Arboreto: 300 projetos formam Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Foto: Programa Arboretum/Divulgação)
Coletores de sementes na Floresta Nacional do Rio Preto, núcleo do Programa Arboreto: 300 projetos formam Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Foto: Programa Arboretum/Divulgação)
Coletores de sementes na Floresta Nacional do Rio Preto, núcleo do Programa Arboretum: 300 projetos formam Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Foto: Programa Arboretum/Divulgação)

Ao completar dez anos de atuação, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, o maior esforço coletivo para a restauração florestal na América Latina, anunciou um novo desafio: até 2025, pretende recuperar mais um milhão de hectares nesse bioma onde se concentra a maior parte da população brasileira (mais de 140 milhões de habitantes). Com o compromisso divulgado, essa coalizão formada por 300 integrantes da sociedade civil terá dobrado o alcance das suas ações na primeira década de atuação. Como saldo dessa experiência pioneira, lançada em 2009, se destacam 740 mil hectares de mata nativa em diferentes estágios de recuperação, conta que deverá ser fechada com um milhão de hectares, em 2020. Ao #Colabora, integrantes dessa iniciativa garantem que a expectativa é ambiciosa, embora factível.

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A bióloga Ludmila Pugliese, coordenadora nacional do Pacto, é uma das entusiastas da iniciativa que viu nascer e se expandir. Com base no que testemunhou nessa primeira década, ela argumenta que existe maturidade e capacidade suficientes para o alcance da meta ambiciosa, ainda que em menos tempo do que se conseguiu até agora.  “Consideramos que agora temos experiência para dar um salto”, ressalta a especialista que se aprofundou sobre o tema a partir de mestrado com enfoque em restauração florestal e se tornou empreendedora como sócia fundadora da Kawa Estratégias Sustentáveis, integrante do Pacto, ao lado de outras empresas, instituições de pesquisa, ONGs, órgãos públicos e proprietários rurais. 

Temos que apoiar as mulheres cada vez mais, para que elas participem das tomadas de decisão porque, de forma mais ampla, esses processos ainda são liderados por homens

Ludmila Pugliese
Bióloga e coordenadora do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica

Como avanços alcançados nesse período, Ludmila menciona a ampliação dos estudos científicos nacionais e internacionais sobre restauração, além da redução dos custos de implementação desse tipo de projeto, a partir das lições aprendidas com as metodologias e as tecnologias incorporadas pelas organizações parceiras do Pacto. Destaca, também, a criação de Grupos de Trabalho (GTs) especializados no âmbito dessa coalizão envolvendo inteligência geoespacial, economia, políticas públicas, entre outras áreas do conhecimento.

A bióloga ressalta, ainda, a importância do GT de Diversidade, que lidera diretamente, com o intuito de ampliar a participação das mulheres nesse tipo de mobilização. Uma cartilha sobre o tema foi elaborada para incentivar esse movimento. Outra publicação sobre empreendedorismo e geração de renda ilustra o potencial existente, a começar pela contribuição para a renda familiar de 40% da população feminina, segundo dados do IBGE, de 2010. “Temos que apoia-las, cada vez mais, para que participem das tomadas de decisão porque, de forma mais ampla, esses processos ainda são liderados por homens”, opina.

O biólogo Renato Crouzeilles – pesquisador associado do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), ONG integrante do Pacto –  também está confiante em relação ao cumprimento da meta para 2025. Ele até considera ser possível que, em 2020, os resultados de dez anos de atuação dessa coalizão superem a estimativa de um milhão de hectares. “Nessa trajetória, estruturamos o movimento e aprendemos sobre como ganhar escala”, afirma o pesquisador, que atuou na coordenação do relatório Temático sobre Restauração de Paisagens e Ecossistemas, cujos resultados foram apresentados em reportagem do #Colabora.  No documento, foi destacado que o Brasil poderia gerar dois milhões de empregos restaurando 12 milhões de hectares até 2030. Assim, entre outros avanços, o país alcançaria uma redução de emissões de CO2 da ordem de 1,39 Mt. 

O Pacto é um grande ator social com capacidade de impulsionar resultados de alcance tanto global como local. Esse movimento está contribuindo e pode contribuir, ainda mais, para que o Brasil cumpra as metas assumidas no âmbito do Acordo de Paris e de outros compromissos internacionais. O Pacto é investimento para as gerações futuras

Miguel Calmon
Diretor de Florestas da WRI-Brasil

Crouzeilles explica que, como parte da estratégia em planejamento, além do mapeamento de ações do Pacto, as organizações parceiras pretendem definir, em 2020, as áreas prioritárias para o alcance da meta de 2025. Como desafios, o biólogo explica que ainda é preciso ampliar o entendimento sobre como evitar que áreas restauradas se percam. Da mesma forma, é necessário identificar as principais demandas das instituições menores para que consigam se fortalecer, além de sensibilizar a sociedade para que seja possível recuperar áreas florestais nas propriedades sem que para isso seja preciso exigir o cumprimento da lei.

O pesquisador acrescenta que, além dos inúmeros ganhos ambientais, econômicos e sociais decorrentes da restauração florestal, os esforços do Pacto contribuem para que o Brasil consiga cumprir alguns compromissos diplomáticos internacionais. Nesse contexto, menciona, por exemplo, que o país é signatário do Desafio de Bonn, de 2011, quando foi pactuado que seriam restaurados 150 milhões de hectares de ecossistemas nativos mundiais até 2020 e 350 milhões de hectares até 2030. A Política Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa é parte do conjunto de diretrizes para a estruturação das ações nacionais com esse objetivo.

Vista de Extrema do sistema Cantareira. Foto de Mirian Fichtner
Vista de Extrema. no Sul de Minas: projeto de restauração de Mata Atlântica é modelo (Foto: Mirian Fichtner)

O engenheiro agrônomo Miguel Calmon, diretor de Florestas da organização WRI-Brasil, destaca que, em dez anos de atuação, o Pacto já está exportando a experiência de restauração florestal para países como Argentina e Paraguai. Para os êxitos alcançados, desde 2009, ele menciona a importância do suporte técnico-científico de instituições e profissionais de referência no tema, a atuação descentralizada das organizações parceiras e a capacitação de uma gama de profissionais que vem contribuindo para tornar viáveis as ações na prática. 

“O Pacto é um grande ator social com capacidade de impulsionar resultados de alcance tanto global como local. Esse movimento está contribuindo e pode contribuir, ainda mais, para que o Brasil cumpra as metas assumidas no âmbito do Acordo de Paris e de outros compromissos internacionais. O Pacto é investimento para as gerações futuras”, afirma o diretor da WRI-Brasil.

Como um dos precursores do Pacto, Calmon também reforça os argumentos apresentados por Ludmila Pugliese e Renato Crouzeilles com relação aos ganhos socioeconômicos e ambientais associados à restauração florestal. “A restauração tem um papel central como indutora de uma nova revolução verde nas áreas rurais. É boa para todos e não pode ser encarada como custo. Precisa ser compreendida como investimento”, conclui. 

Todos os entrevistados também ressaltaram que o Brasil tem a avançar, ainda mais, com a iniciativa do Pacto, considerando que a ONU declarou o período 2021-2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas. Ações já desenvolvidas no país com esse enfoque – como o Projeto Conservador das Águas, do município mineiro de Extrema, modelo para outras cidades; a Associação Copaíba, ONG que trabalha em municípios de São Paulo e Minas; e o Programa Arboretum, programa interinstitucional envolvendo órgãos federais e estaduais, universidades, empresas e o Ministério Público da Bahia – demonstram que os resultados positivos dessa mobilização são possíveis.

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Elizabeth Oliveira

Jornalista apaixonada por temas socioambientais. Fez doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED), vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, e mestrado em Ecologia Social pelo Programa EICOS, do Instituto de Psicologia da UFRJ. Foi repórter do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e colabora com veículos especializados, além de atuar como consultora e pesquisadora.

2 comentários “Pacto quer recuperar 2 milhões de hectares de Mata Atlântica

  1. ROZANA Marques disse:

    Sinto o despertar. Meio ambiente é assunto que não dá mais pra segurar ou esconder debaixo do tapete. Ou a sociedade reage e os governantes cumprem suas falações de campanha ou vamos começar a vender bottons e bandeirinhas com a frase do Galvão Bueno::::: Acabou!

  2. Elizabeth disse:

    Precisamos ampliar o sentido de cobrança ao cumprimento das leis e políticas socioambientais construídas nas últimas décadas, exercer vigilância em relação à gestão dos recursos naturais que são patrimônio de toda a sociedade e nos engajar em ações de mobilização que são capazes de transformar realidades. Estejamos atentos, sobretudo, para disseminar os bons exemplos.

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