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Brasil já perdeu 89 milhões de hectares de florestas

Em 2018, o desmatamento atingiu uma área três vezes e meia maior que São Paulo. Este ano, perda florestal na Amazônia pode chegar a 10 mil km2


Incêndio na BR 364, entre Rio Branco e Sena Madureira, no Acre. Foto Marcio Pimenta
Incêndio na BR 364, entre Rio Branco e Sena Madureira, no Acre. Foto Marcio Pimenta

Em pouco mais de três décadas, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de floresta, uma área correspondente a três vezes e meia o tamanho do estado de São Paulo. A agropecuária foi  o principal vetor  do desmatamento, especialmente na região da Amazônia Legal. Em 2005, a pastagem ocupava 45 milhões de hectares, tendo crescido para 53 milhões de hectares no ano passado. Com menos floresta, o desmatamento alcançou 7,8 mil quilômetros quadrados (km2) em 2018; este ano, as queimadas que estão fazendo a Amazônia arder em chamas podem levar o desflorestamento a chegar perto os 10 mil km2. A projeção foi feita pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, um mapeamento de dados, feito de forma colaborativa com universidades, empresas de tecnologia e ONGs, sobre a cobertura e o uso da terra no Brasil. Só de janeiro a agosto, os incêndios na Amazônia cresceram 82%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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O MapBiomas remonta ao ano de 1985 e está na sua quarta versão, sendo uma das mais longas séries de dados sobre o assunto já feita no país. A ferramenta é gratuita, de acesso liberado, e permite acompanhar, com grande angular, o que está ocorrendo nos seis biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal), nos 27 estados da federação, nas 84 bacias hidrográficas, nas 585 terras indígenas e nas 789 Unidades de Conservação (UCs). De 1985 até o ano passado, a perda florestal somou 145,3 milhões de hectares de terra — a perda média anual é de 4,2 milhões de hectares.

O mau uso da terra é, sem dúvida, o principal responsável pelas emissões brasileiras de gases de efeito estufa

Tasso Azevedo
coordenador-geral do MapBiomas

O desmatamento vem ocorrendo de forma mais acentuada nas áreas privadas e menos nas terras indígenas e Unidades de Conservação. Essa constatação foi possível porque, desde o ano passado, os dados vêm sendo cruzados com as informações disponíveis no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Em 2018, a perda de cobertura vegetal aumentou 20% nas propriedades rurais e 0,5% nas aldeias e UCs. “O mau uso da terra é, sem dúvida, o principal responsável pelas emissões brasileiras de gases de efeito estufa”, comentou Azevedo, corroborando os dados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostrou que este setor responde por 23% das emissões no mundo. No caso brasileiro, o uso da terra é responsável por 72% das emissões de gases de efeito estufa e 50% dessas emissões vêm do desmatamento.

Com a profusão de dados sobre desmatamento disponível no país, Azevedo defende, como escreveu em recente artigo, que já é possível multar propriedades rurais usando satélites, assim como ocorre com as multas de trânsito que são emitidas graças aos radares instalados nas cidades e estrada que detectam a infração cometida pelo motorista. Em outro artigo, diz que é urgente decretar a moratória do uso do fogo na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. O fogo que arde na Amazônia e que colocou o país no epicentro de uma crise ambiental global é provocado, sobretudo, pelo “desmatamento ilegal, muitas vezes ligado à máfia de roubo de madeira, à grilagem de terra e ao garimpo”.

No atual ritmo das queimadas é zero a chance de o país cumprir as metas voluntárias autoimpostas. A meta anunciada durante o Acordo de Copenhague era reduzir o desmatamento ilegal na Amazônia em 80% em relação à média do período entre 1996 e 2005. “Isso significaria que o desmatamento em 2020 não deveria passar de 3,8 mil km2“, comentou Azevedo, lembrando que o mais perto que o país chegou dessa meta foi em 2012, quando o desmatamento atingiu 4,5 mil km2.


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