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Brasil vira o vilão mundial do clima

A quatro meses do encontro no Chile, queimadas na Amazônia transformam o Brasil em vilão do meio ambiente. Presidentes da ONU e da França se manifestam


Imagem aérea de foco de queimada em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Chico Batata / DPA / Picture-Alliance / AFP

Começou a contagem regressiva para a Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a COP-25 ou a COP da ambição, como vem sendo chamada a Cúpula do Clima. Existe um consenso cada vez maior de que os próximos quatro meses serão fundamentais para os países. É que 2020 virou o ano chave para conter os efeitos devastadores das mudanças climáticas. O Brasil, que sempre teve um papel relevante nas discussões climáticas, chega ao encontro, em dezembro, no Chile, com uma imagem ainda mais desgastada do que aquela exposta na Semana do Clima América Latina e Caribe 2019, que termina hoje em Salvador. Por dois dias seguidos, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e seu secretário de Relações Internacionais, Roberto Castelo Branco, foram alvo de vaias enquanto defendiam a política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro.

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Seguindo a orientação do Itamaraty, Castelo Branco mostrou índices de redução do desmatamento no país, citando o período que vai de 2004 a 2015 – quando a política ambiental estava sob o comando de Lula e Dilma Rousseff. Os dados das gestões anteriores foi o gatilho para disparar os protestos de parte da plateia – os que não aderiram as vaias, não ousaram se manifestar a favor do secretário do MMA. Ao excluir do seu discurso o aumento de 84% no número de focos de incêndios entre 1º de janeiro e o último dia 20 de agosto, Castelo Branco foi alvo de palavras de baixa calão, além das vaias, que ficaram ainda mais fortes. Ele chegou a interromper sua fala, mas não conseguiu calar a indignação de parte da plateia, e acabou saindo sem dar entrevistas e escoltado pela Guarda Civil Municipal de Salvador (GCM).

Sob vaias, Castelo Branco disse que o país está próximo de cumprir os compromissos assumidos no Acordo de Paris. Pelas contas do governo, o Brasil deveria receber, pelo conjunto das ações feitas até aqui, créditos de carbono no valor de US$ 30 bilhões e que deixaram de ser emitidos 6 bilhões de toneladas de CO2. “Em contrapartida temos um bioma muito importante para o equilíbrio do planeta. E precisamos de pagamentos de serviços ambientais para que esse bioma de floresta possa ser mantido”. Quanto à meta de reflorestamento, disse que já foram restaurados 10,4 milhões de hectares entre 2010 e 2017 — a meta brasileira é de 15 milhões de hectares de floresta restaurada.

Estou profundamente preocupado com os incêndios na floresta amazônica. No meio da crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade

António Guterrez
Secretário-geral da ONU

Às 14h13, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterrez, tuitava: “Estou profundamente preocupado com os incêndios na floresta amazônica. No meio da crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade”. O presidente da França, Emmanuel Macron, convocou, via Twitter,  os países membros do G-7 para aproveitarem o final de semana, em Biarritz, na França, para discutir as queimadas na Amazônia: “Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. Membros da Cúpula do G7, vamos discutir em dois dias este tema emergencial!”

Artistas aderiram aos protestos e mostraram indignação nas redes sociais: Gisele Bündchen, Leonardo DiCaprio, Kim Kardashian e Anitta, assim como jogadores de futebol, Cristiano Ronaldo, Daniel Alves, e o tenista sérvio Novak Djokovic. Está programada para hoje uma agenda de manifestações. Acuado pelo avanço das queimadas na Amazônia e a projeção internacional, o governo criou um gabinete de crise. A narrativa de acusação contra as ONGs não foi abandonada, acrescida ao fato que, em resposta as manifestações da ONU e de Macron, o governo alegou que as críticas visam levantar barreiras aos produtos brasileiros.

Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. Membros da Cúpula do G7, vamos discutir em dois dias este tema emergencial!

Emmanuel Macron
presidente da França

Mesmo tendo assinado a declaração dos ministros do Mercosul – documento dos ministérios do Meio Ambiente dos países do bloco expressando apoio à Semana do Clima América Latina e Caribe 2019 e reafirmando a confiança de que o evento serviu para fortalecer a COP-25 –, Castelo Branco saiu do encontro sem dizer a seus pares se eles podem esperar mais ambição do país no Chile.

Ainda que o compromisso assumido pelo Brasil seja arrojado – até 2030, a meta é reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% em relação ao nível registrado em 2005 -, o “senso de urgência” virou a palavra de ordem da COP-25, segundo o fundador e presidente da TriCiclo, Gonzalo Munhoz, escolhido pelo presidente chileno Sebastián Piñera para organizar o encontro em Santiago. O ministro do Meio Ambiente da Argentina, Sergio Bergman, disse que a resposta à crise climática passa por uma mudança de paradigma: “Não só da economia, mas também da governança. Estamos acostumados que o privado e o público andem em linhas verticais e paralelas, mas as  linhas verticais só se encontram no infinito. Precisamos agir agora”.

Em defesa da criação de mecanismos de negociação de carbono como ferramenta necessária para a redução de emissões dos gases de efeito estufa e o cumprimento do Acordo de Paris, o setor industrial  brasileiro entregou aos representantes do governo uma carta de princípios, apresentada pelo Conselho Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável (Cebds)..

Ao abrir mão de sediar a COP-25, o presidente Bolsonaro ignorou o fato de que ser o país anfitrião significa agregar uma imagem internacional positiva – um bem imaterial de extrema importância na diplomacia internacional. O Brasil já sediou as conferências da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, durante a gestão do então presidente Fernando Color de Mello, e sobre Desenvolvimento sustentável, a Rio+20, quando Dilma Rousseff estava na presidência – uma prova de que a questão ambiental transcende posicionamentos políticos, porque o clima, e suas mudanças, afetam a todos, independentemente do viés ideológico.


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