Impacto do óleo nas praias foi maior para pescadores e ambulantes

Extensa mancha de óleo em área de pesca, em outubro, na praia do Pontal do Peba, em Alagoas: pescadores tiveram queda, em média, de 42% da renda com desastre ambiental no nordeste (Foto: Simone Santos/Projeto Praia Limpa/Fotos Públicas)

Pesquisa socioeconômica mostra também que desastre ambiental no Nordeste afetou mais municípios que dependem do turismo e da pesca

Por Oscar Valporto | ODS 10ODS 14 • Publicada em 17 de julho de 2020 - 09:40 • Atualizada em 21 de julho de 2020 - 10:52

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Extensa mancha de óleo em área de pesca, em outubro, na praia do Pontal do Peba, em Alagoas: pescadores tiveram queda, em média, de 42% da renda com desastre ambiental no nordeste (Foto: Simone Santos/Projeto Praia Limpa/Fotos Públicas)

Nos últimos dias de junho passado, pequenas manchas de óleo apareceram em praias do Nordeste, assustando a população do litoral que sofreu com o desastre ambiental ocorrido no fim do ano passado. O tamanho do impacto socioeconômico ainda não foi estimado, mas os primeiros resultados de pesquisa realizada pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) – vinculada ao Ministério da Educação e com sede em Recife – mostram que o derramamento de óleo provocou danos à economia de todos os municípios, mas atingiu mais as cidades menores e a população mais vulnerável. A pesquisa, realizada em fevereiro, mostrou que pescadores perderam, em média, 43% da renda após o desastre ambiental; entre ambulantes que atuam nas praias, a perda média foi de 33%.

Os resultados do estudo são preliminares porque os pesquisadores da fundação tiveram que interromper o trabalho para atuar em pesquisas relativas à pandemia. Mas o professor Luiz Henrique Romani, diretor de Pesquisas Sociais da Fundaj, aponta que os resultados iniciais já servem de alerta. “Tivemos um impacto grande e a grande maioria dos empreendimentos que vivem do turismo e da pesca ainda não tinha voltado ao normal em fevereiro. E, em março, veio o impacto da pandemia. Portanto, a situação socioeconômica é bastante dramática”, afirma Romani, um dos coordenadores da pesquisa, que teve seus primeiros resultados entregues ao Ibama.

As primeiras grandes manchas de óleo começaram a aparecer no litoral nordestino nos últimos dias de agosto de 2019. Até dezembro, o óleo cru chegou a mais de mil pontos do litoral brasileiro – a enorme maioria no Nordeste, mas também em praias do Espírito Santos e do norte do Rio de Janeiro.  Após mais de um mês em que o trabalho de retirada do óleo ficou a cargo de voluntários, ambientalistas e órgãos municipais, o governo federal mobilizou a Marinha e o Exército para ajudar na limpeza do mar e das praias. Até hoje, 10 meses depois, ainda não foram identificados os responsáveis e as circunstâncias do derramamento de óleo.

A pesquisa da Fundaj tinha como objetivos estimar o número de pescadores e famílias que estavam deixando de exercer suas atividades, o valor da redução das vendas e o impacto econômico nos hotéis, pousadas, bares e restaurantes; fazer um levantamento inicial da economia informal nas praias atingidas e verificar as ações do Poder Público. “Os municípios mais afetados foram aqueles com mais dependência da pesca e do turismo. As cidades maiores, com economia mais diversificada, tiveram impactos menores”, afirmou Luís Henrique Romani.

Todos esses estabelecimentos que estavam tentando ainda retomar seu movimento em fevereiro, foram atingidos, em março, pelos impactos da pandemia da covid-19

Luís Henrique Romani
Diretor de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco

Para a pesquisa, a Fundaj aplicou mais de três mil questionários em 40 municípios nordestinos – foram mais de 100 atingidos em toda a região: a amostra dos municípios considerou tanto a participação do turismo quanto da pesca na economia local. Responderam aos questionários proprietários de 842 bares e restaurantes e de 126 hotéis e pousadas, além de 1991 pescadores e 320 ambulantes. Os pesquisadores fizeram ainda entrevistas qualitativas com gestores municipais, gestores estaduais, empresários do setor de turismo, empresários de pesca industrial, empresários de aquicultura e empresários do setor frigorífico.

A pesquisa classificou os municípios em três grupos com base em dados do IBGE: pesqueiros,  municípios menores, mais especializados na pesca e com maior dependência do setor público na sua economia; turísticos, cidades um pouco maiores, mais voltadas para o turismo e com dependência média do setor público; e grandes, municípios maiores, com economia mais diversificada. “Os pequenos municípios sofreram o impacto social, econômico e ambiental”, atesta o coordenador da pesquisa

Demissões e mudanças nos cardápios

Nos municípios pesqueiros, donos de bares e restaurantes foram os mais atingidos depois dos próprios pescadores.  Pelas respostas aos questionários, houve algum impacto em 50% dos estabelecimentos e queda significativa de faturamento em 23%.  Restaurantes e bares também mudaram sua rotina: 33,5% mudaram de fornecedor na compra de pescados, 16,7% retiraram alguns pescados do cardápio, 16,7% reduziram a quantidade de peixes oferecidos aos clientes. Nos municípios pesqueiros, 15,6% dos proprietários de bares e restaurantes disseram ter demitido pessoal.

No total, o faturamento dos bares e restaurantes especializados em frutos do mar apresentou uma queda, em média, de 29,9%: nos estabelecimentos não especializados, a redução média ficou em 10,7%.  Houve mudança nos cardápios também nos restaurantes e bares de municípios turísticos (24,3%) e nas cidades grandes (20,6%)

As demissões também ocorreram nos municípios turísticos e nas cidades maiores. Nos municípios turísticos, 9% dos donos de bares e restaurantes relataram ter cortado pessoal; 4,2% dos proprietários de hotéis e pousadas também. Nos grandes municípios, houve demissões em 4,8% dos bares e restaurantes e de 1,5% em hotéis e pousadas. Apenas pelas respostas dos entrevistados, 333 pessoas foram demitidas por conta do desastre ambiental nas praias.

Praia do Forte, destino turístico no litoral baiano, deserta e coberta de óleo em outubro: impacto nos municípios dependentes do turismo (Foto: Instituto Bioma Brasil/Fotos Públicas)
Praia do Forte, destino turístico no litoral baiano, deserta e coberta de óleo em outubro: impacto nos municípios dependentes do turismo (Foto: Instituto Bioma Brasil/Fotos Públicas)

No setor de alojamento, os municípios turísticos foram mais afetados: 49% dos hotéis e pousadas registraram cancelamento de reservas; e 12% relataram cancelamento de pacotes. O vazamento de óleo também trouxe prejuízo nos municípios grandes: 30,4% dos hotéis e pousadas registraram algum cancelamento – 8,9% registraram cancelamento de pacotes. Neste setor, o impacto nos municípios pesqueiros foi menor: só 25% relataram impacto na ocupação.

Tivemos um desastre ambiental com tremendo impacto e uma resposta marcada pelo improviso, com a demora de uma resposta efetiva e organizada pelos governos

Luís Henrique Romani
Diretor de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco

O professor Romani explica que a dinâmica do turismo nestes municípios é muito diferente. “Nas cidades turísticas médias, os visitantes querem exatamente aproveitar a praia e a natureza e fazem programações com antecedência. Muita desistiu de vir. Nas cidades grandes, há mais turistas que viajam de qualquer jeito, para resorts ou hotéis maiores, com outras atrações. Nos municípios pesqueiros, o alojamento é mais em pequenas pousadas ou em residências, que não fazem reservas”, afirma.

Metade dos entrevistados do setor de alimentação de municípios pesqueiros e turísticos admitiram que o desastre ambiental afetou os negócios; em fevereiro, seis meses depois, a totalidade dos afetados nos municípios pesqueiros relatou que o movimento ainda estava voltando ao normal; nos turísticos, 56% dos donos de bares e restaurantes afetados afirmaram que o movimento ainda estava voltando e 30% informaram que o movimento não tinha voltado. “Todos esses estabelecimentos que estavam tentando ainda retomar seu movimento em fevereiro, foram atingidos, em março, pelos impactos da pandemia da covid-19”, destaca o coordenador da pesquisa.

Queda na renda de pescadores e ambulantes

A pesquisa também fez um perfil socioeconômico de pescadores e ambulantes de praia, os mais atingidos pelo impacto do desastre ambiental. “Para os pescadores, a pesca tem uma dupla função. Eles consomem o pescado, fonte de alimentação para família, e também vendem, fonte de renda”, conta o professor Luís Henrique Roani. Entre os pescadores entrevistados, 81,2% são homens; 87,9% se declararam pretos ou pardos; 72,9% tem escolaridade até o segundo ciclo do fundamental incompleto.

A renda média familiar mensal dos entrevistados é de R$ 1.199,00 – e 59,5% das famílias têm a pesca como única atividade econômica. “Nos municípios menores, pesqueiros e com pouca diversificação econômica, as famílias dos pescadores vivem, exclusivamente, da pesca. Quanto maior o município e mais diversificado sua atividade econômica, mais pescadores têm um segundo trabalho ou outros membros da família estão empregados em outras atividades”, explica Romani; trabalho na construção civil, no comércio, e bicos diversos estão entre as atividades relatadas pelos entrevistados.

No total, 75.7% dos pescadores relataram que óleo prejudicou sua atividade: 70,8% por queda nas vendas dos pescados; 30,8% por ter diminuído a oferta de peixes no mar; 11,1% pela pesca ter sido proibida; 3,3% pelo pescado estar contaminado; 3,2% porque os peixes sumiram – as respostas passam de 100% porque os entrevistados podiam dar mais de uma explicação para o prejuízo. E 68,6% garantiram que sofreram queda de renda por conta do óleo no litoral do Nordeste: a redução média relatada foi de 42,29%.

De acordo com a pesquisa da Fundaj, entre os ambulantes de praia, 73,8% dos entrevistados eram homens; 87,7% deles se autodeclararam pretos ou pardos. O tempo médio de deslocamento de casa até a praia onde trabalha é de 34 minutos: a grande maioria (72%) vai a pé ou por transporte público. As respostas mostram o tamanho do impacto: 82,6% dos ambulantes relataram que o petróleo atingiu uma praia que trabalha; 9,6% que foram duas praias.

Entre os ambulantes, 65,5% sentiram diferença no número de pessoas na praia e 64,6% afirmaram ter registrado queda no faturamento. Dos que relataram alterações, 54,8% afirmaram que ainda estava voltando ao normal e 23,3% que não havia voltado ao normal. Apenas 20,9% afirmaram, em fevereiro, que já tinha retornado ao normal. “A maioria garantiu ter sofrido um impacto e é uma maioria que tem renda muita baixa”, lembra o professor. O faturamento semanal dos ambulantes, na alta temporada, não passa de R$ 700 – descontadas as despesas com a mercadoria, a renda familiar semanal fica em R$ 430. Mas cai a menos da metade na baixa temporada. A redução média do faturamento foi de 33%.

Voluntário no trabalho de limpeza das praias em Cabo de Santo Agostinho (PE), adolescente sai do mar coberto de óleo: 200 localidades atingidas em todo o Nordeste (Foto: Leo Malafaia/AFP)
Jovem voluntário no trabalho de limpeza das praias em Cabo de Santo Agostinho (PE): improviso marcou resposta ao desastre ambiental nas praias do Nordeste (Foto: Leo Malafaia/AFP)

O professor Luís Henrique Romani disse que a pesquisa confirmou a hipótese inicial de que os impactos do derramamento do petróleo não foram homogêneos entre as cidades. “Os municípios menores não estão preparados para calamidades – nem o óleo nas praias, nem a pandemia de covid-19”, atestou o diretor de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim, acrescentando que, sobre o derramamento de óleo, as conclusões iniciais da pesquisa apontam para a necessidade de fortalecimento das administrações locais.  “As respostas para o desastre ambiental devem ser feitas de maneira conjunta, com a criação de consórcios ou outros instrumentos”, disse o pesquisador.

A Fundaj vai disponibilizar em seu site os bancos de dados para utilização de outras instituições que estejam pesquisado o derrame do petróleo. A instituição ainda fará o tratamento das entrevistas e o cruzamento entre os dados e análises de satélite da região. Estão previstas ainda, neste trabalho, pesquisas qualitativas para avaliar medidas de fortalecimento da pesca artesanal. “Todo trabalho teve que ser interrompido por conta da pandemia, mas é importante retomar a pesquisa porque tivemos um desastre ambiental com tremendo impacto e uma resposta marcada pelo improviso, com a demora de uma resposta efetiva e organizada pelos governos”, frisou o professor Luís Henrique Romani.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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