Retomada da agenda climática será desafio para governo Biden

John Kerry com Joe Biden durante as primárias democratas em 2019: presidente eleito e seu novo enviado especial ao clima têm o desafio de reconstruir relações com outros países e reassumir papel dos EUA contra emergência climática (Foto: Win McNamee/AFP)

Ex-secretário de Estado, John Kerry é nomeado enviado especial para o clima pelo presidente eleito dos EUA para recuperar a reputação americana

Por The Conversation | ODS 13 • Publicada em 30 de novembro de 2020 - 11:31 • Atualizada em 5 de dezembro de 2020 - 12:33

Compartilhe

John Kerry com Joe Biden durante as primárias democratas em 2019: presidente eleito e seu novo enviado especial ao clima têm o desafio de reconstruir relações com outros países e reassumir papel dos EUA contra emergência climática (Foto: Win McNamee/AFP)

Dolf Gielen e Morgan Brazilian*

John Kerry ajudou a trazer o mundo para o acordo climático de Paris e expandiu a reputação dos Estados Unidos da América como país líder na questão climática. Essa reputação está agora em frangalhos – e o presidente eleito Joe Biden está pedindo a Kerry para reconstruí-la novamente – desta vez como enviado climático dos EUA.

Não será fácil, mas as décadas de experiência de Kerry e as relações internacionais, que desenvolveu como senador e secretário de Estado, podem lhe dar uma chance de fazer um progresso real, especialmente se esse trabalho for conduzido com o espírito de consertar relacionamentos, em vez de “acusar e envergonhar” outros países. Nos últimos quatro anos, o governo Trump retirou os EUA do Acordo internacional de Paris sobre mudança climática, revogou políticas que foram elaboradas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e tentou evitar qualquer discussão sobre mudança climática em encontros internacionais como o G- 7 e cúpulas do G-20.

A comunidade internacional, entretanto, avançou amplamente. Muitos países e regiões se comprometeram a direcionar suas economias para emissões a caminho de zero de gases de efeito estufa até a metade do século, incluindo China, União Europeia, Coreia do Sul e Japão. Um número crescente de cidades e estados definiu metas semelhantes. A postura inflexível de Trump sobre a ameaça das mudanças climáticas pode até ter realmente encorajado alguns, principalmente a China, a fazer tais anúncios.

Fazer com que essas promessas do candidato Joe Biden sejam implementadas é o que importa agora – e isso exigirá liderança, planejamento detalhado e diplomacia cuidadosa. A conferência climática da ONU em novembro de 2021 será especial. Será a primeira vez que os países avaliarão seu progresso no Acordo de Paris e espera-se que fortaleçam seus compromissos. Biden já garantiu que trará os EUA de volta ao acordo assim que tomar posse.

Como especialistas em política energética, estudiosos da política climática internacional por mais de duas décadas, acompanhamos como outros países responderam às ações do governo americano com Trump e como diminuíram suas percepções sobre a capacidade dos Estados Unidos de liderar o mundo nos últimos quatro anos. Os EUA são o segundo maior emissor de gases de efeito estufa em todo o mundo, depois da China. É também o maior emissor historicamente. Ações domésticas concretas para reduzir essas emissões serão críticas para reconquistar a confiança e posição no cenário global.

Energia no centro do desafio climático

Os efeitos das mudanças climáticas já são evidentes em todo o mundo, desde ondas de calor extremas até o aumento do nível do mar. Mas, embora o desafio seja assustador, há esperança. Energias renováveis – solar e eólica – se tornaram as formas mais baratas de geração de energia em todo o mundo; e o progresso e a inovação tecnológica continuam acelerados para apoiar a transição para a energia limpa. Nos EUA, sob o governo Biden, a legislação climática nacional de longo prazo dependerá de quem controla o Senado, e isso não ficará claro até depois de duas eleições de segundo turno na Geórgia, em janeiro.

Mas não faltam ideias de como Biden ainda poderia agir, mesmo que suas propostas sejam bloqueadas no Congresso. Por exemplo, ele poderia usar ordens executivas e direcionar agências governamentais para apertar as regras sobre as emissões de gases de efeito estufa; aumentar a pesquisa e o desenvolvimento em tecnologias de energia limpa; e capacitar os estados a estabelecer padrões superiores aos padrões nacionais, como a Califórnia fez no passado para restringir a emissão de gases por automóveis. O foco em uma transição justa e equitativa para as comunidades e pessoas afetadas pelo declínio dos combustíveis fósseis também será a chave para a criação de uma transição sustentável.

Então secretário de Estado dos EUA, John Kerry assina o Acordo de Paris, na sede da ONU em 2016, com a neta Isabelle no colo: experiência para lidar com questões climáticas globais e com parceiros internacionais em momento delicado (Foto: Jewel Samad/AFP)
Então secretário de Estado dos EUA, John Kerry assina o Acordo de Paris, na sede da ONU em 2016, com a neta Isabelle no colo: experiência para lidar com questões climáticas globais e com parceiros internacionais em momento delicado (Foto: Jewel Samad/AFP)

A posição dos EUA como o maior produtor e consumidor de petróleo e gás do mundo cria desafios políticos para qualquer administração. As incursões dos EUA na segurança energética europeia são frequentemente tratadas com suspeita. Recentemente, a França bloqueou um contrato de bilhões de dólares para comprar gás natural liquefeito dos EUA devido a preocupações com as limitadas regras de emissões no Texas. O fortalecimento da cooperação e das parcerias com países com ideias semelhantes será fundamental para realizar uma transição para uma energia mais limpa, bem como sustentabilidade na agricultura, silvicultura, água e outros setores da economia global.

A maneira como o mundo se recupera dos danos econômicos provocados pela pandemia de covid-19 pode ajudar a impulsionar uma mudança duradoura na matriz energética global. Quase um terço do pacote de ajuda econômica de US $ 2 trilhões da Europa envolve investimentos que também são bons para o clima. A União Europeia também está reforçando as suas metas climáticas para 2030, embora os planos energéticos e climáticos de cada país sejam essenciais para o êxito dos objetivos do bloco. O plano Biden – que inclui um compromisso de US $ 2 trilhões para o desenvolvimento de energia e infraestrutura sustentáveis – está alinhado com uma transição energética global, mas sua implementação também é incerta.

Assim que Biden assumir o cargo, Kerry participará das discussões de alto nível sobre a transição energética na Assembleia Geral da ONU e em outros encontros de líderes internacionais. Com os EUA não mais obstruindo o trabalho sobre questões climáticas, o G-7 e o G-20 têm mais potencial para progresso em energia e clima.

Muitos detalhes técnicos ainda precisam ser elaborados, incluindo estruturas e padrões de comércio internacional que podem ajudar os países a reduzir as emissões de gases de efeito estufa o suficiente para manter o aquecimento global sob controle. A precificação do carbono e os impostos de ajuste de fronteira de carbono, que criam incentivos para as empresas reduzirem as emissões, podem fazer parte disso. Um conjunto consistente e abrangente de planos nacionais de transição energética também será necessário.

A mudança global para energia limpa também terá implicações geopolíticas para países e regiões, e isso terá um impacto profundo em relações internacionais mais amplas. Kerry, com sua experiência como secretário de Estado no governo Obama, e o plano de Biden de incluir o cargo de enviado do clima no Conselho de Segurança Nacional, podem ajudar a consertar essas relações. Ao fazer isso, os EUA podem novamente se juntar à comunidade mais ampla de países dispostos a liderar o mundo no enfrentamento da emergência climática.

*Dolf Gilien é professor associado do Instituto Payne, da Escola Superior de Minas do Colorado (EUA); Morgan Brazilian é diretor e professor de políticas públicas do Instituto Payne, da Escola Superior de Minas do Colorado (EUA)

(Tradução de Oscar Valporto)

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *