O que a pandemia tem a ver com a mudança do clima?

Geralmente coberto por uma nuvem de poluição, o céu azul é uma novidade em Beijing: número de vidas salvas na Chuna pela redução da poluição atmosférica pode passar de 70 mil (Nicolas Asfouri/AFP)

Como outras crises contemporâneas, a disseminação da covid-19 exige resposta local e global, guiada pela ciência, e pensamento a longo prazo

Por José Eduardo Mendonça | ODS 11ODS 13 • Publicada em 11 de abril de 2020 - 09:39 • Atualizada em 15 de abril de 2020 - 10:32

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Geralmente coberto por uma nuvem de poluição, o céu azul é uma novidade em Beijing: número de vidas salvas na Chuna pela redução da poluição atmosférica pode passar de 70 mil (Nicolas Asfouri/AFP)

O coronavirus está deixando uma lição importante. Com mudanças profundas, como a ameaça ao clima, precisamos para sobrevivermos, e mesmo prosperar em uma planeta interconectado, aprender como subordinar as necessidades do mercado às nossas necessidades.

É tentador dizer que humanos são uma peste no mundo. E que, de onde eles se afastam, a natureza floresce. É fácil dizer que, quando as pessoas são obrigadas e ficar em casa, a natureza se recupera com nossa ausência. Esta é a lição errada que a pandemia pode nos ensinar sobre o clima.

Humanos são parte da natureza – não separados dela – e a atividade humana que fere o ambiente também nos atinge. Na China, apenas a redução da poluição atmosférica em uma economia enfraquecida provavelmente salvará a vida de 4 mil crianças de menos de cinco anos e de 73 mil adultos de mais de 70 anos. Talvez a grande questão não seja se o vírus é bom ou ruim para o clima; ou se as pessoas ricas viajarão menos de avião; mas, sim, se podemos criar uma economia funcional que apoie as pessoas sem ameaçar da vida na Terra, inclusive a nossa.

Mas há razão na preocupação de que, apesar do ar mais limpo por algumas semanas ou meses, o coronavírus seja um desastre para o clima. De acordo com a empresa Trafigura, especializada no mercado de petróleo, a pandemia pode levar a demanda do produto à sua maior contração na história, talvez em mais de 10 bilhões de barris por dia. Isso pode ser boa notícia para as emissões de carbono no momento, mas sinaliza um desastre humano de proporções épicas, em qualquer garantia de que as emissões de gases de efeito estufa permaneçam baixas.

Um padeiro palestino termina um bolo, que retrata uma mulher usando uma máscara contra a Covid-19. Foto Mohammed Abed/AFP
Um padeiro palestino termina um bolo, que retrata uma mulher usando uma máscara contra a Covid-19. Foto Mohammed Abed/AFP

Sim, poderemos ver as emissões caírem enquanto as economias ficarem estagnadas e as pessoas estiverem lutando com as duras realidades da recessão global. Mas também houve uma redução no consumo de petróleo durante a crise financeira de 2008 e os choques do petróleo nos anos 1970. A crise atual é com certeza diferente, mas depois de passada a fase aguda, a produção industrial e as emissões de carbono poderão voltar a níveis perigosos.

Uma recessão global como resultado do isolamento provocado pelo coronavírus pode também desacelerar ou brecar a mudança para a energia limpa. Se os mercados de capital forem enxugados, será difícil para as empresas assegurarem investimentos para financiar os projetos de energia solar e eólica.

E a agressividade da pandemia, como também a da crise climática, vai se fazer sentir de forma mais intensa em nossas populações mais vulneráveis – os pobres, sem-teto, os mais velhos, os encarcerados e aqueles com  empregos precários – enquanto as corporações internacionais dirigidas pela lógica dos lucros e crescimento interminável procuram novos mercados e mão-de-obra barata.

Vivemos em uma era na qual crises cruzadas estão chegando a uma escala global, com níveis nunca vistos de desigualdades, degradação ambiental e destabilização do clima, assim como aumentos no populismo e na incerteza econômica e ameaças cada vez maiores à saúde pública.

Tudo isso está questionando nosso modelo econômico de crises que lentamente desequilibram a balança, nos fazendo repensar o modelo econômico de décadas passada, e requerendo também que repensemos nossos próximos passos.

Existe, em certo grau, paralelos entre a pandemia atual e outras crises contemporâneas que o mundo está vivendo, como a emergência climática. Todas exigem uma resposta local e global e pensamento de longo prazo; e todas precisam ser guiadas pela ciência e proteger os mais vulneráveis dentre nós. Ainda, todas demandam vontade política para fazermos mudanças fundamentais quando nos depararmos com riscos existenciais.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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