No Pantanal, a prioridade agora é salvar os animais

Jacaré morto pelo fogo no Pantanal: prioridade agora é salvar animais sobreviventes (Mauro Pimentel/AFP)

Enquanto fogo consome 20% do bioma, mamíferos, anfíbios, répteis e aves sofrem com desidratação, fome e queimaduras

Por Oscar Valporto | ODS 13ODS 15 • Publicada em 21 de setembro de 2020 - 09:32 • Atualizada em 23 de setembro de 2020 - 09:59

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Jacaré morto pelo fogo no Pantanal: prioridade agora é salvar animais sobreviventes (Mauro Pimentel/AFP)

Depois da quinzena mais intensa e terrível de incêndios no Pantanal, o pico do fogo parece ter passado, as chamas diminuem em Mato Grosso do Sul, onde a temperatura caiu e houve alguma chuva, e também em Mato Grosso, onde o combate foi reforçado nos últimos dias. “Ainda há muito fogo e novos focos surgem a todo momento, mas, aparentemente, o pior já passou. A hora agora é de reforçar o suporte e o alívio para a fauna do Pantanal. São muitos animais desidratados, muitos animais passando fome, muitos com queimaduras graves. É desolador”, relatou o ambientalista Leonardo Gomes, que estava em Poconé, município pantaneiro, 100 quilômetros ao sul de Cuiabá, no fim da semana passada, quando participou da série de debates Clima em Casa, promovido pelo Observatório do Clima nas redes sociais.  Pelos dados do Inpe, o fogo atingiu 20% dos 180 mil quilômetros quadrados do Pantanal.

A primeira quinzena de setembro foi particularmente devastadora no bioma. O Pantanal passa pelo setembro com mais focos de incêndio desde o início da série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 1998: foram 5.603 focos de calor detectados em 16 dias –  o que representa uma alta de 94% em relação a setembro inteiro do ano passado. A marca inflamável supera também os 5.498 focos de calor registrados no mês inteiro de setembro em 2007 – o recorde para o mês. O jornalista Claudio Angelo, moderador dos debates do Clima em Casa, informou que, até metade de setembro de 2020 os incêndios registrados no Pantanal já superavam em 25% todos os ocorridos em 2004, ano anterior em que o bioma mais sofreu com queimadas. “É unânime aqui que ninguém nunca viu nada semelhante, nem mesmo os mais antigos viram tanto fogo.”, acrescentou Gomes, após acompanhar o combate ao fogo no Parque Estadual Encontro das Águas, que reúne a maior concentração de onças-pintadas do mundo.

Onça ferida bebe água no Parque Estadual Encontro das Águas: espécies ameaçados sofrem com fogo no Pantanal (Mauro Pimentel/AFP)
Onça ferida bebe água no Parque Estadual Encontro das Águas: espécies ameaçados sofrem com fogo no Pantanal (Mauro Pimentel/AFP)

De acordo com o ICMBio, o parque estadual teve 85% de sua vegetação atingida pelo fogo. “Há uma mobilização para levar água e comida para os animais sobreviventes”, explica o diretor do SOS Pantanal. Considerada a maior área úmida continental do mundo, o Pantanal abriga, pelo menos, 4.700 espécies diferentes, entre animais e plantas. Levantamento de pesquisadores e do ICMBio indicam que vivem ali 582 espécies de aves, 132 tipo de mamíferos, 113 répteis e 41 anfíbios. A onça-pintada é uma espécie ameaçada de extinção assim como outros animais típicos do Pantanal como o lobo-guará, celebridade da nota de R$ 200, a ariranha, a onça parda, o cervo do pantanal e a arara-azul-grande. A Fazenda São Francisco do Perigara, área em Barão de Melgaço (MT) onde fica reserva que concentra 15% de todas as araras-azuis, teve 93% de sua vegetação destruída pelo fogo.

Arara-azul voa sobre as fumaças das queimadas no Pantanal: santuário da espécie teve mais de 90% da área destruída pelo fogo (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Arara-azul voa sobre as fumaças das queimadas no Pantanal: santuário da espécie teve mais de 90% da área destruída pelo fogo (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

A cada dois dias, voluntários do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (GRAD) percorrem a Transpantaneira, estrada de 150 quilômetros, ligando Porto Jofre, perto do Parque Estadual Encontro das Águas, a Poconé com a missão de depositar água e frutas – bananas, maçãs, mamões – em 70 pontos para os animais que perderam suas fontes de nutrição destruídas pelo fogo. “São duas toneladas a cada dois dias para evitar que os animais morram de sede e de fome. São cenas inimagináveis como queixadas fazendo fila para beber água”, contou Leonardo Gomes. O Grad já atuou no resgate de animais durante a devastadora enchente na Região Serrana do Rio (2011) e no rompimento das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019).

Raposas-do-campo aproveitam melancias deixadas por voluntários: fome e desidratação ameaçam animais (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Raposas-do-campo aproveitam melancias deixadas por voluntários: fome e desidratação ameaçam animais (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

Voluntários de outras ONGs de proteção aos animais reforçam o trabalho. “Vimos muitos animais mortos, principalmente répteis, serpentes, jacarés. Vimos muitos cervos mortos, antas mortas, macacos mortos, quatis mortos”, disse ao G1 o veterinário Jorge Salomão Jr. Na Transpantaneira, mesmo com movimento menor devido à fumaça das queimadas e à pandemia, crescem os registros de animais atropelados, principalmente, macacos e cervos tentando escapar do fogo. Os incêndios no bioma também destruíram 10 pontes de madeira na Transpantaneira.

Veterinárias cuidam de cervo resgatado no Pantanal: animais sofrem com o fogo (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Veterinárias cuidam de cervo resgatado no Pantanal: animais sofrem com o fogo (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

De acordo com a previsão do Instituto Nacional de Meteorologia, deve começar a chover no Pantanal de Mato Grosso nos primeiros dias de outubro. “Para essa fase depois do fogo, é fundamental esse esforço de preservação da fauna, de ajudar os animais que vão enfrentar fome e sede. É uma tarefa que não pode ficar somente para os voluntários: é preciso ação do estado”, afirmou Leonardo Gomes. Para o diretor do SOS Pantanal, o começo da temporada de chuva precisa marcar também o começo do trabalho de prevenção para que a tragédia ambiental não se repita. “A emergência climática aponta para a repetição de eventos extremos. É preciso se preparar com base nesse cenário”, alertou.

Ariranha resgatada do fogo sob cuidados de voluntários: Pantanal abriga 582 espécies de aves, 132 tipo de mamíferos, 113 répteis e 41 anfíbios (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Ariranha resgatada do fogo sob cuidados de voluntários: Pantanal abriga 582 espécies de aves, 132 tipo de mamíferos, 113 répteis e 41 anfíbios (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

Resposta lenta e insuficiente

Essa necessidade de preparação adequada também foi destacada no debate do Observatório do Clima por Alice Thuault, diretora-adjunta do ICV (Instituto Centro de Vida), organização de Mato Grosso com foco em governança ambiental e políticas públicas. “É importante lembrarmos que, desde o começo do ano, os dados do Inpe, da Nasa, da Meteorologia, indicavam uma seca extrema no Pantanal o que poderia facilitar as queimadas. Quando os incêndios começaram a se multiplicar, em julho, não havia resposta alguma preparada pelo estado. As ações de combate foram isoladas, por inciativa dosbombeiros e dos brigadistas do ICMBio, que eram inúmero insuficiente para enfrentar o fogo naquela proporção”, disse Alice Thuault no Clima em Casa.

Carcará bebe água em poça de lama: seca extrema no Pantanal tornava temporada de fogo previsível (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Carcará bebe água em poça de lama: seca extrema no Pantanal tornava temporada de fogo previsível (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

A diretora do ICV lembrou que somente no dia 14 de setembro o governo de Mato Grosso decretou situação de emergência no estado por conta dos incêndios florestais, o que foi seguido por uma promessa de R$ 10 milhões em recursos federais. “É um exemplo de como a resposta foi lenta. Com a seca intensa no Pantanal, o combate ao fogo já seria difícil. Houve muita demora até para reconhecer o tamanho da tragédia ambiental. Devemos esperar que agora haja um esforço para atender as comunidades afetadas, que não são poucas, socorrer a população afetada pela destruição causada pelas queimadas e agir para que isso não se repita”, afirmou Alice Thuault.

Pequeno macaco resgatado por brigadista no Pantanal: aumento de atropelamentos na rodovia Transpantaneira (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Pequeno macaco resgatado por brigadista no Pantanal: aumento de atropelamentos na rodovia Transpantaneira (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

O diretor do SOS Pantanal argumentou que, para a prevenção, é preciso criar unidades especializadas nas áreas ameaçadas pelo fogo. “O pessoal do PrevFogo (grupo de combate a incêndios do ICMBio) e os bombeiros foram verdadeiros heróis. Mas faltaram recursos humanos e materiais quando o fogo estava fora de controle. Quando chegou reforço da capital e até de outros estados, a situação já era gravíssima. Para enfrentar uma temporada seca, que pode se repetir, é preciso reforçar as equipes de prevenção, de fiscalização e também de combate ao fogo lá na ponta para garantir uma resposta rápida”, frisou Leonardo Gomes.

Jacarés e aves em área úmida em temporada seca: fogo já atingiu 20% da área do Pantanal (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
Jacarés e aves em área úmida em temporada seca: fogo já atingiu 20% da área do Pantanal (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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