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Mudanças climáticas: temos boas e más notícias

Eleição de Trump, debates da COP22, uso de energia renovável na China e previsões sombrias confundem leigos


Urso polar testa a firmeza da fina camada de gelo no Ártico (Foto AFP/European Geosciences Union / Mario Hoppmann
Urso polar testa a firmeza da fina camada de gelo no Ártico (Foto AFP/European Geosciences Union / Mario Hoppmann)

Relatórios de organizações que monitoram meio ambiente e mudanças climáticas ampliam, neste início de ano, a preocupação sobre as condições de vida futura no planeta, já impactada pela eleição nos EUA de Donald Trump, um empresário que desdenha das recomendações científicas sobre a necessidade de se mudar radicalmente as formas de produção na economia e de se adotar modelos de energia limpa para não inviabilizar a vida na Terra.

Não raro, as conclusões dos diversos estudos trazem confusão ao leigo. Ao comentar os últimos dados divulgados pelo Global Carbon Project,  quatro cientistas concluíram, segundo artigo no site The Conversation, que “pelo terceiro ano consecutivo, as emissões de dióxido de carbono, a partir de combustíveis fósseis e da indústria, aumentaram muito pouco, enquanto a economia global continuou a crescer vigorosamente.  Esse nível de descolamento entre as emissões e o crescimento econômico não tem precedentes”.

O relatório do Global Carbon Project  antecipa que as emissões de poluentes, incluindo a produção de cimento, subiram apenas 0,2% em 2016, atingindo 36,4 bilhões de toneladas. No ano anterior, foram de 36,3 bilhões, o mesmo que em 2014. “Esta é uma mudança extraordinária em relação às taxas de crescimento de 2,3% na década anterior e mais de 3% nos primeiros anos deste século”, frisaram os cientistas em seu artigo “Emissões de combustíveis fósseis estagnaram em 2016”. Acrescente-se que  a economia global avançou 3%  ao ano de 2014 a 2016.

Os autores do artigo atribuem a estabilização primeiramente à China, cuja economia desacelerou com o fim do boom da construção civil e à menor demanda global por aço. Colaboraram o esforço para redução da poluição do ar no país (ainda é muito grave, responsável por um terço das mortes) e a crescente utilização de energia solar e eólica. Também os EUA deram passo importante ao substituir amplamente o carvão por gás natural em suas usinas e, em menor grau, ampliar o uso de fontes renováveis de energia.

Independentemente do clima, do aquecimento global, dos céticos e dos ambientalistas, existe muito interesse econômico em jogo empurrando para um mundo de baixo carbono. No entanto, em termos de negociação internacional, ainda resta uma grande dúvida de como evoluirá o Acordo de Paris

Suzana Kahn
Coppe/UFRJ

Entretanto, em recente artigo neste Colabora, o jornalista José Eduardo Mendonça se valeu dos dados da estação de monitoramento de Mauna Loa, no Havaí, para concluir que a concentração média global de dióxido de carbono na atmosfera bateu novos recordes em 2016, ao atingir 400 partes por milhão (PPM) no mundo todo e durante todo o ano. Citando informações da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), Mendonça afirma que, antes de 1800, os níveis de gás na atmosfera eram de 280 PPM. Os níveis de CO2 já haviam atingido 400 PPM antes, em certos locais e épocas do ano, mas não de forma global e pelo ano todo, como aconteceu agora”.

Outra razão para preocupação. O relatório preliminar da Organização Meteorológica Mundial (OMM), citado por The Conversation, confirma que 2016 será o ano mais quente desde o início das medições. De janeiro a setembro, a temperatura esteve 0.88ºC acima da média de longo prazo (1961-1990), 0.11ºC acima do recorde do ano passado e 1.2ºC mais quente que os níveis da era pré-industrial. A OMM observa que não houve surpresa, pois “as temperaturas globais continuam a subir a uma taxa de 0.10-0.15ºC por década. De 2011 a 2015, elas estiveram, em média, 0.59ºC acima da média do período 1961-1990. Forte contribuição é atribuída ao vigoroso fenômeno El Niño de 2015-2016.

Blair Trewin, principal autor do relatório da OMM, observa, em The Conversation, que a elevação de temperatura alcançou quase o mundo inteiro em 2016. Mas foi mais significativa nas altas latitudes no Hemisfério Norte. Algumas regiões árticas da Rússia experimentaram este ano elevação 6 a 7ºC  acima da média, enquanto o Alasca registra seu ano mais quente desde o início das medições. As únicas regiões que tiveram ano mais frio que o normal foram o norte e o centro da Argentina e a porção sul da Austrália Ocidental. O aquecimento não se dá apenas em terra. A temperatura do oceano também atingiu nível recorde em muitas partes do mundo, contribuindo para o branqueamento de corais, inclusive a Grande Barreira de Corais da Austrália.

Trewin registra, com base no relatório preliminar da OMM, que a extensão do gelo no Ártico esteve bem abaixo da média durante todo o ano. Na Antártica, a extensão esteve perto do normal no primeiro semestre, mas se reduziu abruptamente nos últimos dois meses devido ao início precoce do degelo de verão.

Nesse contexto, a eleição de Donald Trump surge como um sério complicador das negociações para deter o aquecimento global. Uma de suas ameaças é retirar os EUA do Acordo de Paris, de dezembro de 2015. É um compromisso negociado por 197 países, com o apoio dos EUA de Barack Obama, com a meta de manter o aumento da temperatura média global em menos de 2ºC acima dos níveis da era pré-industrial.  Seu fracasso poderá significar o fim da vida na Terra como a conhecemos hoje.

Suzana Kahn, professora da Coppe/UFRJ, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudança Climática e coordenadora do Fundo Verde da UFRJ, concluiu, com um misto de otimismo e realismo, em seu artigo “E agora, Acordo de Paris”, neste Colabora, com a afirmação:

“Independentemente do clima, do aquecimento global, dos céticos e dos ambientalistas, existe muito interesse econômico em jogo empurrando para um mundo de baixo carbono. No entanto, em termos de negociação internacional, ainda resta uma grande dúvida de como evoluirá o Acordo de Paris”.

Como vimos, o leigo é bombardeado por informações às vezes conflitantes, quase sempre aterradoras, sobre o que esperar do futuro em termos climáticos e de qualidade de vida. E se sente como o marisco na briga entre o mar e o rochedo ­– os poderosos interesses de países, empresas globais, ONGs e grupos de pressão de todo o tipo.


Escrito por Trajano de Moraes

Jornalista com longas passagens por Jornal do Brasil, na década de 1970, e pelo Globo (1987 a 2014), sempre tratando de temas de Política Internacional e/ou Economia. Estava posto em sossego quando foi irresistivelmente atraído pelos encantos do Projeto#Colabora. E resolveu sair da toca.

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