Lula defende mapas do caminho para eliminar desmatamento e substituir combustíveis fósseis

Na Cúpula dos Líderes da COP30: presidente brasileiro alerta para necessidade urgente de combinar os debates sobre a mudança do clima com o mundo real

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 6 de novembro de 2025 - 16:43  -  Atualizada em 10 de novembro de 2025 - 19:02
Tempo de leitura: 9 min

O presidente Lula discursa na abertura da Cúpula de Líderes: “A COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a sério os alertas da ciência” (Foto: Rafa Neddermeyer / COP30 / PR)

(De Belém, Pará) – Foi com um discurso forte que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu os trabalhos na Cúpula dos Líderes, que começou hoje, pela manhã, em Belém. Ele criticou as “forças extremistas” que negam o aquecimento global, deu uma cutucada em países como os Estados Unidos, que boicotaram o encontro, conclamou os países a superar “divergências e contradições” e defendeu “mapas do caminho para, de forma justa e planejada, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos”.

A justiça climática é aliada do combate à fome e à pobreza, da luta contra o racismo, da igualdade de gênero e da promoção de uma governança global mais representativa e inclusiva

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente do Brasil

Lula defendeu a necessidade urgente de combinar os debates sobre a mudança do clima com o mundo real. “Para avançar, será preciso superar dois descompassos. O primeiro é a desconexão entre os salões diplomáticos e o mundo real. As pessoas podem não entender o que são emissões ou toneladas médias de carbono, mas sentem a poluição”, declarou. “O segundo descompasso é o descasamento entre o contexto geopolítico e a urgência climática”, adicionou.

O presidente brasileiro disse que a COP30 será a “COP da Verdade” e “honrará os legados” das COPs 28 e 29. “Acelerar a transição energética e proteger a natureza são as duas maneiras mais efetivas de conter o aquecimento global”, afirmou. “A mudança do clima é resultado das mesmas dinâmicas que, ao longo de séculos, fraturaram nossas sociedades entre ricos e pobres e cindiram o mundo entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Será impossível contê-la sem superar as desigualdades dentro das nações e entre elas. A justiça climática é aliada do combate à fome e à pobreza, da luta contra o racismo, da igualdade de gênero e da promoção de uma governança global mais representativa e inclusiva”, acrescentou Lula.

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Enquanto o presidente Lula usou palavras fortes no seu discurso, mas evitou qualquer menção a decisão de explorar petróleo na Foz do Amazonas, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez, deu uma cutucada em alto e bom som em seu discurso. “Cada dólar gasto em subsídios aos fósseis é um dólar desviado da nossa saúde e do nosso futuro comum”, disse Guterres.

O discurso de Lula foi considerado incisivo, mas para a COP30 entrar para história, chamou atenção Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace, é necessário cumprir algumas promessas. E listou: sair de Belém com um mapa do caminho para reverter o desmatamento até 2030, superar a dependência dos combustíveis fósseis e fonte claras de financiamento. “O desafio agora é transformar palavras em ação”, defendeu Pasquali, lembrando que “seguir insistindo em explorar petróleo na Foz do Amazonas ou atrasar a demarcação de territórios indígenas expõe contradições que não cabem em um momento tão importante”.

A ausência da adaptação climática no discurso do presidente chamou a atenção de Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil. “Esse é um tema de destaque para a Presidência da COP30, ação necessária e urgente para diminuir os impactos desses cenários de eventos cada vez mais extremos”, comentou.

Na avaliação de Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, o discurso de Lula aumenta a expectativa de que a COP 30 desenhe um “mapa do caminho” para longe dos combustíveis fosseis e para mobilizar recursos necessários para evitar perdas humanas e materiais que ele mesmo classificou de “drásticas”. E concluiu afirmando que seria a forma de completar o trabalho de duas cúpulas anteriores, em Dubai e Baku.”

Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, elogiou o discurso, mas frisou que a gravidade da crise climática precisa mais do que palavras. “Em Em seu discurso, o presidente Lula afirmou que precisamos de um mapa do caminho para acabar com o desmatamento e o uso dos combustíveis fósseis. É exatamente o que precisamos e é exatamente o que esperamos que a presidência da conferência coloque como proposta sobre a mesa. O sucesso da COP30 se dará ao transformar as palavras do presidente brasileiro em resolução final”, frisou Astrini

O presidente Lula durante lançamento da TFFF (Fundo de Florestas Tropicais para Sempre), na COP30: promessa de aportes (Foto: Bruno Peres / Agência Brasil)
O presidente Lula durante lançamento da TFFF (Fundo de Florestas Tropicais para Sempre), na COP30: promessa de aportes (Foto: Bruno Peres / Agência Brasil)

Fundo para florestas

Ressaltando ineditismo do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), o presidente Lula chamou a atenção para o fato de, pela primeira vez, os países do Sul global assumem o protagonismo na agenda de florestas. Foram já anunciados valores de US$ 5 bilhões para o TFFF, sem dúvida um passo relevante, mas chamou a atenção o fato de países como Reino Unido e Alemanha ainda não terem se comprometido com o fundo. A Noruega, tradicional parceira de iniciativas ambientais, deve fazer um aporte de US$ 3 bilhões; Portugal e Indonésia também já se comprometeram a fazer aportes semelhantes ao do Brasil: US$ 1 bilhão.

Além de reter carbono, as florestas garantem fluxos hídricos e protegem a biodiversidade. Por valerem mais em pé do que derrubadas, deveriam, como defendeu, integrar os cálculos do produto interno bruto (PIB). “Foi com esse senso de urgência que, desde a COP28, reunimos um grupo de países de florestas tropicais e países investidores para desenhar esse mecanismo”, lembrou Lula no lançamento do TFFF, conclamando as organizações internacionais e a sociedade civil a aderirem ao fundo.

Cada país poderá receber até US$ 4,00 por hectare preservado. “Parece modesto, mas estamos falando de um bilhão e cem milhões de hectares de florestas tropicais distribuídos em 73 países em desenvolvimento”. Um quinto dos recursos poderá ser destinado aos povos indígenas e comunidades locais.

A diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, Maria Netto, celebrou o anúncio feito por Lula na abertura do encontro de chefes de Estado. Para ela, o volume de recursos anunciados demonstra que a consistência do mecanismo. “O que se espera é que o TFFF contribua de forma decisiva para estabelecer um novo padrão de financiamento climático, que proteja as florestas e garanta protagonismo às demandas dos povos originários e comunidades locais”.

“O apoio de mais de 50 países é um começo promissor e marca um crescente reconhecimento da importância da ação coletiva para proteger e restaurar as florestas. Porém, o grupo de países que contribuíram efetivamente é limitado. É essencial um apoio mais amplo para que o fundo se torne totalmente operacional. Será um teste definitivo para saber se as nações — especialmente as mais ricas — reconhecem a responsabilidade compartilhada na proteção das florestas que sustentam todas as economias do planeta”, comentou Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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