Trincheira na COP25 contra Bolsonaro

Presidente do Congresso se reúne com ONGs, promete resistir contra flexibilização das leis ambientais e ouve apelo sobre necessidade de mediação no país

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 8 de dezembro de 2019 - 05:04 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:27

Manifestantes protestam contra o desmatamento na Amazônia em frente à embaixada do Brasil em Berlim (Foto: Odd ANDERSEN / AFP)

Manifestantes protestam contra o desmatamento na Amazônia em frente à embaixada do Brasil em Berlim (Foto: Odd ANDERSEN / AFP)

Presidente do Congresso se reúne com ONGs, promete resistir contra flexibilização das leis ambientais e ouve apelo sobre necessidade de mediação no país

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 8 de dezembro de 2019 - 05:04 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:27

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O desmatamento na Amazônia virou um dos maiores telhados de vidro do Brasil na COP25. Foto de Odd Andersen/ AFP

(Madri, ES) – Se o projeto do governo Bolsonaro é flexibilizar leis ambientais, o Congresso Nacional vai resistir. O recado foi mandado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que, na ausência do presidente na Conferência do Clima, foi a maior autoridade brasileira na COP25, no sábado 7.  “Se o presidente Bolsonaro acha que, por uma decisão sua, o Congresso vai à reboque, ele está enganado. Não aceitaremos retrocessos ambientais”. À frente de uma comitiva de senadores, que contou com a presença do presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, Fabiano Contarato (Rede-ES), e dos senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Eliziane Gama (Cidadania-MA),  Alcolumbre se reuniu com ONGs, como Greenpeace, Instituto Clima e Sociedade (ICS), Observatório do Clima e Instituto Ethos.

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Se o presidente Bolsonaro acha que, por uma decisão sua, o Congresso vai à reboque, ele está enganado. Não aceitaremos retrocessos ambientais

Davi Alcolumbre
presidente do Congresso Nacional

Reafirmando o compromisso do Legislativo com a agenda ambiental, a comitiva liderada por Alcolumbre marcou diferença em relação a postura antidemocrática do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Desde o início da COP25, Salles vem evitando qualquer tipo de contato com ONGs, ambientalistas, acadêmicos, pesquisadores…

Davi Alcolumbre na COP25. Foto de Liana Melo
Presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, vai à COP25 e se reúne com ONGs. Foto de Liana Melo

Se não fosse a iniciativa do ICS e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazonia (IPAM), os representantes da sociedade civil brasileira sequer teriam um espaço na conferência para promover debates e apresentar estudos — esta é a primeira vez, na história das COPs, que o governo brasileiro não distribuiu credenciais para representantes da sociedade civil. É num espaço pequeno, porém plural e democrático, que Alcolumbre mandou seu recado e ouviu o apelo das ONGs. “Precisamos de uma mediação no país”, pediram, em uníssono, o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Marcio Astrini, e o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl.

Em 11 meses de governo, Bolsonaro já emitiu 80 medidas contra a área ambiental. É mais do que uma medida por semana

Márcio Astrini
coordenador de políticas públicas do Greenpeace

“Em 11 meses de governo, Bolsonaro já emitiu 80 medidas contra a área ambiental. É mais do que uma medida por semana”, contabilizou Astrini, comentando que os retrocessos na área ambiental vêm rompendo fronteiras e prejudicando, inclusive, à economia. O governo da cidade de Nova Iorque aprovou, recentemente, uma lei proibindo empresas americanas de comprarem de área desmatada da Amazônia. O documento foi assinado por 27 senadores, quatro deles pré-candidatos do partido Democrata. A mesma atitude adotou o governo de Los Angeles.

O presidente Bolsonaro parece não entender que a agenda do clima não é do governo, mas sim do país

Carlos Rittl
secretário-executivo do Observatório do Clima

Reafirmando o compromisso do terceiro setor em dialogar, o que não é do interesse do governo federal, Rittl antecipou que, seguindo o padrão do desmatamento no país, a área desmatada por chegar a 20 mil kmnos próximos anos. Frente à postura de perseguição do governo às ONGs, e também à imprensa, Rittl ressaltou que o governo vem perdendo credibilidade e reputação. “O presidente Bolsonaro parece não entender que a agenda do clima não é do governo, mas sim do país”.

Perdão pela forma irresponsável com o que o governo vem tratando as ONGs e os povos originários, que estão sendo dizimados

Fabiano Contarato
presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado

Na trincheira contra Bolsonaro, o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, Fabiano Contarato, pediu desculpas as ONGs pelo tratamento que o terceiro setor vem recebendo do governo Federal. Não é de hoje que Contarato vem se contrapondo ao governo. Ele tem afirmado que “Bolsonaro é um ditador que propaga ódio“. “Perdão pela forma irresponsável com o que o governo vem tratando as ONGs e os povos originários, que estão sendo dizimados”.

Enquanto os senadores se reuniam com ONGs na COP25, mais dois indígenas da etnia Guajajara eram assassinado no Maranhão – o atentado ocorreu apenas um mês depois do líder e integrante do grupo Guardiões da Floresta, Paulo Paulino Guajajara, ter sido assassinado durante uma emboscada na Terra Indígena Arariboia.

*A repórter viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade (ICS)

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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