Negacionismo do clima em baixa

Em Madrid, na abertura da COP25, secretário-geral da ONU exalta ciência contra resistência climática e premier espanhol critica fanatismo contra as evidências

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 2 de dezembro de 2019 - 19:50 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:28

Em Madrid, na abertura da COP25, secretário-geral da ONU exalta ciência contra resistência climática e premier espanhol critica fanatismo contra as evidências

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 2 de dezembro de 2019 - 19:50 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:28

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Antonio Guterrez, da ONU, e Pedro Sanchez, da Espanha. Foto de Pierre Marcou / AFP
Antonio Guterrez, da ONU, e Pedro Sanchez, da Espanha. Foto de Pierre Marcou / AFP
Secretário-geral da ONU, Antònio Guterrez (à direita), e Pedro Sánchez, premier da Espanha, criticaram o negacionismo climático na abertura da COP25. Foto de Pierre Marcou / AFP

Com o tempo se esgotando para enfrentar o aquecimento global, a Conferência do Clima começou ontem, em Madrid, com uma mensagem sombria. E uma pergunta do secretário-geral da ONU, Antònio Guterrez: “Queremos ser lembrados como a geração que atuou como avestruz?” No primeiro dia da COP25 ficou claro o tom da conferência, que termina no próximo dia 13: “Por sorte, hoje em dia, só um punhado de fanáticos nega as evidências”, discursou o premier espanhol, Pedro Sánchez, anfitrião do encontro.

É neste ambiente de pressão por metas mais ambiciosas para enfrentar o aquecimento global que o Brasil fará sua estreia na COP25. A tese do negacionismo climático, do qual o governo Bolsonaro é um dos seus representantes, enfrentará resistência pesada, inclusive da presidente do Congresso dos Estados Unidos, Nancy Pelosi. Ela defendeu a “ciência, ciência, ciência” como contraponto à resistência climática.

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Queremos ser lembrados como a geração que atuou como avestruz?

Antònio Guterrez
secretário-geral da ONU

É a partir de hoje, quando a COP25 começa a tomar mais corpo — só depois do dia 10 é que as negociações entram na fase mais crítica –, os delegados que conseguirem chegar em tempo no FIEMA Feria de Madrid serão confrontados com dados preocupantes. Segundo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) o ano de 2019 marca uma década de calor global excepcional, com degelo e aumento recorde do nível do mar, que não tendem a retroceder no curto e médio prazos. O estudo aponta que a temperatura média global em 2019 (janeiro a outubro) foi de cerca de 1,1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. As concentrações de dióxido de carbono na atmosfera, por sua vez, atingiram um nível recorde de 407,8 partes por milhão em 2018 e continuaram a aumentar em 2019.

O provável atraso dos delegados à conferência no seu segundo dia é uma greve, de 24 horas, convocado pelos trabalhadores do setor de  transportes públicos — por exigência judicial, os serviços não serão totalmente paralisados. Curiosamente, foram os protestos contra o aumento da passagem de metrô que deflagraram uma convulsão social, que levou o governo do Chile a cancelar a conferência em Santiago, que, originalmente, ocorreria no Brasil. Antes mesmo de tomar posse, o presidente Bolsonaro avisou que não tinha interesse em ser o anfitrião da conferência.

Por sorte, hoje em dia, só um punhado de fanáticos nega as evidências

Pedro Sánchez
premier espanhol

Em sintonia com os discursos dos chefes de estado feitos hoje, em Madrid, cientistas brasileiros se manifestaram contra declarações dadas pelo primeiro secretário do Ministério das Relações Exteriores,  Paulo Cezar Rotella Braga. É que, às vésperas da COP, em uma reunião aberta promovida pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), Braga, que é um dos negociadores brasileiros da COP25 e está em Madrid, disse que “o governo brasileiro fez um esforço muito grande para reduzir as emissões até 2020 e a compensação não foi feita. Não teve aporte financeiro suficiente para ajudar e reconhecer o esforço do país no combate às mudanças do clima”.

O Brasil quer cobrar pelo menos US$ 10 bilhões dos US$ 100 bilhões ao ano prometidos por países desenvolvidos a nações em desenvolvimento pelo Acordo de Paris. O pleito vem depois de o país ter esnobado o Fundo Amazônia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrar um desmatamento recorde, com crescimento de 29,5% em 12 meses.

A reação dos cientistas a declaração de Braga foi imediata. “O Brasil vai a essa COP sem condição de pleitear absolutamente nada. Talvez tenha mais sucesso quando tiver resultados específicos e ações críveis para apresentar, como fez em 2009 e resultou na criação do Fundo Amazônia”, criticou Thelma Krug,  vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O Brasil já virou alvo de constrangimento no primeiro dia da conferência. Observadores atentos das COPs contam que foram abordados por colegas de organizações internacionais da Europa e dos Estados Unidos. A boca pequena, nos corredores do centro de convenção Feria de Madrid, havia uma curiosidade para tentar entender o que está ocorrendo no Brasil na esfera ambiental sob o governo Bolsonaro — uma preocupação recente e que não costumava ocorrer nas conferências anteriores, o que coloca o país numa posição ruim entre muitos negociadores e observadores da COP25.

O Brasil vai a essa COP sem condição de pleitear absolutamente nada. Talvez tenha mais sucesso quando tiver resultados específicos e ações críveis para apresentar, como fez em 2009 e resultou na criação do Fundo Amazônia

Thelma Krug
vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

Na abertura da COP25, o secretário-geral da ONU admitiu sua frustração com o ritmo lento com que avança a luta contra o aquecimento global, especialmente porque “existem ferramentas tecnológicas” para promover uma economia de baixo carbono. Ele defendeu o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e das usinas de carvão, a definição de um preço para as emissões de gases de efeito estufa e o compromisso dos países com a neutralidade climática em 2050. Na contramão da pressão internacional, ainda não há planos no país para abandonar as termelétricas a carvão.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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