Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Ilhas flutuantes contra o aquecimento global

Plano apresentado na ONU cria estruturas para 300 pessoas para substituir cidades costeiras que serão engolidas pelo aumento do nível do mar


Projeto de ilhas flutuantes hexagonais com três vezes o tamanho de um campo de futebol, com populações de 300 pessoas em cada: alternativa para cidades costeiras a serem engolidas pela subida do nível do mar (Foto: Divulgação)
Projeto de ilhas flutuantes hexagonais com três vezes o tamanho de um campo de futebol, com populações de 300 pessoas em cada: alternativa para cidades costeiras a serem engolidas pela subida do nível do mar (Foto: Divulgação)

Cerca de 2.4 bilhões de pessoas – ou 40% da população mundial – vivem em regiões costeiras e provavelmente serão impactadas pela elevação do nível do mar, uma consequência da mudança do clima e do aquecimento global. Como superar o problema? O empresário Marc Collins Chen – por um tempo ministro do turismo da Polinésia francesa, um grupo de 118 ilhas, todas ameaçadas – tem um plano viável. Ele pretende, com sua empresa Oceanix, fundada no final de 2018, construir estruturas urbanas offshore, que ajudariam a evitar os riscos, além daqueles trazidos por enchentes e tempestades extremas.

Recentemente, Chen e um grupo de colaboradores, que incluiu desde o milionário arquiteto holandês Bjarke Ingels, e especialistas em lixo zero, engenharia da água e design de energia eficiente, revelaram na ONU planos de uma cidade flutuante sustentável. Ele se baseia em ilhas hexagonais com três vezes o tamanho de um campo de futebol, com populações de 300 pessoas em cada uma delas. “Isto é a molécula básica de um sistema urbano partilhado”, disse Ingels na ocasião.

A combinação de seis destas ilhas forma uma pequena vila em torno de um porto central aberto, e cada uma com algum tipo de uso comunal dedicado, como saúde, educação, espiritualidade, exercício, cultura e shopping. Fora da cidade flutuante ficariam pequenas ilhas inabitadas com propósitos dedicados, como coleta de energia ou a produção de alimentos. A ONU ainda não endossou a ideia, mas a presença da equipe em sua sede, em Nova York, confere legitimidade a um projeto que até recentemente teria parecido ficção científica.

O início seriam protótipos dos módulos flutuantes, ancorados a uma milha da costa de grandes cidades costeiras, começando próximo do Equador, onde o clima é mais quente e os designers podem construir uma cidade em sua maior parte ao ar livre. Cada ilha seria ancorada ao fundo do oceano por um material chamado biorock, que usa baixas voltagens de eletricidade para estimular o crescimento de calcário a partir de depósitos minerais no oceano.

Ingels diz que as cidades “não são como Manhattan, não há carros”. E que uma das preocupações chave foi assegurar que serão sustentáveis e preparadas para crescer. Começando por uma necessidade crítica, a água: cada gota será colhida do céu, oceano, e mesmo do ar. Pavimentos e telhados capturarão a água e a dirigirão para onde for armazenada. Equipamentos de dessalinização ficarão embaixo das ilhas. A equipe busca máquinas que possam tirar a umidade do ar. Isto seria especialmente útil em clima tropical.

De acordo com Clare Miflin, co-fundadora do Center for Zero Waste Design, as cidades também terão de experimentar novos modos de produzir alimentos, como plantações verticais e hidropônicas. O plantio aquapônico já havia sido usado pelas astecas em suas ilhas agrícolas. Mas com o alimento se produz lixo. A ideia é criar um sistema circular onde todas as sobras de alimentos sejam transformadas em nutrientes através de compostagem.

Fazenda de ostras na Polinésia Francesa, 118 ilhas ameaçadas pelo aquecimento global: ex-ministro criou projeto de ilhas flutuantes (Foto GREGORY BOISSY/ AFP)
Fazenda de ostras na Polinésia Francesa, 118 ilhas ameaçadas pelo aquecimento global: ex-ministro criou projeto de ilhas flutuantes (Foto GREGORY BOISSY/ AFP)

Ainda para fomentar a sustentabilidade, as pessoas alugariam itens mais caros como computadores, em vez de comprá-los. Eles seriam retornados às lojas para que seus materiais possam ser utilizados. Tudo será alugado, sem o conceito da propriedade. Isto quer dizer que tudo será desenhado para ser consertado, ou mesmo desmanchado. Uma cadeira, ou mesmo uma casa deverão se tornar algo novo, não descartável. Veículos serão partilhados, e 60% de todos os deslocamentos serão feitos por transporte sustentável. É uma possibilidade porque as áreas de cada vila são pequenas.

No caso da energia, será toda alternativa, solar, eólica ou mesmo com geração a partir das ondas do mar. Cidadãos terão uma parte alocada da produção total, com educação para a maior eficiência possível. Difícil dizer se a Oceanix será capaz de realizar um projeto desta magnitude. Há muitos problemas a serem resolvidos, e grande parte da tecnologia necessária terá de ser criada do zero ou totalmente adaptada. E embora existam fundos verdes de capital, a empresa não informou como irá financiá-lo.

Quem vai governar estes lugares? Pessoas eleitas no governo mais próximo? Governos próprios? Que papel terão na economia local? Quais serão os empregos? Será necessário buscar trabalho em terra firme? As dúvidas são inúmeras. A Oceanix espera que seu projeto irá levar à criação de todo um ecossistema de soluções que poderão ser aplicadas a qualquer lugar.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

72 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *