Eco-ansiedade: a ameaça à saúde mental do século 21

Protesto contra crise climática na ilha francesa de Réunion: especialistas em saúde mental afirmam que eco-ansiedade atinge cada vez mais adultos e crianças (Foto: Bastien Doudaine / Hans Lucas / AFP – 25/09/2021)

Especialistas constatam crescimento do estresse causado pelos efeitos da crise climática - como enchentes e incêndios - e agravado pela pandemia

Por José Eduardo Mendonça | ODS 13ODS 3 • Publicada em 18 de outubro de 2021 - 08:56 • Atualizada em 27 de outubro de 2021 - 08:07

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Protesto contra crise climática na ilha francesa de Réunion: especialistas em saúde mental afirmam que eco-ansiedade atinge cada vez mais adultos e crianças (Foto: Bastien Doudaine / Hans Lucas / AFP – 25/09/2021)

Jovens ocupam as ruas pelo mundo preocupados com a mudança do clima, mas não estão sendo ouvidos. Sabem que se mesmo que a humanidade subitamente se unisse em uma mudança histórica para a adoção da energia renovável, é tarde para evitar as duras consequências, já em marcha. E não podem contar com governos ou empresas privadas para ajudar a financiar medidas contra o aquecimento global. Pesquisa recente sobre a eco-ansiedade entre pessoas dos 16 aos 25 anos revelou que o estresse da mudança do clima (emociona, cognitiva, social e funcionalmente) está afetando profundamente um grande número de pessoas no planeta.

Talvez nem mesmo no auge da Guerra Fria houve uma desesperança tão disseminada com relação ao mundo emergente. Podemos chamá-la também de ansiedade do clima ou eco-angústia – a preocupação com o aquecimento global está cada vez afetando as vidas de muitas pessoas. Muitos americanos dizem se sentir extremamente ansiosos com o efeito que a crise do clima tem sua sobre sua saúde mental, como mostrou uma pesquisa da Associação Psiquiátrica Americana. Não é diferente no resto do mundo. E os jovens sabem – vai sobrar para eles e seus filhos. E isso é agravado pelo estresse causado pela pandemia.

São desastres que chegam rápido demais, furiosos demais – e são muitos. É difícil planejar o futuro com tanta incerteza. As tempestades que estão lá fora estão atingindo as pessoas por dentro

Lise Van Susteren
Psiquiatra e ativista ambiental

A pandemia pode desaparecer em meses, ou anos, mas as mudanças atmosféricas trazidas pela crise climática permanecerão por muito tempo. Profissionais de saúde mental tentam desenvolver estratégias para lidar com elas, sabendo que é um fenômeno que pode um dia afetar quase todo mundo. Uma semana de enchentes na Alemanha, incêndios na Turquia e recordes de temperatura nos EUA leva especialistas a advertir que a carga emocional vinda do aquecimento do planeta se deve ao fato de ela estar mais perto para um número crescente de pessoas.

Profissionais de saúde mental enfatizam a necessidade da comunicação entre amigos e família como um meio eficaz de lidar com o problema – nem todo mundo precisa de um terapeuta. Ainda assim, apenas 37% dos americanos dizem falar sobre aquecimento global regularmente com pessoas próximas, de acordo com uma pesquisa do Programa de Comunicação da Universidade Yale.

Explorar a natureza do problema é a chave para achar modos de agir, A mudança do clima é real, e por isso racional para se preocupar. Está em estado de fluxo, e a adaptação completa é impossível. E é incerta, tornando a ansiedade mais provável que o medo. Normalmente, há pelo menos dois modos de se lidar com o problema: resolvê-lo ou mudar de atitude. Mas ninguém pode desacelerar o aquecimento global, e isso pode gerar uma sensação de impotência, levando à negação.

A ideia de fortalecer a conexão de indivíduos e o planeta ganha apoio tanto para aumentar a consciência sobre a mudança do clima como para afastar o desespero, disse a psicóloga clínica Elizabeth Allured. Thomas Doherty, psicólogo baseado em Portland, encoraja as pessoas a explorar sua identidade ambiental. Identidades diferentes levam a tentar caminhos diferentes – do trabalho de salvar espécies a assegurar acesso a água limpa ou reduzir o desperdício. Doherty tratou de casos como um adolescente com ansiedade a um economista e ambientalista septuagenário a enfrentar a sensação de ter “perdido a batalha”.

Esta “fadiga de desastres”, o cansaço, é como se as pessoas vissem todo dia nas manchetes uma abundância de más notícias. Não é para menos. “Estamos exaustos e nossa resiliência está baixa”, afirmou Lise Van Susteren, psiquiatra e ativista ambiental. “São desastres que chegam rápido demais, furiosos demais – e são muitos. É difícil planejar o futuro com tanta incerteza. As tempestades que estão lá fora estão atingindo as pessoas por dentro”.

Para os eco-ansiosos, mais preocupante que essas notícias alarmantes é o nivel extraordinário de indiferença e banalidade com a qual a crise do clima é tratada pelos outros, incluindo aqueles em posições de influência.

Cientistas afirmam que ignorar o aumento da eco-ansiedade traz o risco da exacerbação de desigualdades de saúde e sociais entre aqueles mais ou menos vulneráveis a estes impactos psicológicos, e os efeitos socioeconômicos, que em grande parte permanecem ocultos e não quantificados terão forte impacto sobre os custos nacionais de tratar da mudança do clima.

José Eduardo Mendonça

Jornalista com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de reportagens sobre energia limpa. Nos últimos anos vem se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade.

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