E o homem criou um deserto no Cerrado

Uma viagem a Gilbués, epicentro da desertificação no país, onde a pecuária extensiva e a agricultura esgotaram a capacidade do solo e seu poder de renovação

Por Marcio Pimenta | ODS 13ODS 15 • Publicada em 8 de junho de 2020 - 04:52 • Atualizada em 3 de agosto de 2020 - 21:42

A desertificação provocada pela ação humana no Sul do Piauí (Foto: Marcio Pimenta)

A desertificação provocada pela ação humana no Sul do Piauí (Foto: Marcio Pimenta)

Uma viagem a Gilbués, epicentro da desertificação no país, onde a pecuária extensiva e a agricultura esgotaram a capacidade do solo e seu poder de renovação

Por Marcio Pimenta | ODS 13ODS 15 • Publicada em 8 de junho de 2020 - 04:52 • Atualizada em 3 de agosto de 2020 - 21:42

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As dimensões geográficas e as barreiras naturais do Brasil marcam a pele quando nos dispusemos a percorrê-las. Dados e estatísticas, muitas vezes, parecem nos cegar o que realmente está expressado ali. Apenas afirmar que uma região no Piauí cinco vezes maior que a cidade de São Paulo está se tornando um deserto é pouco diante de um problema que pode ser irreversível. É preciso se lançar nos lugares mais remotos do país. Foi o que fiz. 

Quando se fala em mudanças climáticas como resultado da ação humana sobre o planeta, logo vêm à mente imagens de ursos polares no Ártico ou a elevação do nível do mar arrasando a costa dos países. Sim, isso é verdade, mas há problemas tão ou mais urgentes e que estão acontecendo bem ao nosso lado. Um deles é a desertificação

Até chegar ao Nordeste do país, mais precisamente no sudoeste do Piauí, na fronteira entre os estados da Bahia, Maranhão e Tocantins, em pleno bioma do Cerrado, conduzi meu jipe por estradas que cortam gigantescas monoculturas de soja – o ouro em grãos do Brasil – e também as fazendas do futuro: enormes projetos de geração de energia captadas pela luz do Sol. Também há o Brasil esquecido no tempo: os incêndios florestais provocados por produtores que desejam utilizar a terra para plantar mais e mais soja. Um meio de destruir a si mesmo ao longo do tempo, um método conhecido como ecocídio, o extermínio deliberado de um ecossistema em prol de um ganho no curto prazo, sem compromisso com as gerações futuras.

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Quando se fala em mudanças climáticas como resultado da ação humana sobre o planeta, logo vêm à mente imagens de ursos polares no Ártico ou a elevação do nível do mar arrasando a costa dos países. Sim, isso é verdade, mas há problemas tão ou mais urgentes e que estão acontecendo bem ao nosso lado. Um deles é a desertificação de regiões que, antes ação humana, eram lugares de grandes riquezas naturais.

Gilbués é um dos núcleos de desertificação no país. Foto de Márcio Pimenta
A paisagem seca de Gilbués, que, para muitos moradores, foi sempre essa, mas que já foi um solo fértil (Foto: Márcio Pimenta)

 

Um dado importante é que Gilbués está ao lado do Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba e, caso essa desertificação siga se expandindo, vai colocar em risco o abastecimento de água de milhares de pessoas e impactar atividades econômicas de forma ainda mais significativa

No Brasil são ao todo seis núcleos de desertificação oficialmente reconhecidos pelo Estado e objeto de estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Todos se encontram na região Nordeste: Irauçuba (Ceará), Seridó (Rio Grande do Norte), Cabrobó (Pernambuco),  Cariris Velho (Paraíba), Sertão do São Francisco (Bahia) e Gilbués (PI) – onde estou – e que é considerado um dos núcleos mais graves nesse processo. O total de áreas degradadas atinge 15 municípios do Piauí, tendo em Gilbués (PI) seu epicentro. De acordo com estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), são 7.759,56 km² de áreas degradadas na região. Um dado importante é que Gilbués está ao lado do Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba e, caso essa desertificação siga se expandindo, vai colocar em risco o abastecimento de água de milhares de pessoas e impactar atividades econômicas de forma ainda mais significativa.

Lá mesmo em Gilbués, desço do carro. O chão está queimando sob os meus pés. O vento que penetra entre as árvores e avança em minha direção é sufocante. No horizonte uma disposição do solo que me remete às imagens de satélite da superfície lunar. São as voçorocas. Gigantescas erosões de terra que formam montes tornando impossível o plantio de qualquer cultura e dificultando atividades pecuárias. Como resultado, a comunidade local ganha um novo perfil: os mais velhos ficam com o que ainda dá para ser explorado, e os mais jovens abandonam a comunidade, migrando para os centros das cidades em busca de oportunidades. São os refugiados ambientais.

Procuram-se árvores: alguns moradores tentaram fazer um mutirão para plantio a fim de tentar regenerar Gilbués (Foto Márcio Pimenta)
Procuram-se árvores: alguns moradores tentaram fazer um mutirão para plantio a fim de tentar regenerar Gilbués (Foto Márcio Pimenta)

E se você perguntar a um cidadão local sobre o estado atual, provavelmente terá uma resposta padrão: “sempre foi assim”. Mas nem sempre foi assim. E a nossa história e geografia provam isso. Depois de se casar com um piauiense, há 40 anos, Marineide Cirilo Rodrigues, nascida no Maranhão, mudou-se para a região e já percebia que a erosão começava a tomar conta da terra. Mas ainda era possível ter uma produção satisfatória, e assim seguiram cultivando arroz, milho e outras culturas com grande dependência da água que ainda corriam pelos rios ali existentes em períodos de chuva. Caracteristicamente, a região tem o clima bem dividido entre seca e fortes chuvas. O que se plantava em períodos chuvosos era mais do que suficiente para os períodos de seca. Mas isso dependia de um frágil equilíbrio ambiental.

Diferentemente da formação de um deserto natural, resultado de uma combinação entre solo e clima (como o famoso deserto do Atacama, no Chile), o que acontece nessas regiões do Brasil é que a desertificação é resultado da ação direta humana sobre o meio ambiente. Não se sabe exatamente quando o fenômeno começou, mas os estudos de pesquisadores apontam que há uma relação direta entre o processo de desertificação e o início de atividades econômicas como a pecuária extensiva e agricultura (sobretudo do plantio de arroz) a tal ponto que esgotaram a capacidade do solo e seu poder de renovação. 

A paisagem desértica que lembra o solo lunar ou de Marte: processo pode ser irreversível (Foto: Marcio Pimenta)

Em um sistema tão frágil, o simples corte de árvores para obter a madeira que abastece os fogões à lenha ou a montagem de cercas para o gado, passando por queimadas para limpar o terreno, causaram um dano quase irreversível. A criação de animais de grande porte é outro grande problema. O ambiente local não comporta o tamanho dos rebanhos que os produtores desejam criar. Soltas, vacas e cabras devoram a pouca vegetação disponível e, com seus cascos, impedem que as novas plantas vinguem. E como se fosse pouco, no caso de Gilbués ainda há a exploração de diamantes.

As queimadas acabaram com a nascente de vários rios locais, deixando apenas as marcas por onde corriam as águas e pontes sobre um solo seco

Isso está muito presente nas memórias do Edvar Rodrigues, nascido, criado e ainda morador na região. Em suas lembranças de infância, recorda que ajudava os pais a produzirem arroz, mas que hoje isso é impossível. O pai, ele recorda, o alertou sobre o avanço das voçorocas. E que, para combater isso, seria fundamental preservar as árvores da região, que proporcionam sombras –  tornando o clima menos seco -, ajudam na produtividade do solo e suas raízes são importantíssimas para a resistência à erosão em épocas de chuva. Seguindo o conselho do pai, ele não teve problemas com as voçorocas, enquanto seus vizinhos viram a terra ser levada pela erosão. 

“Os filhos de Dona Expedita (uma vizinha) derrubavam as árvores para fazer lenha, e com isso o terreno dela virou um grande barranco, com tudo seco. Não se produz mais nada lá”, diz Edvar. Consciente do problema que atinge seus amigos e familiares, ele percebe ainda mais além. Conta que o inverno está cada vez mais curto. Há mais tempo seco que chuvoso. Baseado na fé, espera chuva para outubro, mas sua experiência o faz perceber que ela provavelmente irá se atrasar e chegará apenas em novembro, encurtando cada vez mais o período propício para o plantio.

Gilbués é um dos núcleos de desertificação no país. Foto de Márcio Pimenta
Uma pequena criação de animais: habiitantes de Gilbués sobrevivem com muito pouco (Foto de Márcio Pimenta)

Com a mesma consciência, Marineide se queixa que tentou fazer um movimento na comunidade para que todos plantassem árvores, mas quando se viu sozinha na tarefa, abandonou a prática. Dedica-se hoje a cultivar uma horta com variedade de frutas e verduras para consumo próprio. Se encontrar apoio ela se dispõe a retomar a iniciativa de plantar árvores em toda a região. Está muito vivo em suas memórias o período em que podia plantar arroz e a havia fartura de culturas. As queimadas, lembra ela, acabaram com a nascente de vários rios locais, deixando apenas as marcas por onde corriam as águas e pontes sobre um solo seco.

A minha viagem à maior região desertificada do país coincidiu com um outro trabalho que eu fazia cobrindo os incêndios na Amazônia. Incentivados pelo governo de extrema-direita que tem uma visão estratégica para os recursos naturais que nos remete à década de 1970, diversos produtores espalharam focos de incêndio pela floresta com a certeza da impunidade. E este é exatamente o mesmo fenômeno que preocupa os ambientalistas que defendem a preservação da Amazônia: se o desmatamento avançar a um ponto em que se torne irreversível a capacidade de renovação da floresta, a região irá se tornar um grande deserto, como o Sul do Piauí.

*Esta reportagem foi uma das vencedoras da 1ª Bolsa #Colabora

Marcio Pimenta

Fotógrafo especialista em documentários, viagens e culturas. Dr.(c) em Relações Internacionais pela Universidad de Santiago do Chile. Abandonou o doutorado 5 anos atrás para se dedicar a contar histórias. Atualmente reside em Curitiba (PR). Publica reportagens independentes sobre desastres ambientais, crise hídrica, imigração, trabalho escravo, etc. no The Guardian (ENG), National Geographic (BRA), El País (BRA), Roads and Kingdoms (NY, EUA), GlobalPost (EUA), Gazeta do Povo (Paraná) e no #Colabora.

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3 comentários “E o homem criou um deserto no Cerrado

  1. Francisco Carlos Pardini disse:

    #ANARCODESCONHECIDO Lutei pela legalização da FETRAF_CUT_MG, o serrado tá doente, as represas de alteamento dá VALE está ajudando na destruição. SOCORRO ONU.

  2. José Ribamar Pinto disse:

    No mesmo caminho de destruição, segue as áreas de exploração mineral da nossa amazônia, especificamente, na região Norte do Brasil, onde é explorada a bauxita para extração do alumínio, a exemplo da Mineração Rio do Norte, em Juruti e Oriximiná, à Noroeste do Estado do Pará e a exploração do ferro, em Carajás. A pedra de bauxita é triturada, transformada em pó (vermelho), que dispersado pelo vento acaba pintando a floresta verde em sua volta, de vermelho prejudicando assim o processo de fotossíntese das plantas. Em seguida, o pó vermelho é lavado par dele ser filtrado o alumínio, resultando numa lama vermelha como rejeito sem mais nenhuma forma de aproveitamento. Essa lama é depositada em grandes bacias (crateras) abertas no meio da floresta que avista das do alto são verdadeiras lagoas de lama vermelha. Vez ou outra se rompe, principalmente, no inverno, com o volume aumentado pelas águas das chuvas que a faz escoar para nascentes, córregos e igarapés próximos, matando toda forma de vida ali existente. Para se ter ideia, nenhum tipo de planta consegue sobreviver nesta lama. Um carta aberta divulgada à quase duas décadas chamada SOS JURUTI, circulou pela impressa nacional e internacional denunciando a ALUMAR sobre esses fatos, mas, infelizmente, não se viu surtir o efeito esperado.

  3. Raimundo Henrique. disse:

    A reportagem sobre a questão ambiental em Gilbués foi oportuna, no entanto, o autor peca ao demonstrar que o alvo não era Gilbués, mas a Amazônia. Gilbués foi um gancho, um pretexto para se referir ao que interessa – a rica Amazônia.

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