COP26: após ataques, Txai Suruí teme por sua segurança no Brasil

Txai Suruí na COP26: temor por sua segurança após perseguição por bolsonaristas dentro e fora do evento, sobretudo nas redes sociais ( (Foto: Ana Pessoa/Midia Ninja/CopCollab26)

Jovem líder indígena é alvo de racismo e misoginia de apoiadores de Bolsonaro e passa a ser monitorada pelo governo brasileiro

Por Amazônia Real | ODS 10ODS 13ODS 16 • Publicada em 11 de novembro de 2021 - 19:24 • Atualizada em 17 de novembro de 2021 - 09:07

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Txai Suruí na COP26: temor por sua segurança após perseguição por bolsonaristas dentro e fora do evento, sobretudo nas redes sociais ( (Foto: Ana Pessoa/Midia Ninja/CopCollab26)

(Alicia Lobato* – Glasgow) –  A jovem indígena Walelasoetxeige Paiter Bandeira Suruí, mais conhecida como  Txai Suruí, única brasileira a discursar na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), está sendo perseguida por bolsonaristas dentro e fora do evento, sobretudo nas redes sociais. Ela, que ainda terá uma agenda na Suécia após deixar Glasgow, na Escócia, nesta sexta-feira (12), já receia pelo retorno ao Brasil, pois teme pela própria segurança.

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Nascida na Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, a jovem é filha de duas lideranças historicamente perseguidas na Amazônia Ocidental: o líder indígena Almir Narayamoga Suruí e a indigenista Ivaneide Bandeira Cardozo, fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

Txai Suruí, de 24 anos, disse em seu discurso no dia 1o. de novembro na COP26, assistido pelo premiê britânico Boris Johnson: “os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo”.

Em outro ponto conclamou: “vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis”. A voz de Txai Suruí ecoou no mundo.

No dia 3 de novembro, o presidente Jair Bolsonaro incitou seus apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, dando as coordenadas para os ataques contra a jovem. “Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Venezuela? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país”, disse.

Os comentários que se seguiram a Txai Suruí questionam quem custeou sua viagem à COP 26, o fato dela ter falado seu discurso em inglês e até mesmo por usar vestimentas parecidas com as “dos indígenas americanos”.

“Eles realmente são uma quadrilha, se articulam para atacar as pessoas. Eu estou recebendo muitas mensagens de ódio, muitas mensagens misóginas, muitas mensagens racistas”, afirmou Txai Suruí à Amazônia Real . Segundo ela, depois que Bolsonaro lhe atacou publicamente, o grupo de seus seguidores, no mundo virtual e também em Glasgow, na Escócia, tem transmitido recados jocosos e pesados.

À reportagem, a mãe de Txai, Ivaneide Bandeira, disse que os adornos na jovem indígena para seu discurso na COP26 foram feitos especialmente pelos tios Mopiri e Agamenon e o traje foi o pai que lhe deu. O vestido foi dado de presente a Almir por um líder indígena peruano.

Universitário de Direito, Txai Suruí é coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, é representante da Guardians of the Forest – uma aliança de comunidades que protege as florestas tropicais ao redor do mundo -, é conselheira da Aliança Global “Amplificando Vozes para Ação Climática Justa”, é voluntária da organização Engajamundo, e foi representante de seu povo na Conferência do Clima da ONU – COP25, em Madri. Faz parte do Conselho Deliberativo do WWF-Brasil e do setor jurídico da organização Kanindé, em Rondônia.

Mas a jovem afirma que está enfrentando essas ameaças com calma e lembrou: em 2011, segundo ela, sua família foi protegida pela Força Nacional de Segurança por ameaças de morte. Ela relata que os ataques vinham de todos os lados, até mesmo pela Fundação Nacional do Índio (Funai), pois o pai, Almir Suruí, constantemente criticava a agenda anti-indígena do órgão que foi reformulado no governo Bolsonaro. E sua mãe, Ivaneide Bandeira, mais conhecida como Neidinha, teve que sair de Rondônia devido às ameaças de morte.

Em maio do ano passado, a Polícia Federal abriu inquérito contra Almir Suruí a pedido do presidente da Funai, delegado da PF Marcelo Xavier, pelo fato do líder indígena “criticar o governo”. A medida teve grande repercussão por causa da tentativa de intimidação contra Almir Suruí e o inquérito foi arquivado. Além de Almir, também foram alvo da PF Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib).

“Nascemos indígena, já passamos pelo preconceito, pelo racismo, por tudo. E aí é claro que em algum momento da minha vida já passei por alguns ataques e ainda mais porque nossa realidade lá no território é de ameaça. Muito piores do que essas que recebo na internet são as ameaças diretas nas nossas vidas”, afirmou, com firmeza a futura advogada Suruí.

A jovem líder também sofreu críticas de apresentadores da Rema TV, em Rondônia. “Com relação a ida dela . Qual é o benefício que ela vai trazer da tribo dela e para os indígenas do Brasil? O que ela falou sobre a nação indígena? Eles precisam de amparo, precisam evoluir (…) Ou foi lá fazer política? Aí vai ser criticada, pois não tem jeito!”, disse Moisés Cruz, que expôs o desconhecimento sobre a liderança de Txai Suruí e sua participação na COP26.

A jovem líder indígena Txai Suruí nos corredores da Conferência do Clima em Glasgow: ataques após discurso na abertura da COP26 (Foto: Paul Ellis / AFP)
A jovem líder indígena Txai Suruí nos corredores da Conferência do Clima em Glasgow: ataques após discurso na abertura da COP26 (Foto: Paul Ellis / AFP)

Txai Suruí confirmou à Amazônia Real que tem horas que sente o peso dos ataques misóginos e racistas por parte dos bolsonaristas. “Às vezes, é um pouco pesado porque eu estou vindo aqui falar da voz dos povos indígenas, levar a nossa realidade e, principalmente, travar uma luta pela vida, não só dos povos indígenas mas pela vida de todo mundo, pela vida do planeta. E aí, em contrapartida, eu estou recebendo mensagens de ódio por minha luta. É muito pesado”, desabafou.

Txai disse que os pais dela ficaram preocupados, especialmente quando a organização do evento entrou em contato com ela, em busca de saber se a jovem precisava de algo. Mas como eles têm passado pela mesma situação, junto com o receio veio também o apoio.

“Meu pai falou: ‘É minha filha, é assim mesmo, você está conseguindo levar a mensagem do nosso povo pro mundo e quando fazemos isso, tem muita pessoas que admiram, tem muita mas tem muitas que vão falar palavras ruins, que não vai gostar mesmo, mas, siga firme porque você é uma guerreira da paz”, ele falou para mim, e a minha mãe falou a mesma coisa, que era para eu continuar com a minha fala de esperança’, contou a jovem ativista.

Entidades indígenas reagem aos ataques

Em resposta aos ataques a Txai Suruí, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), divulgou nota de apoio à jovem indígena, onde afirma que “O ataque direto através de ameaças a Txai Suruí representa o contexto da erosão dos direitos indígenas que lamentavelmente o Brasil vive sob comando do atual governo. É preciso reconhecer a contribuição dos defensores indígenas em questões ambientais para o fortalecimento da democracia brasileira”.

“Repudiamos o racismo, a misoginia e a covardia daqueles que atacam e ameaçam Txai Suruí e tantas outras lideranças indígenas que erguem suas vozes. O direito a ter nossas falas respeitadas faz parte de nossa luta. Esses ataques e ameaças não ficarão impunes, não nos intimidam e jamais irão nos calar!”, diz a Coiab.

A delegação de 40 indígenas da Apib tem ouvido recados como “não falem mal do Brasil”. Eles também relataram que não foram bem vindos. Um desses ataques foi filmado por diversas pessoas no espaço brasileiro das organizações civis, o Brazil Climate Hub. No fim de um painel, um apoiador do presidente Jair Bolsonaro iniciou uma live em uma rede social e disparou ataques às pessoas presentes que saíam do evento. Dizia frases como “brasileiros falando mal do Brasil” e “chega de ativismo”.

A liderança indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku, chegou a responder alguns comentários e teve o ataque direcionado a si, onde o homem não identificado questionou o fato de estarem “misturando política e meio ambiente”, os seguranças do evento precisaram intervir e pedir para o homem sair do local.

Para os membros da delegação indígena na Cúpula do Clima, o principal receio é eles voltarem para as comunidades e sofrer ameaças, como comentou o coordenador executivo da Apib, o advogado Dinamam Tuxá, da Bahia. “Sempre existe o medo de algum tipo de represália quando retornarmos, desde uma possível prisão, até mesmo um processo, pelo fato de estarmos fazendo o que fazemos de melhor que é denunciar o Estado brasileiro e suas violações com esse desmonte da política ambiental indigenista no Brasil”, afirmou. A comitiva da Apib participou de mais de 80 espaços de discussão dentro e fora da conferência.

Para o coordenador executivo da APIB, o caso da Txai Suruí é preocupante, pela quantidade de mensagens de ódio que ela vem recebendo, além de montagens que vinculam a imagem dela a diversas situações, e finaliza, “estamos acompanhando esse processo e nós vamos tomar as medidas cabíveis para proteger a imagem dela e assegurar o direito de todos esses que estão sendo atacados por essa rede de pessoas que se difunde o ódio”.

Brasil leva troféu ‘Fóssil do Dia’

O ódio destilado pelos apoiadores de Bolsonaro chamou a atenção de ONGs que organizam o prêmio Fóssil do Dia. Na última semana, entregaram o troféu de pior políticas ambientais para o Brasil, exatamente por esse ataque aos povos indígenas durante a conferência.

Nesta quarta-feira (10), o ministro do meio ambiente, Joaquim Leite, trouxe em dados que a agricultura de baixo carbono do país já restaurou “quase 28 milhões de hectares de pastagens degradadas”.

No entanto, a agência de checagem Lupa, taxou como “exagerado” esse comentário do ministro, pois o levantamento MapBiomas, que mede todas as mudanças de uso da terra no Brasil desde 1985, “mostrou que, dos 113 milhões de hectares de pastagens que permaneceram pastagens entre 2000 e 2020, 17 milhões de hectares deixaram de apresentar degradação – ou seja, pode-se dizer que foram “recuperadas”. Ainda em sua fala Joaquim afirmou que “onde existe muita floresta também existe muita pobreza”, frase que foi amplamente criticada, fazendo novamente o Brasil ganhar o “trófeu”, do Fóssil do dia.

A COP26, que oficialmente terminará na sexta (12), conta com a possibilidade das negociações finais serem resolvidas até sábado, deixando aberta as possibilidades do que vai ser resolvido. Além disso, na quarta-feira (10) a China e os Estados Unidos anunciaram uma declaração em conjunto combinada entre ambas as partes sobre a intensificação da ação climática, em uma conferência de imprensa em Glasgow, um representante do governo chinês, Xie Zhenhua, anunciou que os dois governos depois de diversas reuniões entraram em consenso sobre a sua atuação no combate a crise climática, ação importante visto que os pais são os maiores poluidores do mundo.

*A jornalista Alicia Lobato é a enviada especial da Amazônia Real na cobertura da #COP26. A agência também integra a COPCOLLAB26, cobertura colaborativa da conferência realizada por coletivos, organizações, mídias independentes, midiativistas, jornalistas e comunicadores.

**Colaboraram Kátia Brasil e Elaíze Farias

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