Brasil vai estar isolado na COP26

Apontado como o maior negacionista climático do mundo, Bolsonaro chegará a Cúpula do Clima desacreditado

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 3 de setembro de 2021 - 08:02 • Atualizada em 28 de setembro de 2021 - 19:32

Fumaça de queimada sobre o céu da Amazônia: Nasa aponta que 54% dos focos de incêndio são frutos de desmatamento, um vilão do clima (Foto: Carl de Souza/AFP)

Fumaça de queimada sobre o céu da Amazônia: Nasa aponta que 54% dos focos de incêndio são frutos de desmatamento, um vilão do clima (Foto: Carl de Souza/AFP)

Apontado como o maior negacionista climático do mundo, Bolsonaro chegará a Cúpula do Clima desacreditado

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 3 de setembro de 2021 - 08:02 • Atualizada em 28 de setembro de 2021 - 19:32

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Mais isolado do que nunca, o Brasil chegará a Conferência do Clima, a COP26, tão ou mais desacreditado do que em 2019, quando ocorreu, em Madri, a COP25. Faltando pouco menos de dois meses para o encontro da ONU em Glasgow, na Escócia, Jair Bolsonaro segue sendo visto como o maior negacionista climático do mundo. O presidente já vem sendo considerado internacionalmente um perigo, dado o peso do país no combate às mudanças climáticas. Na série “A caminho de Glasgow”, o #Colabora antecipa bastidores das negociações e o ânimo dos tomadores de decisão no tabuleiro climático global.

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Está claro, por exemplo, que depois de os Estados Unidos terem se livrado de Donald Trump, o “governo de John Biden recolocou o país no jogo e seu governo tem adotado posturas proativas, além de posicionar a questão climática na centralidade do seu discurso”. A análise de Stela Herschmann, especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima, indica que, com a saída de Trump, o isolamento de Bolsonaro cresce a olhos vistos, à medida que se aproxima a COP26.

O Brasil é, em termos políticos, o maior risco para o mundo porque pode prejudicar os esforços globais no combate às mudanças climáticas

Stela Herschamnn
especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima

“O Brasil é, em termos políticos, o maior risco para o mundo porque pode prejudicar os esforços globais no combate às mudanças climáticas”, avalia Stela, citando que nada mudou na política ambiental, apesar da dança das cadeiras no Ministério do Meio Ambiente (MMA) com a saída de Ricardo Salles e a entrada de Joaquim Leite. “Tem ficado claro nas audiências públicas no Senado, por exemplo, que tanto o MMA quanto o Ministério da Agricultura estão preocupados com a imagem do Brasil lá fora”.

A preocupação, no entanto, não vem se traduzindo num redirecionamento da política ambiental. Nem mesmo discursos bem construídos têm conseguido convencer os tomadores de decisão mundo afora. A cúpula de líderes sobre o clima, convocada por Biden, em abril, foi um divisor de água. Na ocasião, Bolsonaro prometeu, no seu discurso, “fortalecer” os órgãos ambientais e “duplicar” os recursos para a fiscalização. No dia seguinte, último dia do encontro, o governo anunciou um corte de 24% no orçamento do meio ambiente para 2021.

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A distância entre a prática e o discurso tem tirado a credibilidade do país e o “Brasil chegará a COP26 desacreditado”. Em reuniões com o MMA, Stela tem ouvido, por exemplo, que o Brasil não pretende ser um entrave nas discussões sobre o artigo 6, como ocorreu em Madri. “Temos ouvido que o governo chegará com uma postura proativa”, conta ela, admitindo, no entanto, que não está claro se o país vai, realmente, mudar de posição em relação ao tema.

Dia do Meio Ambiente: Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estão em ritmo acelerado em 2019/2020 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente com aumento da grilagem e do desmatamento (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

O histórico do governo é preocupante. Desde que Bolsonaro assumiu, o desmatamento vem girando em torno dos 10 mil km2, o que significa um “aumento de 46% em relação à média dos anos anteriores”. Em dezembro do ano passado, ao anunciar a NDC brasileira, sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada que envolve compromissos voluntários criados pelos países signatários do Acordo de Paris, a meta do país piorou, indo de encontro ao que vem ocorrendo mundo afora. “O que o país fez foi uma pedalada climática”, avalia Stela.

Mesmo se comprometendo com as metas anunciadas em 2015, ao mudar a base de cálculo relativa ao ano de 2005 – o que é um procedimento normal, desde que as metas também sejam atualizada – o governo retrocedeu, o que significa que “podemos chegar em 2030 emitindo 400 milhões de toneladas a mais do que havia sido previsto anteriormente”.

Em 2005, o país havia emitido 2,1 giga toneladas de CO2 e se comprometido, ao assinar o Acordo de Paris, a reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% em 2030. Ao refazer o cálculo, o volume de emissões passou a ser de 2,8 giga toneladas de CO2.

Os países, analisa Stela, estão olhando o país com preocupação e a maior probabilidade é que não venham a fazer nenhum tipo de acordo com o Brasil, enquanto resultados não sejam efetivos. Tudo indica que, no tabuleiro climático global, a tática adotada com o antecessor de Biden venha a se repetir com Bolsonaro: “É esperar passar, como fizeram com os Estados Unidos durante o governo Trump”, conclui Stela.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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