Sem turistas, destinos africanos veem crescer caça e contrabando de animais

O aumento da caça aos rinocerontes foi registrado em vários pontos; comunidade local consegue fazer fiscalizaçao eficaz nas concessões da Porini Camps (Jeffrey Wu / Gamewatchers Safaris)

Medidas para conter pandemia de covid-19 deixam parques nacionais vazios; demissão de funcionários dificulta fiscalização e aumenta a matança até por subsistência

Por Mari Campos | ODS 12 • Publicada em 8 de maio de 2020 - 09:45 • Atualizada em 20 de maio de 2020 - 16:42

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O aumento da caça aos rinocerontes foi registrado em vários pontos; comunidade local consegue fazer fiscalizaçao eficaz nas concessões da Porini Camps (Jeffrey Wu / Gamewatchers Safaris)

Boa parte do planeta está em quarentena, desde o mês de março, para se proteger dos avanços da pandemia da covid-19. Ao longo destas semanas, ficou clara a diminuição dos índices de poluição no mundo todo e fomos surpreendidos, no noticiário e nas redes sociais, com imagens nunca antes imaginadas nos tempos contemporâneos, como cisnes nadando livremente nos canais de Veneza, um tubarão-baleia próximo à praia em Niterói, um puma em Santiago do Chile e até simpáticos pinguins caminhando por bairros bem urbanos da Cidade do Cabo.

Mas nem tudo são flores na natureza durante os tempos de isolamento social para os seres humanos. Em diferentes partes do globo, os esforços e medidas de contenção da covid-19 podem estar causando um efeito danoso e imprevisto: o aumento da caça e do contrabando de animais, sobretudo em destinos que antes dependiam majoritariamente do turismo para sua sobrevivência. 

Na Ásia, são os pássaros as maiores vítimas, segundo dados da WCS (Wildlife Conservation Society). Três das poucas centenas de Ibis gigantes que ainda existem no planeta morreram recentemente na região, provavelmente envenenados. No Camboja, mais de 100 filhotes de cegonha pintada, animal ameaçado de extinção, foram mortos em Prek Toal Ramsar, a maior colônia de aves aquáticas de todo o sudeste asiático. 

ONGs e associações de proteção estão tentando intervir e promovendo diversas campanhas de arrecadação emergencial de fundos, mas a verdade é que, para muitos destinos, sem a renda outrora proveniente da atividade turística (reduzida a zero pela quarentena), é difícil estimar como e por quanto tempo as brigadas anticaça poderão continuar operando em lugares como esses. 

A caça vai crescer na ausência do turismo porque a mera presença do turismo já é uma importante forma de prevenção

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Dereck Joubert

Sinal de alerta em destinos africanos

Alguns dos destinos com os maiores problemas neste sentido atualmente estão no continente africano. Nos grandes parques nacionais da África do Sul, como o próprio Kruger Park, o mais famoso deles, a vigilância e a fiscalização nas rotas de escape foram reforçadas, e casos de caça e contrabando ainda não registraram aumento. Mas a receita infelizmente não é a mesma para áreas mais remotas do país e do continente: a Project Rhino, uma organização não governamental de Durban, notificou o aumento de caça a rinocerontes desde a primeira semana da quarentena, com sete rinocerontes mortos no país. 

Reservas e áreas que antes viviam do turismo de safáris, hoje sem captação de renda para suas comunidades, têm acompanhado semanalmente o aumento nos números de casos de contrabando e caça – mesmo em destinos que há anos tinham políticas muito estritas para isso, como Botsuana e Quênia.  

Uma das instalações da Great Plains Conservation, que aceita doações para amenizar os danos econômicos da falta de turistas na região (Foto: Divulgação)
Uma das instalações da Great Plains Conservation, que aceita doações para amenizar os danos econômicos da falta de turistas na região (Foto: Divulgação)

Esforços governamentais combinados a iniciativas privadas vinham sendo receita de sucesso nos dois países, com caça e contrabando praticamente abolidos. O Kenya Wildlife Service, por exemplo, trabalhava ativamente em parceria com comunidades, lodges e rangers das áreas de conservação privadas e públicas e tinha celebrado recentemente que, em 2019, a taxa de natalidade de rinocerontes no Quênia foi maior que a de mortalidade – e que a caça a elefantes também estava sob controle.

Entretanto, a quarentena trouxe dados preocupantes em muitas reservas de vida selvagem da porção sul do continente africano. Neste começo de 2020 já foram registradas 31 caças a rinocerontes na Botsuana, número maior que os dados do ano passado inteiro. 

“A caça vai crescer na ausência do turismo porque a mera presença do turismo já é uma importante forma de prevenção”, sintetiza Dereck Joubert, documentarista de vida selvagem que é também fundador, em parceria com a esposa Beverly Joubert, da Great Plains Conservation (que possui instalações em concessões privadas em três países africanos), da Great Plains Foundation e da organização Rhinos Without Borders.  

Neste momento, além da diminuição das medidas de fiscalização oficial durante a quarentena, são majoritariamente dois fatores levando ao aumento dos casos: a caça de animais selvagens para providenciar comida para comunidades empobrecidas ou a caça para venda ilegal a intermediários, como contrabandistas de chifres de rinoceronte e marfim das presas dos elefantes. 

Pessoas famintas caçam mais, e caçadores profissionais têm agora enorme acesso a áreas que antes eram funcionais

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Dereck Joubert

Vale lembrar que, nestes países, diversas comunidades são extremamente remotas, isoladas e não possuem outra alternativa de renda. E, como o turismo de safári na África é caro e a pandemia já começa a gerar recessão econômica global, há estimativas de que este segmento demore pelo menos um ano para começar a se recuperar – e as comunidades têm plena noção disso.

O aumento do empobrecimento das comunidades locais se dá não apenas pela ausência óbvia de turistas durante a quarentena como, sobretudo, pelo fato de muitas propriedades de safáris, sem turistas, terem demitido parte de seus funcionários locais. Além disso, em algumas áreas de conservação, com a impossibilidade de manter os lodges abertos, boa parte dos funcionários voltaram para suas comunidades de origem para ficar junto de suas famílias durante a quarentena. “Pessoas famintas caçam mais, e caçadores profissionais têm agora enorme acesso a áreas que antes eram funcionais”, ressalta Joubert.

Joubert, que afirma não ter demitido um único funcionário ou prestador de serviços de suas propriedades e camps, ressalta também um elemento extra que evidencia o perigo ao meio ambiente: “Grande parte das pessoas que estão sendo ou podem ser demitidas pelas propriedades de safári têm profundo conhecimento das reservas, das técnicas e dos hábitos dos animais”. E faz um apelo: “Este é um ciclo de declínio que precisa ser interrompido urgentemente e esta é uma oportunidade para nós redesenharmos completamente nossa relação com o planeta”.

Diante da maior incidência de caça ilegal, a Gamewatchers Safaris assumiu a vigilância das áreas onde está instalada no Quênia (Foto John Quintero / Gamewatchers)

Lodges e camps assumiram a fiscalização

Para se ter uma ideia do quanto o turismo de safáris representava na economia das comunidades locais no cenário pré-pandemia, só no Quênia o setor era responsável por mais de um milhão de empregos. Hoje, no país, governo, setor privado e associações como Kenya Wildlife Conservancies Association e Maasai Mara Conservancies Association estão tentando arrecadar fundos para manter as áreas de conservação funcionando, com os salários dos funcionários todos em dia. Mas, mesmo com todos os esforços, está sendo também graças às iniciativas dos próprios lodges e camps de safári que as medidas de contenção de caça e contrabando têm dado certo nestes últimos dois meses ali – e também em outros países próximos, como Botsuana e Zimbabue. 

A Great Plains Conservation procurou voluntários entre seus guias para ações extras regulares de prevenção à caça neste período. “Foi maravilhoso ver cada um deles se voluntariando”, conta Joubert. “Assim, estamos patrulhando nossas concessões constantemente. Tenho também pilotado meu próprio avião para sobrevoar as áreas frequentemente, garantindo que estejam seguras.”, completa. A rede de camps de safári de luxo, que conta com unidades no Quênia, na Botsuana e no Zimbábue, também investiu na compra de suprimentos médicos (que foram todos doados às clínicas locais) e na criação de facilidades de emergências médicas na vila mais próxima de cada uma de suas concessões.  Vale ressaltar que a Great Plains, desde sua fundação, sempre trabalhou de forma 100% sustentável e em total parceria com as comunidades locais mais próximas às suas reservas, reinvestindo integralmente nos camps e em suas obras e projetos sócio-ambientais toda a arrecadação proveniente deles. 

Assumir a fiscalização e vigilância das áreas de seus camps e o bem-estar das comunidades envolvidas também foi a escolha da Gamewatchers Safaris, no Quênia. A empresa, uma das mais antigas deste setor no país ainda em funcionamento, sempre atuou ativamente no turismo responsável e sustentável. “Acreditamos que qualquer iniciativa de conservação deva estar sempre diretamente ligada à manutenção das comunidades, de modo que eles não tenham que mudar suas terras para pastagens, cercá-las ou recorrer à matança da vida selvagem em busca de carne ou dinheiro”, diz Mohanjeet Brar, diretor geral da Gamewatchers Safaris. 

A Gamewatchers é a proprietária também dos Porini Camps, todos eles instalados em reservas maasais e, portanto, administrados em parceria total com estas comunidades. Os camps são todos 100% sustentáveis e com staff 100% composto por maasais, dos camareiros ao gerente geral. Nestes tempos de pandemia, a empresa também decidiu usar o know-how de sua própria equipe nativa, que conhece tais terras como ninguém, para garantir as medidas de vigilância. “Nas áreas de conservação nas quais estamos envolvidos ainda não tivemos nenhum caso de caça, felizmente. Mas isso porque nossos rangers continuam patrulhando as terras o tempo todo. E como eles são todos oriundos das nossas comunidades locais, isso aumenta consideravelmente a inteligência necessária nas ações para manter os caçadores afastados. Ainda assim, é sempre um risco”, afirma Brar. 

Uma moradora de uma das propriedades da Porini Camps: grupo pede doações (Foto: Jeffrey Wu / Gamewatchers Safaris)
Uma moradora de uma das propriedades da Porini Camps: grupo pede doações (Foto: Jeffrey Wu / Gamewatchers Safaris)

Como é possível colaborar

Enquanto não é possível viajar novamente, todas estas reservas e associações estão dependendo em grande parte de doações e campanhas de arrecadação para continuarem operando com sucesso. A boa notícia é que qualquer pessoa ou empresa, de qualquer parte do mundo, pode colaborar sem sair de casa.

A Nature Conservancy, uma organização internacional sem fins lucrativos, já está promovendo uma grande campanha para arrecadar fundos em doações para fornecer apoio econômico a reservas de vida selvagem e suas comunidades neste período. É possível colaborar com valores a partir de 50 dólares através de doações no próprio site da organização ou diretamente com a campanha Our World

A Great Plains Foundation, braço da Great Plains Conservation, recebe doações de qualquer valor para promover a segurança da vida selvagem e a subsistência das comunidades locais nestes tempos. Além disso, a fundação está investindo também em outras ações emergenciais, como produzir 250 mil máscaras para os membros das comunidades parceiras. 

A Gamewatchers Safaris criou em abril uma campanha online de arrecadação chamada ‘Adopt an Acre’ (adote um hectare de terra), cujos fundos arrecadados destinam-se à continuidade do pagamento de taxas de conservação, custeamento de medidas de proteção das terras e manutenção da renda das comunidades locais. As doações podem ser feitas diretamente no site da campanha e começam em 35 dólares. Quem tiver o Quênia nos seus planos de viagem – para quando viajar for seguro novamente – pode investir em doações mais generosas e usar o valor doado como crédito em estadias nas propriedades de safári da Porini Camps, do grupo Gamewatchers Safari, até 2022. 

Mari Campos

É jornalista formada e premiada que há 16 anos trabalha como freelancer especializada em turismo, colaborando com diversos jornais, revistas e sites no Brasil e também em outros seis países. Rodando o mundo todo desde sempre, o continente africano é até hoje uma de suas grandes paixões.

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