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Desperdício e sua contribuição oculta às mudanças climáticas

Cerca de 1/3 da produção mundial de alimentos não chega à mesa do consumidor. A comida que vai parar no lixo impacta em até 10% o aumento dos gases de efeito estufa


Desperdício de comida. Foto de GEORGES GOBET / AFP
Desperdício de comida no mundo provoca impactos significativos nas mudanças climáticas, alerta último relatório do IPCC. Foto de GEORGES GOBET / AFP

O desperdício de alimentos no mundo vem contribuindo para o aumento das mudanças climáticas. Cálculos feitos pelos cientistas que assinaram o capítulo 5 do Relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que trata do tema segurança alimentar, concluíram que, no período de 2010 a 2016, do volume total de alimentos produzido mundialmente para consumo humano, entre 25% a 30% não chegaram à mesa do consumidor. Um terço da alimentação ou se perdeu ou foi desperdiçada. A comida que foi parar no lixo impactou entre 8% a 10% as emissões de gases de efeito estufa. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicam que a perda de alimentos chega a custar quase US$ 1 bilhão anuais. 

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De Genebra, na Suíça, onde passou as duas últimas semanas, envolvida com a aprovação e o texto final do relatório do IPCC, Joana Portugal Pereira, uma das autoras do relatório e professora do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, falou, por telefone, sobre as diferentes formas de desperdício de comida no mundo. Ela faz parte ainda da unidade técnica do grupo de trabalho III (sobre desertificação), e é coautora do Sumário para Formuladores de Políticas e do Sumário Executivo.

Em países como o Brasil, que faz parte do bloco de países em desenvolvimento, a origem do problema está na cadeia produtiva. Do campo a mesa, os alimentos são desperdiçados porque foram acondicionados de forma incorreta ou porque se perderam na estrada

Joana Portugal Pereira
Professora da Coppe

“As causas do desperdício variam muito dependendo do grau de desenvolvimento dos países”, explicou. Nos países desenvolvidos, como Estados Unidos e Europa, o fenômeno ocorre com mais frequência nos supermercados. Vegetais feios ou de tamanhos considerados pouco convidativos ao consumo vão parar na lata de lixo e não nas gôndolas. Em países como o Brasil, que faz parte do bloco de países em desenvolvimento, a origem do problema está na cadeia produtiva. Do campo a mesa, os alimentos são desperdiçados porque foram acondicionados de forma incorreta ou porque se perderam na estrada, devido a problemas de infraestrutura do país, como estradas esburacadas e mal sinalizadas, o que acaba provocando acidentes no trajeto provocando perda significativa da carga.

Antes da aprovação do texto final do último relatório do IPCC, o documento chegou a receber 28 mil contribuições do mundo todo. Cada um dos comentários foi avaliado e respondido. “Não fazemos recomendações, mas apresentamos evidências científicas,  que ajudam os governantes a tomarem decisões políticas”, comentou Joana, acrescentando que, uma das sugestões apresentadas no relatório, foi a troca do uso intensivo de agrotóxicos por uma produção agroecológica. “Alguns agrotóxicos e pesticidas provocam um impacto no meio ambiente 298 vezes maior que o dióxido de carbono”. E complementou: “A adoção de práticas de manejo sustentáveis é uma solução essencial para proteção de ecossistemas e redução de emissões de gases de efeito estufa”.

O custo da inação é superior ao investimento que será necessário para promover a mitigação dos impactos da mudança climática

Joana Portugal
professora da Coppe

É a primeira que um relatório do IPCC trata da questão do uso do solo em meio as discussões sobre mudanças climáticas, além de debruçar-se, como sempre fez, sobre as emissões causadas pelos combustíveis fósseis. Atividades como agricultura, florestas e uso do solo responderam por 23% do total de emissões globais de gases de efeito estufa gerados entre 2007 e 2016.

Diz o relatório: “O nível de risco apresentado pelas alterações climáticas depende tanto do nível do aquecimento, como a população, o consumo, a produção, a tecnologia e os padrões de gestão da terra”. O relatório defende a diversificação de dietas alimentares, com base em maior consumo de vegetais, leguminosas e frutos, e redução de produtos processados e consumo moderado de carne. que tem um elevado potencial para reduzir nossos impactos nos ecossistemas. Mesmo não tocando na questão financeira, Joana ressalta que o “custo da inação é superior ao investimento que será necessário para promover a mitigação dos impactos da mudança climática”.

Ainda de acordo com o documento, uma ação coordenada para enfrentar as mudanças climáticas pode, simultaneamente, melhorar o solo, a segurança alimentar e a nutrição e ajudar a erradicar a fome. O relatório ressalta que as mudanças climáticas estão afetando todos os quatro pilares da segurança alimentar: disponibilidade (rendimento e produção), acesso (preços e capacidade de obter comida), utilização (nutrição e preparo dos alimentos) e estabilidade (rupturas na disponibilidade).


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