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Um dia de revelação em Nova York

No novo filme de Woody Allen, os segredos nem tão íntimos de uma apaixonante cidade


Timothee Chalamet, Elle Fanning e Woody Allen durante as gravações de "Um dia de chuva em Nova York". Foto Divulgação
Timothee Chalamet, Elle Fanning e Woody Allen durante as gravações de “Um dia de chuva em Nova York”. Foto Divulgação

Há muitas camadas de interpretação para “Um dia de chuva em Nova York”. A primeira, mais evidente, é a nostalgia com notas melancólicas de seu diretor, Woody Allen. Os temas da sua extensa filmografia se misturam com a cidade pela qual fez diversas declarações de amor. Desde “Annie Hall” (1977), passando por “Manhattan” (1979), e mesmo que Allen tenha depois se aventurado a filmar em Londres, Barcelona e Roma, Nova York e seus personagens são o cenário mais marcante dos filmes do diretor. Para além do saudosismo e da comédia romântica – que funciona como guia para o protagonista fazer o espectador percorrer um roteiro muito específico da cidade, incluindo hotéis e bares cujo charme é estarem à beira da decadência –, existe também o que vou chamar de conflito de gerações.

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Do par romântico de jovens universitários, ele nascido em Nova York, ela no Arizona, surgem dois aspectos que gostaria de considerar no filme. O primeiro, mais evidente, é o desprezo dela por Nova York. Não consegue decorar o nome dos lugares clássicos, não entende exatamente as razões para que o namorado considere a cidade tão especial, e muito menos tem qualquer referência de lugares que o mundo inteiro celebra, como o Central Park, por exemplo. Em vez de se encantar pela Nova York de Allen, ela vai se perdendo num deslumbramento com o mundo do cinema em relação ao qual o filme mostra profundo desprezo.

Cartaz do filme "Um dia de chuva em Nova York". Reprodução
Cartaz do filme “Um dia de chuva em Nova York”. Reprodução

O segundo aspecto do conflito de gerações aparece na dificuldade da relação entre o jovem nova-iorquino e sua mãe. Gatsby Welles pretende passar o fim de semana escondido na cidade para não precisar comparecer à festa que ela está promovendo. Tem pelos valores da família um profundo desprezo: elite endinheirada falando bobagens e exaltando um tipo de arte que não significa nada. É mais ou menos assim que ele define a própria família, reunida em torno de causas beneficentes e culturais que exaltam qualquer causa, desde que esteja em alta no mercado. É também assim que Gatsby divide a cidade: revisita aquilo que tem história e está sendo apagado em prol da última novidade. Nesse ponto, qualquer carioca apaixonado pelo Rio de Janeiro pode se identificar com a nostalgia de Allen, passeando pelos escombros de uma cidade sobre a qual o mercado não se cansa de reescrever sua história. Ou mesmo um leitor das Passagens, de Walter Benjamin, pode identificar as camadas históricas que insistem em não ser apagadas, como fez o filósofo em relação a Paris. Nessa crítica ao capital, que por um lado vilipendia a arte e,  por outro lado, destrói a cidade, aparece a figura materna de Gatsby.

[ contém SPOILER a partir daqui ]

A mãe de Gatsby nos é apresentada pelo seu filho, desde o início do filme, como representante de uma elite rica e ilustrada, porém superficial e pedante. Mas é em torno desta casta que a vida cultural da cidade se movimenta e, em certa medida, depende, já que são estes os patronos da arte e da inteligência nova-iorquina. Ele se rende a obrigação de ir à festa depois que sua presença na cidade é descoberta pela família. Como sua namorada ainda não está disponível, Gatsby paga uma garota de programa para acompanhá-lo. Sua mãe imediatamente identifica que a moça não pode ser uma universitária do interior e chama o filho para uma conversa que, a meu ver, é o ponto alto do filme, a camada a mais de interpretação que o trabalho de Allen oferece.

Num tom de revelação, a mãe diz a Gatsby que ela mesma começou a vida em Nova York como uma prostituta, pela qual o pai de Gatsby se apaixonou. Desde que casaram e ela teve os filhos, havia se dedicado não só a apagar completamente esse passado como a oferecer o melhor acesso a educação, cultura e tudo aquilo que o filho estava deliberadamente desprezando. Quando o segredo vem à tona, espanto de Gatsby contagia o espectador, que ao fim e ao cabo não esperava que de uma comédia romântica Woody Allen nos dissesse que a glamorosa, inteligente e rica Nova York é um lugar cuja origem precisa ser repetidamente recalcada para que, escondendo esse segredo, a elite mais uma vez se reafirme no poder. Uma cidade filha da puta.


Escrito por Carla Rodrigues

Professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ, mestre e doutora em Filosofia (PUC-Rio), e pesquisadora da teoria feminista. Coordena o laboratório "Escritas - filosofia, gênero e psicanálise" (UFRJ/CNPq). É autora, entre outros, de "Duas palavras para o feminino" (NAU Editora, 2013).

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