#RioéRua – Os ritmos da praça

Em torno de chafariz centenário e coreto moderno, São Salvador é ocupada pelas crianças, de dia, e, à noite, por artistas e seus públicos

Por Oscar Valporto | ODS 11
Publicada em 6 de outubro de 2019 - 21:40  -  Atualizada em 7 de outubro de 2019 - 00:49
Tempo de leitura: 8 min

Casais dançam ao som de forró na Praça São Salvador: música entre o coreto e o chafariz (Foto: Oscar Valporto)
Casais dançam ao som de forró na Praça São Salvador: música entre o coreto e o chafariz (Foto: Oscar Valporto)
Casais dançam ao som de forró na Praça São Salvador: música entre o coreto e o chafariz (Foto: Oscar Valporto)

A semana começa com avisos: terça tem forró na praça e, na quinta, vai ser dia de jazz no mesmo cenário. Vou conferir para ver se não há engano, mas as dicas estão certas: a mesma Praça São Salvador, que tem o samba do Batuque do Coreto no sábado e o chorinho do Arruma Meu Coreto no domingo, incorpora novos ritmos. Deve ser a única praça da Zona Sul que ainda tem coreto e, certamente, tem o único dos monumentos franceses importados no começo do século passado pelo prefeito Pereira Passos para o Rio de Janeiro, que não mudou de lugar desde que foi instalado, em 1903: a escultura La Font, do francês Louis Sauvageau, no alto do chafariz há mais de um século.

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A praça foi criada um pouco antes e nunca teve uma igreja apesar da aparente inspiração religiosa. Na segunda meta do século XIX, após comprar a maior parte das terras da chácara do diplomata José Alexandre Carneiro Leão, entre Laranjeiras e o Catete, o Banco Alemão loteou a área e, em 1875, cedeu espaço para a abertura da Rua e da Praça São Salvador, homenagens a Carneiro Leão, barão e depois Visconde de São Salvador.

Chafariz com a escultura da figura feminina no alto, obra do francês Louis Sauvageau: na São Salvador desde 1903 (Foto: Oscar Valporto)
Chafariz com a escultura da figura feminina no alto, obra do francês Louis Sauvageau: na São Salvador desde 1903 (Foto: Oscar Valporto)

A primeira grande reforma da praça ocorreu em 1903, durante as reformas de Pereira Passos, quando a São Salvador ganhou jardim, chafariz e o monumento de Louis Sauvageau – a figura feminina no alto. Outras peças do chafariz não têm assinatura, mas também foram feitas na França, na Fundição Val D’Osne, famosas na Europa e também no Brasil, a partir da primeira encomenda do Imperador Pedro II em 1878: o chafariz de 10 metros de altura que está hoje na Praça Mahatma Ghandi. Depois, quase 200 obras em ferro fundido da Val D’Osne foram instaladas no Rio. O chafariz da São Salvador foi tombado pelo Inepac em 2000.

Fim de tarde na Praça São Salvador: durante o dia, as crianças são maioria (Foto: Oscar Valporto)
Fim de tarde na Praça São Salvador: durante o dia, as crianças são maioria (Foto: Oscar Valporto)

Os coretos – populares na França desde a revolução de 1789 – também chegaram ao Rio de Janeiro na época de Pereira Passos: o primeiro foi inaugurado em junho de 1903, na Praça XV. O coreto da Praça São Salvador, entretanto, é muito mais novo. Os coretos multiplicaram-se pela cidade até 1930: em São Cristóvão, na Glória, no Méier, na Tijuca, na Praça da Bandeira, na Ilha do Governador. Mas, na São Salvador, o coreto só foi construído em 1995, quando a praça passou por uma reforma dentro do projeto Rio Cidade do Catete, quando também ganhou os primeiros brinquedos infantis.

A roda de choro Arruma Meu Coreto, comandada pela flautista Ana Caetano: atração dominical na praça (Foto: Oscar Valporto)
A roda de choro Arruma Meu Coreto, comandada pela flautista Ana Caetano: atração dominical na praça (Foto: Oscar Valporto)

Como na Paris da Revolução Francesa, onde esses espaços eram usados tanto para manifestações artísticas quanto políticas, o modesto coreto da São Salvador – uma construção de madeira com telhado de folhas – passou a ser um local de encontro. Primeiro, foi o bloco Bagunça Meu Coreto, que passou a fazer ensaios e desfiles a partir do Carnaval de 2005. Dois anos depois, surgiu a dominical roda de chorinho – Arruma Meu Coreto – em torno da qual foi crescendo uma feira de comidinhas, bebidinhas, artesanato. A roda de choro já ganhou o status de patrimônio cultural imaterial do Estado do Rio.

Encontro Semanal de Malabares e Circo: atração de todas as segundas-feiras na Praça São Salvador (Foto: Coletivo Bravos/Divulgação)
Encontro Semanal de Malabares e Circo: atração de todas as segundas-feiras na Praça São Salvador (Foto: Coletivo Bravos/Divulgação)

As manifestações são mais raras, apesar do lugar ter fama de reduto esquerdista pela frequência de artistas e jornalistas. De manhã cedo e no fim da tarde, as crianças são maioria e garantem um clima de pracinha de bairro. Conforme anoitece, jovens e adultos vão tomando conta, ocupando a praça noite adentro. Depois do samba de sábado e do chorinho de domingo, tem o Encontro Semanal de Malabares e Circo todas as segundas-feiras.  O Salvador Jazz é, na verdade, mensal: desde junho lota a praça. O próximo deve ser em novembro.  O Forrozin São Salvador estreou em setembro e, agora, todas as terças os casais dançam em torno do coreto.

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#RioéRua

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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