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#RioéRua: Milagre à carioca

Ninguém solta o chope de ninguém: o Bar Luiz fica e ajuda a devolver um pouco de esperança à cidade


Casa cheia no Bar Luiz de segunda a sábado: faturamento em uma semana três veze maior do que um mês inteiro (Foto: Oscar Valporto)
Casa cheia no Bar Luiz de segunda a sábado: faturamento em uma semana três vezes maior do que um mês inteiro (Foto: Oscar Valporto)

A nossa cidade anda doente: elegeu prefeito um carioca que não gosta do Rio; ajudou a eleger governador um paulista que vibra com a morte; e ajudou a botar na presidência outro paulista que fez toda sua carreia aqui, pregando o ódio, desde os tempos em que posava de terrorista e anunciava planos de botar bombas em quartéis para reivindicar reajuste nos soldos. Mas o pior sintoma da doença é a cidade andar à mercê dos barulhentos seguidores desses três – quase todos homens, quase todos brancos, quase todos heteros. É gente intolerante e frustrada, que não gosta de liberdade, de alegria e de diversidade. É gente que espalha desânimo e desesperança, que ameaçam a alma e o espírito dessa cidade.

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Fila na porta do Bar Luiz, na Rua da Carioca: cena repetida por uma semana até o anúncio de que o restaurante não vai mais fechar (Foto: Oscar Valporto)
Fila na porta do Bar Luiz, na Rua da Carioca: cena repetida por uma semana até o anúncio de que o restaurante não vai mais fechar (Foto: Oscar Valporto)

Por isso, ganha importância, significado e simbolismo o que aconteceu, em uma semana, na Rua da Carioca – bom repetir: na Rua da Carioca. No sábado, 7 de setembro, enquanto a melhor parte do Rio enfrentava a censura do prefeito no Bienal do Livro, a Agenda Bafafá – um site cariocamente dedicado às coisas da cidade – anunciava que o Bar Luiz, 132 anos de história, ia fechar as portas no sábado seguinte. No domingo, a notícia já tinha se espalhado pela cidade e havia parado na coluna do Ancelmo. Na segunda, tinha fila na porta: cariocas de nascimento e de coração com saudade da salada de batata, do kassler, das salsichas, do rosbife, do chope, das fotos do século passado.

A proprietária Rosana Santos, o interventor Otto, a pioneira Eunice e Astor: mutirão pela permanência do Bar Luiz (Foto: Oscar Valporto)
A proprietária Rosana Santos, o interventor Otto, a pioneira Eunice e Astor: mutirão pela permanência do Bar Luiz (Foto: Oscar Valporto)

Dono do restaurante Otto, na Tijuca, o gaúcho Ottmar Grunewald chegou cedo e conseguiu lugar para almoçar. A experiência como cliente não foi feliz: o Bar Luiz não estava pronto para o sucesso. Pratos do cardápio acabaram rapidamente, foi difícil escolher; os garços não davam conta da clientela. E ainda estavam atordoados com a notícia do fechamento. Otto, como todos o conhecem, voltou para a Tijuca como uma ideia: não podia deixar o Bar Luiz fechar dessa forma. Chamou seu ex-gerente e agora sócio no Otto Galetos, Astor Back, e eles voltaram no fim da tarde daquela mesma segunda-feira com uma proposta para a proprietária do restaurante da Rua da Carioca, Rosana Santos. “Fizemos uma intervenção do bem”, contou Otto. Naquela terça, o Bar Luiz ganhou sua primeira garçonete em 132 anos: Eunice Costa, maitre do Otto, voltou às mesas no mutirão.

Café do Bom, Cachaça da Boa, instalado em sobrado centenário: Rua da Carioca é mais do que o Bar Luiz (Foto: Oscar Valporto)
Café do Bom, Cachaça da Boa, instalado em sobrado centenário: Rua da Carioca é mais do que o Bar Luiz (Foto: Oscar Valporto)

Na terça, 10 de setembro, Otto e Astor desembarcaram no Bar Luiz com 10 funcionários das casas tijucanas. A fila na porta era ainda maior. Rosana Santos começa a receber telefonemas de interessados em comprar e manter o restaurante. Na quarta-feira, tentei almoçar no Bar Luiz novamente – já havia feito isso na segunda. Fui, de novo, derrotado pela fila que permanecia longa apesar de ser mais de 14h30. Pensei em almoçar no Bistrô Leffiê que fica no antigo prédio do Cine Ideal, de 1919; mas preferi optar pelo Café do Bom, Cachaça da Boa, instalado em sobrado de 1910 – partilhado com sebo de livros, onde encontrei os botecólogos Paulo Thiago e Zé Octávio Sebadelhe, que me acompanharam, depois, ao Bar Luiz onde entrevistei Rosana, àquela altura já balançada pela comoção causada pela notícia do fechamento.

Falo do Leffiê e do Café do Bom porque é preciso lembrar que, se há quase 30 lojas fechadas na Rua da Carioca, há outros 40 estabelecimentos abertos e resistindo – inclusive o também centenário Cine Íris. No começo da noite de quinta-feira, 12 de setembro, quando o Bar Luiz terminava mais um dia de filas na porta e mesas disputadas, a vizinha Casa do Choro – mistura de museu e casa de espetáculos – recebia o sofisticado Naomi Kumamoto Trio, com a flautista Naomi comandando um grupo que mistura chorinho com valsa e samba. Mais adiante, a mais nova casa da Carioca, a Garagem, estava lotada com o Samba da Irene, roda comanda pela cantora Lienne Lyra. O Garagem é isso mesmo: uma garagem com música e cerveja que só não se espalha mais pela rua porque a Carioca não permite.

O Bar Sinfonia também cheio com as filas no Bar Luiz e o samba na rua: esperança de novos tempos (Foto: Oscar Valporto)
O Bar Sinfonia também cheio com as filas no Bar Luiz e o samba na rua: esperança de novos tempos (Foto: Oscar Valporto)

A sexta-feira, 13, não assustou: a romaria ao Bar Luiz prosseguiu enquanto, pelas redes sociais, espalhava-se a discussão sobre as razões sobre o fechamento e, principalmente, as estratégias para revitalizar a Carioca. Descubro que minha tese não é só é minha e tem muitos adeptos: devemos fechar a rua aos veículos, devolvê-la aos pedestres e aos cariocas. Hoje, passam por ali mais de 20 linhas de ônibus. Lembro que os planos de implantação do VLT incluíam o remanejamento da linhas de ônibus e a retirada da maioria delas do Centro do Rio. Mas, hoje, o próprio VLT, símbolo de um futuro mais civilizado para a zona central da cidade, está ameaçado.

Chope e samba na rua com uma só faixa para o trânsito: a Rua da Carioca para os cariocas (Foto: Oscar Valporto)
Chope e samba na rua com uma só faixa para o trânsito: a Rua da Carioca para os cariocas (Foto: Oscar Valporto)

Outro sábado chegou e, com ele, a boa notícia: a saideira do Bar Luiz está adiada. O restaurante não vai mais fechar. A roda de samba no meio da rua, que era para ser de despedida, virou de comemoração. Vendeu-se chope e croquete na rua. As filas para o Bar Luiz continuavam. Mas até o Bar Sinfonia – pé sujo que fica em frente –  encheu. Teve discurso emocionado: de Emerson Coelho, o gerente há 25 anos, rouco e insone desde a notícia do fechamento; de Otto, de Rosana. Nesta semana, o restaurante teve três vezes o faturamento de um mês. “Foi como se a cidade tivesse abraçado o Bar Luiz” – me disse, no sábado, a proprietária, viúva de Bruno, neto de Adolph, que, por sua vez, era afilhado de Jacob, o fundador em 1887.

Nem mesmo ela sabe o que vai acontecer agora – a #BarLuizFica venceu. Na Rua da Carioca, os cariocas de nascimento e de coração promoveram um pequeno milagre e salvaram um pedaço da alma da cidade. Será preciso muito mais para salvar o espírito da cidade, suas ruas e seus bares – mas esta semana de setembro, a semana da Bienal e do Bar Luiz, encheu o Rio de esperança.

#RioéRua


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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