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Compras locais entram na moda

Alemães buscam alimentos frescos, qualidade e redução das emissões de CO2


Pesquisa do Ministério da Agricultura mostra que 76% dos alemães preferem os produtos produzidos em sua região. Foto de Patrick Pleul/DPA
Pesquisa do Ministério da Agricultura mostra que 76% dos alemães preferem os produtos produzidos em sua região. Foto de Patrick Pleul/DPA

Eles vão ao supermercado munidos de bolsas de pano ecológicas, uma vez que as tradicionais sacolinhas plásticas são raras, politicamente incorretas e ainda custam caro, cerca de 0,15 a 0,20 centavos de euro cada unidade. No bolso, de preferência, dinheiro vivo ou cartão de débito, já que o crédito ainda é pouquíssimo utilizado na economia que, hoje, é o motor da União Europeia. Lista de compras na mão e olho aberto para as promoções. Mas o ritual não basta. Além das pechinchas, os alemães têm ido às compras em busca de algo mais que preços em conta – produtos regionais. O objetivo, além de garantir alimentos mais frescos, de qualidade reconhecida, é reduzir a emissão de gases, encurtando as distâncias de transporte terrestre, marítimo ou aéreo dos produtos até seu destino final. A ordem é economizar combustível e energia, pois a preocupação com a poluição ambiental chegou à mesa na Alemanha. E ganhou ares de modismo.

A pesquisa indica que os consumidores querem, sobretudo, ovos, carne, frutas, legumes e derivados do leite de pequenos produtores locais – mesmo que isso signifique pagar alguns euros a mais.

Nas prateleiras de supermercados, há etiquetas para designar produtos regionais ou produzidos a partir de matérias-primas regionais. Você sabe de onde vem o leite do seu queijo? Deveria, acreditam muitos. De acordo com a última Pesquisa de Alimentação, feita anualmente pelo Ministério da Agricultura, neste ano, 76% dos alemães declararam dar grande valor a alimentos produzidos em sua região e 61% declararam prestar atenção às informações do produto. Ou seja, a preferência é por batatas da região, leite das redondezas e a amada salsicha, de fazendas dos arredores. A pesquisa indica que os consumidores querem, sobretudo, ovos, carne, frutas, legumes e derivados do leite de pequenos produtores locais – mesmo que isso signifique pagar alguns euros a mais.

Em mercados de estados como a Renânia do Norte-Westfália a preocupação com o chamado “regional Einkaufen” (compra regional) é tamanha que os produtos estaduais ganharam um selo verde, vermelho e branco com os dizeres “o bom da região”. Entre os consumidores mais radicais, defende-se, ainda as compras sazonais para impedir, por exemplo, que durante o rigoroso inverno alemão determinadas frutas sejam trazidas de países longínquos, numa importação que demanda milhares de litros de combustível em transporte internacional. E enormes quantidades de gás carbônico na atmosfera.

O modismo, porém, gera controvérsias. Os defensores das compras sazonais citam um estudo feito em 2012 pelo engenheiro agrônomo Michael Blanker, da Universidade de Bonn, usando maçãs – uma das frutas preferidas dos alemães – como exemplo. O resultado mostra que a poluição ambiental é significativamente reduzida quando as distâncias entre produtores e consumidores têm um raio de, no máximo, 200 quilômetros de distância. E pode-se, ainda, economizar energia. O transporte marítimo de um contêiner de maçã produzida na Nova Zelândia e importado à Alemanha, por exemplo, gera emissões 22% maiores por cada quilo da fruta – ou seja, quase um quarto a mais do que se as mesmas maçãs tivessem sido produzidas em solo alemão e estocadas durante seis meses.

Etiqueta indica os produtos regionais ou produzidos a partir de matérias-primas regionais. Foto de Renata Malkes
Etiqueta indica os produtos regionais ou produzidos a partir de matérias-primas regionais. Foto de Renata Malkes

A discussão não parece ter fim. Outra pesquisa, da Universidade de Giessen, indica que é preciso levar em conta os gastos de energia elétrica no processo de estocagem e, portanto, tem conclusões distintas – nem sempre produtos regionais são mais favoráveis ao meio ambiente. As maçãs produzidas na Alemanha, por exemplo, têm de ser armazenadas em câmaras frias, com baixo nível de oxigênio, durante todo o ano para conservar seu frescor. E entra aí o fator gasto de energia, pois para conservar um quilo de maçãs regionais alemãs, dependendo da estação do ano e do tamanho da empresa, exigiria de 40 a 200 gramas de CO2. Se as frutas fossem coletadas e armazenadas até o início do próximo verão, consumiriam uma quantidade similar de energia como a gasta em 28 dias de transporte de maçãs frescas, importadas do Hemisfério Sul, alega o autor do estudo, Elmar Schlich.

Restam dúvidas, sobram ofertas. Após anos de obsessão pelas compras BIO, as três letrinhas que designam os produtos orgânicos na Alemanha, muitos consumidores preferem ignorar as controvérsias acadêmicas. É melhor, de fato, fazer um bom negócio e imaginar uma contribuição ao meio ambiente quando se opta por produtos regionais. E os fabricantes, claro, aproveitam para caprichar na publicidade e atrair novos consumidores. Afinal, quem resiste à embalagem de um queijo produzido com leite da fazenda ao lado? Ou em maçãs ecológicas? E aspargos colhidos quase no quintal da vovó? Se não ganha o meio ambiente, há, certamente, quem já esteja capitalizando no mercado.


Escrito por Renata Malkes

Carioca nada da gema, na Alemanha desde 2016. Mestre em Estudos de Paz e Guerra pela Universidade de Magdeburg. Jornalista, inconformista e flamenguista. Mochileira e cervejeira. Ex-correspondente do jornal O Globo no Oriente Médio e da alemã Deutsche Welle no Brasil. Contadora de 'causos', mantém as antenas ligadas em ciência, direitos humanos e política internacional.

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