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US$ 1 bilhão para bioeconomia da Amazônia

Organizações lançam fundo digital privado Amigos da Amazônia para financiar projetos de desenvolvimento sustentável na região


 

Plantação de açaí, típica da Amazônia, apoiada pela Embrapa: exemplo de boa convivência com a flores (Foto: José Edmar de Carvalho/Embrapa)
Plantação de açaí, típica da Amazônia, apoiada pela Embrapa: exemplo de boa convivência com a floresta (Foto: José Edmar de Carvalho/Embrapa)

O Brasil tem experiências valiosas na área da bioeconomia que precisam ser mapeadas e turbinadas para não dar espaço a outras atividades que contribuam com o desmatamento da Amazônia – esta foi a constatação unânime do debate “Bioeconomia e bioindustrialização: um modelo de desenvolvimento que alia floresta em pé e tecnologia”,  durante a Conferência Ethos 360º, realizada no Pavilhão da Bienal do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Durante dois dias, a conferência discutiu, através de 60 painéis em seis palcos, questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável em seus aspectos sociais, econômicos e ambientais.

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No debate sobre bioeconomia, Virgílio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável, ressaltou que o Brasil não está diante de “uma terra arrasada” na questão. “Estamos aqui revisitando um velho tema, que tem pelo menos 16 anos: o de que a floresta tem mais valor em pé do que derrubada. Há muitas experiências positivas na área da bioeconomia brasileira, em projetos que colocam as pessoas no centro com oportunidades de educação e de apoio ao empreendedorismo”, frisou.

Viana lembrou que nesta quinta, 5 de setembro, comemora-se o Dia da Amazônia.  “Vamos lançar um fundo privado de U$ 1 bilhão voltado para a filantropia relacionada com a bioeconomia da Amazônia”, disse.  O fundo digital Amigos da Amazônia está sendo lançado com o objetivo é receber doações e captar recursos para implementar e expandir ações de desenvolvimento sustentável, conservação da floresta, e a melhoria de qualidade de vida de populações tradicionais. Pessoas ou instituições em qualquer lugar do mundo podem doar.

A Fundação Amazonas Sustentável é um das organizações que vai gerir o fundo ao lado da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) e a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (SDSN Amazônia): o objetivo é multiplicar a experiência da FAS que desenvolve projetos envolvendo 40 mil pessoas em 16 unidades de conservação no Estado do Amazonas. Nas áreas dos projetos, a renda da população aumentou 244% e o desmatamento caiu 63%.  Desenvolvida com a tecnologia da Welight, um instituto de inovação socioambiental, em parceria com a IBM, a plataforma de doações busca viabilizar – em larga escala e a longo prazo – um programa de ações e iniciativas com base em projetos bem sucedidos já aplicados e que tiveram resultados positivos na redução do desmatamento e na erradicação da pobreza na região amazônica.

Para Virgilio Viana, a criação do novo fundo tornou-se urgente com a suspensão dos repasses de verba para o Fundo Amazônia pelos governos da Alemanha e da Noruega, que vai prejudicar populações ribeirinhas e indígenas. Ao comentar o escândalo internacional das queimadas da região, Viana, que vive na Amazônia, disse que o resto do Brasil deve se engajar mais nas soluções dos problemas da região: “Precisamos ter mais Brasil”, afirmou o superintendente da FAS.

Os cientistas concluíram que havia a necessidade de um ecossistema de renovação da quarta revolução industrial específico para a Amazônia e capaz de aplicar inovações em tecnologias digitais e biológicas aos recursos naturais renováveis da Amazônia, ativos biomédicos e serviços ambientai

Ismael Nobre
Biólogo

Ele lembrou, no entanto, que o país vive uma grave crise ecológica e política, com o governo federal rejeitando dados científicos sobre as queimadas na floresta divulgados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).  O Amazonas, segundo ele, está elaborando um plano estadual de bioeconomia, feito em parceria com a sociedade civil e órgãos de pesquisa. Viana aponta que há quatro vertentes da bioeconomia amazônica: corantes, fármacos, cosméticos e nutraceutricos (alimentos funcionais). 

O biólogo Ismael Nobre defendeu o uso das novas tecnologias para driblar os desafios ao desenvolvimento na Amazônia, como isolamento, falta de infraestrutura  e logística difícil e também para agregar valor aos produtos.  Ele destacou a importância do Projeto Amazônia 4.0 da A3W, de desenvolvimento sustentável, do qual faz parte, e que está sendo desenvolvido há dois anos e meio. “Eu chamo de Eldorado Verde o sonho da valorização econômica da floresta amazônica, prometida há tanto tempo e que ainda não aconteceu”, resumiu.   

O projeto A3W, explicou ele, foi deslanchado a partir de um artigo escrito por cientistas climáticos que procuravam entender por que iniciativas tentadas antes não mudaram a realidade econômica da Amazônia, deixando espaço para outras atividades tomarem conta da floresta.

 “Eles concluíram que havia a necessidade de um ecossistema de renovação da quarta revolução industrial específico para a Amazônia e capaz de aplicar inovações em tecnologias digitais e biológicas aos recursos naturais renováveis da Amazônia, ativos biomédicos e serviços ambientais”, explicou. Foi daí que surgiu o conceito de 4ª Revolução Industrial. No ano passado, foram publicadas as bases dessa nova economia baseada em alta tecnologia. 

Após tentativas falidas de uso da tecnologia em projetos da Amazônia desde o início do século 20 (como a estrada Madeira-Mamoré e a Fordlândia), houve a criação da Zona Franca de Manaus, mas essa iniciativa não usa a biodiversidade. “A novidade é a quarta revolução industrial que traz elementos como a indústria 4.0, drones, wi-fi, fibras óticas e a internet das coisas”, concluiu. 

Luciana Villa Nova, gerente de sustentabilidade da Natura, lembrou que o Brasil criou o termo sociobiodiversidade e que a Europa redefiniu seus próximos 20 anos de modelo econômico baseados em bioeconomia.  “A gente não pode ser visto no mundo como quem está desmatando, queimando. Precisamos unir esforços para conversão da sociedade para um novo modelo”, observou.

Há 19 anos a empresa de cosméticos brasileira passou a fazer investimentos na região amazônica, incorporando suas matérias-primas em seus produtos. Villa Nova destacou a importância da Medida Provisória da Biodiversidade, de 2002, que criou a ideia da repartição dos benefícios com as comunidades locais.  Esses recursos destinados às comunidades geram projetos de preservação da floresta. “Esta lei é um pagamento de serviço ambiental. Foi ali que a gente começou a construir esse modelo de uma bioeconomia baseada no discurso social. É um modelo muito único do Brasil”, disse.

A empresa estimulou em 31 comunidades a construção de microusinas que desempenham o papel de centrais de produção. A Natura leva tecnologia para as comunidades, e a pessoa que era um extrativista, um agricultor, é treinada para operar uma fábrica. “Envolvemos hoje 4.500 famílias, são quase 20 mil pessoas envolvidas no sistema produtivo como um todo”, informou. 

Extração de borracha em Riozinho do Anfrízio. Foto Rogério Assis/ISA
Extração de borracha em Riozinho do Anfrízio: especialistas apontam que floresta em pé tem mais valor do que derrubada (Foto Rogério Assis/ISA)

Biodiversidade e empreendedorismo

Helen Camargo de Almeida, analista em sustentabilidade e gestão ambiental do Centro Sebrae de Sustentabilidade, ressaltou a necessidade de envolver de forma sistêmica os pequenos negócios e prepará-los para atuar nas atividades conectadas com a biodiversidade. Segundo ela, os pequenos negócios representam hoje 98% dos CNPJs do Brasil e são responsáveis por 50% do empregos formais do país. “Os pequenos empreendedores estão em todos os cantos do país e nos lugares de acesso mais difícil da Amazônia, são profundo conhecedores da realidade local”, disse. 

Almeida ressaltou a importância de apoiar os pequenos negócios que já tem uma visão conectada com a sustentabilidade. “Eles precisam de tecnologia e investimento, para se fortalecer e acessar mercados nacionais e internacionais”, afirmou. Outro desafio, segundo ela, é o de promover a reflexão e despertar os empreendedores que operam na lógica da destruição da floresta, do lucro pelo lucro. “Os pequenos negócios são aliados das grandes empresas. Precisamos nos unir com vários atores para criar este novo modelo que tenha a biodiversidade como pauta principal”, constatou Almeida. 

João Matos, diretor-geral da Aliança para a Bioeconomia da Amazônia, disse que estamos no meio de uma jornada da construção da bioeconomia na Amazônia e que ela ocorrerá gradualmente, com o envolvimento de muitos atores.   Ele ressaltou que é preciso olhar para trás, para o que já foi feito de positivo nessa trajetória. “Não podemos avançar sem olhar para o que já foi construído”, disse.  


Escrito por Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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