Com mais mulheres e crianças, população em situação de rua aumenta no Rio de Janeiro após covid-19

Censo apontou que mais pessoas passaram a viver nas ruas após a pandemia de covid-19 no Rio de Janeiro (Foto Fabio Teixeira/Anadolu/AFP)

Censo de outubro de 2020 contabilizou 7.272 pessoas sem moradia, sendo que 752 perderam as casas durante a pandemia; entidades dizem que números são muito maiores

Por Karla Marcolino | ODS 10 • Publicada em 17 de fevereiro de 2021 - 08:58 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2021 - 08:29

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Censo apontou que mais pessoas passaram a viver nas ruas após a pandemia de covid-19 no Rio de Janeiro (Foto Fabio Teixeira/Anadolu/AFP)

Valeska Santana, de 26 anos, mora num imóvel alugado em Duque de Caxias com o marido, desempregado, e três filhos. Nas últimas semanas tem trazido o menor, de 1 ano e seis meses, que ainda amamenta, para a zona sul do Rio de Janeiro, onde vende balas em uma calçada da rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. “Tem gente que me recrimina (por trazê-lo), mas ele e os irmãos precisam comer. Eu até gostaria de um trabalho em casa de família, mas por enquanto, o jeito é esse mesmo”, diz.

A menos de uma quadra de distância, Arielle Azevedo dos Santos, de 18 anos, tenta o mesmo expediente acompanhada de duas crianças, um irmão e um primo. “Normalmente é minha mãe quem vem, mas ela está no hospital. Tenho uma irmã com anemia falciforme que volta e meia é internada. Essa é a vida dela”, conta a jovem, com a mesma naturalidade com que mostra, no celular, fotos da família na ocupação onde vivem, na rua General Caldwell, na área da Central do Brasil, postadas em uma rede social. 

Mulheres com crianças pequenas tentando conseguir dinheiro são o último agravante causado pela pandemia de covid-19 à complexa situação da população em situação de rua no Rio de Janeiro. Se, com o auxílio emergencial, muitas conseguiram garantir a alimentação, sem ajuda, não têm mais como ficar em casa. Estão principalmente no Flamengo e no Largo do Machado, atestam os voluntários da ONG Projeto Ruas, que atua também em Botafogo, Copacabana, no Leblon e na Tijuca.

A Secretaria Municipal de Assistência Social também detectou a tendência. Em janeiro, as equipes de abordagem encontraram sete mulheres com crianças em diversos bairros, do Complexo do Alemão à Avenida Niemeyer, passando pelo Méier, Copacabana e Centro. Tradicionalmente, mulheres são minoria nas ruas. O último Censo, realizado entre os dias 26 e 29 de outubro de 2020 registrou 30 mulheres com crianças e 112 crianças nas ruas do Rio. A mesma pesquisa apontou 7.272 pessoas vivendo em situação de rua, a maioria homens, negros, com idades entre 18 e 49 anos. As maiores concentrações acontecem no Centro e em Copacabana, este último bairro líder nas centenas de pedidos de remoção que a prefeitura recebe diariamente. De acordo com o Censo 2020, 752 pessoas foram empurradas para as ruas pela pandemia. Pelo menos. 

 ONGs reformularam ações para atender mais vulneráveis

Participantes do Fórum Permanente sobre População em Situação de Rua do Rio de Janeiro, que inclui membros do legislativo, da Defensoria Pública, ativistas e voluntários em projetos sociais e se reúne mensalmente, dizem que o número é subestimado. Citam uma estatística de 2016, que apontava para quase 15 mil pessoas em vulnerabilidade. Após um ano em que tiveram que se adaptar e reformular as ações para atender à fome e à sede prementes, acreditam que o contingente, hoje, seja ainda maior.

Projeto Ruas
Wania Rosa em atividade nas ruas durante a pandemia (Divulgação/Ruas)

 

A ativista Vânia Rosa, ex-moradora de rua, está na linha de frente da distribuição de ao menos 300 refeições, diariamente, em pontos como as ruas dos Inválidos e Nilo Peçanha, e observa: “As filas aumentam a cada dia”. Vânia percebe que, devido às dificuldades econômicas, nem todos os que vão em busca de alimentos de fato vivem nas ruas. “Alguns têm casa, mas perderam a fonte de renda e precisam dessa ajuda”.

Gostaria de poder usar marmitas biodegradáveis, mas é muito mais caro

Yoga na Rua

Larissa Montel, do Projeto Ruas, conta que houve a fase em que entregadores de aplicativo engrossaram as filas. “Foi em maio, logo que os projetos de distribuição de sopa sumiram”. Inspirado no canadense Housing First, que busca viabilizar habitação com ajuda para as despesas iniciais, o Ruas mudou o foco durante a pandemia. Um movimento parecido com o do Projeto Yoga de Rua, que oferecia aulas e alimentação vegetariana. Se no primeiro as refeições comunitárias nunca foram obrigatórias e serviam à integração, no segundo havia regularidade, com a mesma intenção agregadora e educativa. Ambos usavam utensílios laváveis, visando sustentabilidade e economia. Mas tiveram que aderir aos descartáveis. “Não tem como reutilizar copos agora”, lamenta Larissa. “Gostaria de poder usar marmitas biodegradáveis, mas é muito mais caro”, diz Michelle Marinho, do Comida que Cura, braço do Yoga de Rua criado a partir da necessidade de atender os alunos. As aulas de yoga chegaram a ser canceladas, mas a quantidade de refeições distribuída aumentou.  

Mariana Machado da Silva, fundadora do Instituto Lar, acha que é confortável reduzir os números de um problema que ninguém quer ver. Ela aguarda ansiosamente que a organização, com sede na rua do Senado, volte a funcionar normalmente. Focado em capacitação, o instituto oferece cursos, orientação jurídica, auxílio para escrever currículos e uma série de eventos de socialização, mas precisou fechar as portas no ano passado, porque funciona em ambiente pequeno e fechado. No momento, trabalha com distribuição de quentinhas, máscaras e produtos de higiene na rua e abre para banho, com uso de senhas, apenas aos sábados. 

Weverton Bruno Ezequiel da Cunha, 28, tem trabalho, mas não tem casa. Subempregado como assistente de serviços gerais em um restaurante, lava louça e aproveita para tomar banho no local três vezes por semana. “Meu patrão não sabe que vivo na rua”, diz. Bruno, como é chamado para distinguir do amigo, outro Weverton – “qual a probabilidade?”, ri – gostaria de ir para um abrigo da prefeitura, mas a triagem passa obrigatoriamente pela Central de Recepção de Adultos e Famílias (CRAF) Tom Jobim, na Ilha do Governador, o que, segundo ele, inviabiliza a chegada ao serviço: “Não posso pagar a passagem”. 

É uma contradição desconsiderar os moradores de ocupações como sem teto, uma vez que o próprio Estado os retira desses locais sob liminar e à força. Ou reconhecem a posse, ou contam como morador de rua

Frei Marx Rodrigues dos Reis
Pastoral do Povo de Rua

A situação de seu xará Weverton Criston Vieira, 26, não é muito melhor. Há pouco tempo ele conseguiu um quarto em uma ocupação próxima ao Campo de Santana. Mas passa o dia, com Bruno e outras dezenas de pessoas que vivem, cozinham e tomam banho nos lagos no entorno do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Aterro do Flamengo. “Lá onde eu moro é muito quente, não dá pra ficar. Além do mais, a gente tem que correr atrás de algum trocado”, diz, contando que costuma catar latas para vender. Weverton Vieira, assim como Arielle e sua família, não entram na estatística como pessoas em situação de rua.  

“É uma contradição desconsiderar os moradores de ocupações como sem teto, uma vez que o próprio Estado os retira desses locais sob liminar e à força. Ou reconhecem a posse, ou contam como morador de rua”, argumenta o frei Marx Rodrigues dos Reis, da Pastoral do Povo de Rua. O movimento ligado à igreja católica tem distribuído mais de 400 quentinhas por dia em uma tenda emergencial montada em junho no Largo da Carioca. Vânia Rosa acrescenta que a situação das ocupações é precária, muitas vezes com perigo de curto circuitos e desabamento. “Moradores de ocupações estão em situação de risco”, diz.

 

Como foi realizado o censo

O Censo, elaborado em conjunto pela Secretaria Municial de Assistência Social, a Secretaria de Saúde (SMS), o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP) e a empresa privada especializada em pesquisa Qualitest adotou três tipos de questionário principais, direcionados, respectivamente, aos moradores de rua, de unidades de atendimento (abrigos, CAPS e comunidades terapêuticas) e a pessoas abordadas em cenas de uso de drogas. Larissa Montel critica a falta de transparência sobre quais unidades foram visitadas. A SMAS explica que os resultados ainda não foram divulgados oficialmente, o que deve acontecer nas próximas semanas. 

Segundo a SMAS, pela primeira vez foi usada uma metodologia científica para obter dados qualificados. Nota enviada pela assessoria de imprensa informa que outra contagem, realizada em 2018, totalizou 4.628 pessoas nas ruas do Rio. E que “é errada a informação de que em 2016 a Cidade do Rio de Janeiro tinha 14 mil pessoas em situação de rua. Esse número se refere à média mensal de atendimentos de abordagem social realizados pela secretaria naquele ano. Como atendimentos, entende-se acolhimento em abrigos ou encaminhamentos de casos para outras instâncias. Isso significa que a mesma pessoa, ao longo do ano, pode ser atendida várias vezes pelo sistema de assistência social do Município”. De acordo com a prefeitura haveria, portanto, nas estatísticas mais pessimistas, sobreposição de dados. 

Enquanto se familiariza e procura cruzar as informações colhidas na gestão anterior, a atual administração tem anunciado ações pontuais. Negocia uma parceria com a Fecomércio para reformar abrigos em más condições de conservação. E lançou um programa de capacitação para pessoas LGBT+ abrigadas no Centro Provisório de Abrigamento CPA 4, no Centro. Cobrada nas redes sociais, a subprefeita da Zona Sul, Ana Ribeiro, diz que dá apoio às ações da SMAS, acompanhando as equipes de abordagem, que acontecem durante o dia e à noite em Copacabana, Leme, Ipanema, Botafogo, Glória e Catete, nos prontos críticos, desde o dia 4 de janeiro. 

A rede municipal conta hoje com 65 unidades de reinserção social (URS) para receber pessoas em situação de rua. Dessas, quatro atendem famílias, mães com crianças e meninas até 17 anos. Há também o Hotel Santa Comba V, no Centro da Cidade, com 50 vagas para pessoas LGBTQ+ das quais 40 estão ocupadas e 10 estão separadas para casos de isolamento social de pacientes com covid-19. A CRAF Tom Jobim é a unidade que recebe os que aceitam acolhimento, faz seu estudo social e encaminha para os locais de atendimento. Na Taquara, em Jacarepaguá, a URS Maria Tereza Vieira abriga famílias e tem 75 vagas. Em Campo Grande a Casa das Margaridas atende gestantes, puérperas e seus filhos, com capacidade para até 20 pessoas. A unidade Frida Khalo, no Méier, atende meninas adolescentes de até 18 anos, mesmo as gestantes e seus bebês, também com 20 vagas. Existem ainda sete unidades específicas para crianças e adolescentes, localizadas no Centro, Cachambi, Campo Grande, Bangu, Del Castilho e Penha Circular; dois para mulheres adultas, no Rio Comprido e Tijuca; três para crianças, em Ramos, Botafogo e Méier; três para adolescentes, no Catete, Estácio e Taquara; e dois mistos para homens e mulheres adultos, na Central e em Bonsucesso. Os dados são da SMAS e deixam claro que, qualquer que seja o total real de sem teto, não há vagas para todos. 

Lá no sambódromo está todo mundo trancado e apavorado. Só não se vira nas ruas quem não quer

Priscila

Priscila, mulher trans de 33 anos, desde os 11 vivendo nas ruas, não ir para abrigos ou fazer programas de capacitação. “Lá no sambódromo está todo mundo trancado e apavorado. Só não se vira nas ruas quem não quer”, me disse, enquanto comia tomate e cozinhava arroz e repolho sobre uma pequena fogueira, acesa no gramado lateral da passarela na altura do posto 3 do Aterro do Flamengo. Priscila não sua máscara. Acredita estar protegida contra o vírus transmissor da covid-19 graças ao coquetel que recebe na Fiocruz, por ser soropositiva para HIV (antirretrovirais usados contra a Aids foram testados e apresentaram resultados iniciais promissores contra Covid-19 “in vitro”, mas não há evidencias de que funcionem fora de laboratório). Acha que respondeu ao Censo, mas não tem certeza. “Estamos sempre respondendo a essas perguntas”, diz, referindo-se às abordagens regulares dos assistentes sociais. 

Mariana Machado, do Instituto Lar, diz que, em sua experiência, o ser humano se acostuma a tudo: “É muito triste, mas essas pessoas vão criando cascas pra viver sem carinho, sem abraço. Até que passam a acreditar que não são merecedoras de uma vida melhor. Alguma coisa tem que ser feita urgentemente, antes que esses novos desabrigados se acostumem”. 

Karla Marcolino

Karla Marcolino estudou jornalismo na ECO/UFRJ. Formada em 1989, trabalhou na Rádio JB, na TV Globo, na revista Veja Rio, no Jornal do Brasil e em O Dia. Faz tempo optou por ser free lance e desde então tem produzido conteúdo para sites e publicações diversas. Divide-se entre a reportagem e as aulas de yoga desde que se tornou instrutora, em 2018.

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