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Batalha por lugar na universidade em 2020 tem seu último capítulo na Maré

Estudantes que sofrem o ano todo com a rotina de violência no conjunto de comunidades populares tentam vaga na Uerj, após enfrentar violência, preconceito e desrespeito


O professor Marcos Mello (de vermelho) com alunos da Maré: determinação. Foto do arquivo pessoal
O professor Marcos Mello (de vermelho) com alunos da Maré: determinação. Foto do arquivo pessoal

“Eu nunca consigo falar das operações sem sentir uma raiva intensa pelo desrespeito que está virando ‘costume’ na Maré. Já ficamos 10 dias sem aula no mês de setembro”, desabafa Lucas Bitar, 21 anos, aluno do pré-vestibular comunitário da ONG Redes da Maré, sobre as recorrentes incursões policiais militares no Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas da cidade do Rio de Janeiro, 16 no total. O jovem está se preparando para o vestibular pela primeira vez, tem o sonho de cursar Licenciatura em História e não se imagina fazendo outra coisa. Neste domingo (1º), ele e os colegas terão a última chance de realizar o sonho, no vestibular da Uerj. O derradeiro capítulo de uma história pontilhada por obstáculos, como o aumento das ações policiais nas comunidades – até setembro, foram registradas 26 – o dobro de 2018 – e seis delas duraram mais de 10 horas.

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O pré-vestibular comunitário do Redes da Maré tem quatro turmas na sede da Nova Holanda, uma turma na Vila do João e outra na Vila do Pinheiro, com cerca de 30 a 40 alunos. Lucas, que começou o curso este ano, cresceu no Parque Roquete Pinto, com 8.132 habitantes, segundo dados do Censo Populacional da Maré (2013). Formou-se no Ensino Médio aos 18 anos, em 2017. Durante o período escolar, passou por dificuldades financeiras em casa, e aos 13 começou a trabalhar em um bufê infantil, onde ficou por cinco anos. “Antes a preferência era sempre do trabalho, mas agora não deixo mais isso ser o divisor de águas em minha vida. Meu estudo vem em primeiro lugar, se não dá para conciliar eu paro de trabalhar.” Ele não é o primeiro da família a prestar vestibular: tem três primas universitárias, uma mora no Nordeste e as outras duas são do Rio de Janeiro. Hoje, o jovem vive na comunidade Sem Terra, localizada no Parque União, favela da Maré com maior número de moradores – 20.567.

Essa é uma região na Zona Norte da cidade afetada diretamente pelo crescente número de operações policiais militares. A última edição do Boletim de Segurança Pública, produzido pela Redes da Maré, apontou que no primeiro semestre de 2019, após início da política de guerra às drogas do governo de Wilson Witzel, 27 pessoas foram mortas, 15 em operações policiais. Além disso, 66 pessoas foram vítimas de violações dos direitos humanos e as atividades nas escolas e nos postos de saúde foram suspensas em 10 dias. A rotina dos vestibulandos muda a cada ação policial realizada. Aulas são canceladas, conteúdos são perdidos e, mesmo com a reposição de aulas aos sábados, muitos alunos trabalham e não conseguem ir.

Da mesma forma, as operações policiais afetam os vestibulandos emocionalmente. Aos 28 anos, Diana Sousa, aluna da Redes da Maré, vai prestar vestibular para Licenciatura em Geografia. Vizinha de Lucas na Sem Terra, ela tem o sonho de trabalhar na área da educação. Diana se formou no Ensino Médio aos 24 anos, porque precisou interromper os estudos aos 18 para trabalhar, até conseguir conciliar os dois. A insegurança em razão da violência urbana tem sido seu maior medo: “as operações interferem de forma intensa em nossas vidas porque temos medo dentro de casa. Não podemos sair pra trabalhar e nem estudar. Nos dias em que há operação, fica impossível se concentrar nos estudos, porque fico apreensiva.” Lucas compartilha da mesma sensação: “Quando escuto o barulho de um helicóptero só consigo pensar que vão me metralhar, às vezes tenho sonhos onde toda minha família foi baleada. Afeta minha saúde mental e com isso, obviamente, o rendimento do estudo será inferior”, prevê.

Diana com os professores Everton (ao centro) e Daniel: luta contra o medo para poder estudar. Foto do arquivo pessoal
Diana com os professores Everton (ao centro) e Daniel: luta contra o medo para poder estudar. Foto do arquivo pessoal

Para a prova específica da Uerj, Diana contou que das onze aulas que iam ser repostas, a de redação e a de história foram canceladas devido à operação que ocorreu no dia 13 de novembro, com duração de 14 horas. No dia 19 de novembro também teve outra ação que cancelou as aulas do Redes, entre elas a de geografia, uma de suas específicas no exame. Elizabeth Gonçalves, também aluna do Redes, disse que a reta final “está tensa” em razão da insegurança e complementa: “Eu tenho estudado muito por uma plataforma de estudos virtual e ainda me sinto privilegiada por ter acesso à internet e ao computador em casa, o que está longe de ser a realidade da maioria aqui.”

Ocupação de espaços nas universidades
A ocupação pela comunidade negra e periférica de espaços que foram negados durante a história do país é uma luta diária. “Essa ‘pré-ocupação’ de não haver espaço para todos nas universidades públicas é uma violência simbólica. Como que você se dedica para algo que nem sabe se irá acontecer? Ou se irá prevalecer?”, reflete Emanuelle Torres, professora de Redação do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), pré-vestibular comunitário do qual foi aluna Marielle Franco, ex-vereadora do Rio de Janeiro e defensora dos direitos humanos, assassinada em março de 2018.

Quem está ensinando também sente dificuldades. Emanuelle enfatiza que, como professora, seu maior desafio é não desanimar da educação e que é preciso continuar lutando pela ruptura do “molde estrutural social, branco e burguês, onde alguns são representados e privilegiados em nome de uma maioria excluída de todos os aparelhos de assistência social, seja educação, saúde, mobilidade e moradia”. Como resposta, a professora busca sempre a perspectiva do ensino decolonial, que posiciona o educando e sua vivência no epicentro da construção do saber. Isso faz perceber que sua existência é fundamental para o funcionamento e melhora da estrutura social.

Desempregada há três anos, Elizabeth Gonçalves, 32, tem uma filha de 4 anos e desde o ano passado é moradora do Parque Rubens Vaz, outra favela da Maré. Viveu sua infância no Parque União, e sempre estudou em escola pública. Precisou começar a trabalhar assim que se formou no Ensino Médio e demorou a se preparar para o vestibular: “Passamos a vida inteira recebendo essa mensagem de que a faculdade não é nosso lugar. É necessário esse sentimento de pertencimento e resistir. Confesso que, apesar de ser vizinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nunca tive uma sensação de pertencimento àquele lugar”.

Passamos a vida inteira recebendo a mensagem de que a faculdade não é nosso lugar. Apesar de ser vizinha da UFRJ, nunca tive uma sensação de pertencimento àquele lugar

Elizabeth Gonçalves
moradora da Maré

Com o tempo, Elizabeth compreendeu que a faculdade vai além disso. Está no segundo ano do pré-vestibular e pretende cursar Geografia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj): “Vai ter pobre, preto e favelado sim na faculdade! Temos que ocupar um espaço de direito nosso e levar nossas discussões para o meio acadêmico”, destaca ela.

Em roda de conversa dia 14 de setembro com os professores do projeto Redes, eles explicaram que o ensino é ligado ao contexto do território. Além de ensinar conteúdos, eles preparam os alunos por meio da via de desconstrução, reforçando a ideia de reconhecimento e pertencimento de cada aluno ao seu local de origem. Eles têm observado uma maior discussão política dos alunos, visto que estão mais atentos aos discursos de políticos, especialmente sobre a região em que vivem. “Aqui é o lugar onde me sinto mais mais seguro”, conta Ernani Alcides, professor de Filosofia e coordenador do pré-vestibular comunitário, que explica como o debate em sala de aula é conduzido pela história e pelo conjunto de narrativas que vem tomando força.

Réplica em papel de uma arma, entre os cadernos: violência à espreita. Foto de Julia Rafaela Bruce
Réplica em papel de uma arma, entre os cadernos: violência à espreita. Foto de Julia Rafaela Bruce

A educação como forma de libertação da violência física e simbólica é comum aos vestibulandos do Complexo da Maré. Os cursos comunitários instalados em todo o complexo preparam as pessoas para os vestibulares e, ao mesmo tempo, discutem por que a universidade ainda é branca e rica. Publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no dia 13 de novembro, a pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil apresentou a distribuição dos estudantes de 18 a 24 anos, com base no nível de ensino frequentado e mostrou que 55,6% de pretos e pardos estão no Ensino Superior em comparação com 78,8% de brancos. A professora Emanuelle complementa que os pré-vestibulares são espaços que proporcionam não só a integração com a universidade, mas com vivências e saberes necessários para a construção social do cidadão favelado, pressupondo integração e formação social.

Marielle Franco, que nasceu na Maré, era aluna do pré-vestibular do Ceasm no ano de 1998. “Marielle sempre foi participativa, antes mesmo de entrar para o curso”, conta uma de suas professoras, Claudia Rose. “Ela era autônoma e propositiva; tinha percepção da realidade com bastante senso crítico”. Esse traço tem se reforçado nos jovens e adultos da Maré que acreditam na transformação da vida e do lugar onde moram por meio da educação.


Escrito por Julia Rafaela Bruce

Estudante de jornalismo da PUC-Rio, trabalha com Comunicação no Terceiro Setor. Tem paixão por causas sociais e quer seguir carreira na área, por acreditar que as organizações da sociedade civil são o ponto de esperança do país. Também atua no audiovisual e na fotografia, produzindo ensaios e minidocumentários.

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