‘A partir das lixeiras vejo se uma pessoa é boa ou má’

‘Catador doutor’, como é chamado por alguns, Alex voltou a estudar quase 20 anos após deixar a escola: “com o tempo percebi que não fui eu que abandonei, foi a sociedade que me abandonou”. Foto: Luciano Vargas Menezes

Alexandro Cardoso, catador e graduando em Ciências Sociais, conta a sua incrível trajetória no livro “Do Lixo a Bixo”

Por Fernanda La Cruz | ODS 10 • Publicada em 12 de outubro de 2021 - 08:35 • Atualizada em 15 de outubro de 2021 - 20:26

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‘Catador doutor’, como é chamado por alguns, Alex voltou a estudar quase 20 anos após deixar a escola: “com o tempo percebi que não fui eu que abandonei, foi a sociedade que me abandonou”. Foto: Luciano Vargas Menezes

(Porto Alegre, RS) – Além da experiência na catação de materiais recicláveis, a vida entre pilhas de papéis e papelão rendeu um pensamento crítico a Alexandro Cardoso, 41 anos. Ele, que lia livros e revistas encontrados nos sacos descartados pelos moradores de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, hoje é estudante de ciências sociais e tem uma noção precisa do valor de seu trabalho para a sociedade.

Alex faz parte da categoria de catadores de materiais recicláveis – a que mais contribui para reduzir o impacto da produção de itens como plástico e papel no meio ambiente. Pelo trabalho de cerca de 10,5 mil catadores brasileiros atuando em 607 associações mapeadas pelo Anuário da Reciclagem, um volume de resíduos de 354.649,08 toneladas foi recuperado em 2020.

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“Nós, catadores, temos conhecimento sobre cada processo e cada tipo de material que é descartado, cada polímero, cada ondulação de papel”, diz ele, que, atualmente, desempenha função administrativa em uma cooperativa de Porto Alegre. “Somos importantes no processo de sustentabilidade, tendo envolvimento em 14 dos 17 ODS”, – os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos em uma agenda global para o desenvolvimento humano e socioambiental.

Algumas pessoas falam reciclador porque é mais bonito, acham que falar ‘catador’ ofende. Reciclador é o empresário. Eu sou catador e ser catador não ofende

Alexandro Cardoso
Catador e aluno de Ciências Sociais na UFRGS

Apesar da relevância da categoria, a vida vivida pela maioria de catadoras e catadores segue sendo à margem. “É uma construção da sociedade das aparências, em que as pessoas valem o que têm, não o que são. Então quando olham para a gente catando na lixeira, já têm toda uma ideia sobre nós”, explica. “Mas se a sociedade enxerga a gente a partir da lixeira, o contrário também acontece. E a partir das lixeiras eu vejo se uma pessoa é boa ou má.”

O que encontra no lixo das pessoas, ele argumenta, tende a refletir valores e condutas pessoais. “Se uma pessoa separa o lixo possivelmente não é alguém que vai chutar um cachorro na rua. Se não separa, possivelmente coloca o carro na vaga para idoso ou então fura fila. A gente percebe quem tem empatia, quem é solidário.”

Pavor e preconceito

A vida na reciclagem oferece poucas oportunidades, baixa remuneração (um catador, em média, ganha R$ 800 por mês no Brasil) e, principalmente, bastante discriminação. Um dos motivos para o preconceito contra catadoras e catadores, segundo Alex, se aproxima da figura do “velho do saco” – evocada há décadas para assustar crianças em cidades como Porto Alegre.

Assim como um adulto que cresce e aparentemente esquece, mas segue traumatizado por esse medo infantil, as cidades guardam pavor de quem trabalha com o que é popularmente chamado de lixo – atividade compartilhada tanto por catadores quanto por velhos do saco. “Olha só: a pessoa deseja um sorvete, come o sorvete, tem prazer nesse sorvete, mas, assim que termina, a sobra se transforma num câncer”, explica. “E a pessoa que lida com os resíduos é ainda mais cancerosa.”

Essa e outras reflexões sobre a representação social dos catadores na sociedade estão descritas em “Do Lixo a Bixo: a cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vida”, lançado em junho pela editora Dialética. O livro narra a história de vida de um típico “catador iletrado”, que interrompe os estudos no 5º ano do ensino fundamental porque precisa trabalhar.

A obra conta, porém, um desfecho ainda pouco comum entre os pares de Alex, que fez viagens internacionais como representante da categoria – o passaporte tem registro em destinos como Suíça, Quênia, Estados Unidos, Bolívia e Índia – e chegou à universidade. “Falei ao lado de muitos doutores, mas não tive vergonha da minha escolaridade. Com o tempo percebi que não fui eu que abandonei a escola, foi a sociedade que me abandonou.”

Como tudo costuma ser

Aos dois meses de idade, Alex já percorria a zona central de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, dentro do carrinho de reciclagem dos pais Alceu e Tânia Maria. Os anos seguintes avançaram da mesma forma, entre materiais recicláveis nas ruas da cidade e nos pátios da Cai Cai, a vila de catadores onde foi criado.

“A brincadeira era trabalhar, limpar pátio, separar material. Lembro de brincar com as outras crianças de quem juntava mais ligeiro, quem carregava o saco mais pesado, quem organizava melhor os materiais”, recorda. “Não havia separação do que era casa, do que era trabalho e do que era diversão, mas tive muito amor e cuidado, fui uma criança muito feliz.”

Alexandro Cardoso na catação. Foto Arquivo Pessoal
Alexandro Cardoso na catação. Foto Arquivo Pessoal

Quando cresceu, Alex fez da catação sua profissão também. “Até os 16 anos trabalhava sem o peso de sustentar a casa. Parei de estudar quando fui pai da minha primeira filha, porque não dava para conciliar o estudo. Depois tive mais três filhos.”

Envolvido integralmente com o trabalho, o catador tornou-se uma liderança entre os colegas. Em 2001, no congresso que deu origem ao Movimento Nacional dos Catadores de Resíduos Recicláveis (MNCR), foi escolhido como coordenador: “Algumas pessoas falam reciclador porque é mais bonito, acham que falar ‘catador’ ofende. Reciclador é o empresário. Eu sou catador e ser catador não ofende”, diz Alex, que trabalha desde criança na catação.

Avanço é para todos

Com o movimento organizado, catadoras e catadores iniciam um período de conquistas, como o reconhecimento da profissão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Em 2003, o MNCR expandiu sua articulação, integrando a criação da Rede Latinoamericana de Catadores (Red Lacre). Cinco anos depois, a categoria realizou um congresso mundial que gerou a Aliança Global de Catadores.

“Avançamos muito nos aspectos legais no Brasil, com os governos Lula e Dilma”, conta. “Tanto no reconhecimento do catador como principal agente para a coleta seletiva e em programas para o catador, quanto organizando recursos para criar galpão de reciclagem, compra de caminhões e formação para sair dos lixões.”

Nessa época, Alex lembra que as(os) catadoras(es) brasileiras(os) ganharam notoriedade no cenário internacional. Não à toa, ele representou a categoria discursando em encontros de universidades e conferências internacionais, como eventos da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Passamos a ser vistos com outros olhos, o país campeão de reciclagem de latinhas, que gerava renda com resíduo… mas desde o governo Temer os programas pararam. Agora está aí, o ‘Brasil sem lixão’”.

O Programa Lixão Zero, lançado em 2019 pelo Ministério do Meio Ambiente, faz parte da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e é criticado por beneficiar empresas privadas, resultando na exclusão da função do catador, já que utiliza o processo de incineração de resíduos. Para promover uma discussão pública sobre o tema, os catadores criaram uma frente nacional contra a incineração. As empresas convidadas, segundo o catador, não participaram do debate.

“A incineração acaba com o material que poderia ser reaproveitado e ainda libera fumaça tóxica. É um processo linear que degrada a natureza”, afirma ele, que aposta na economia circular para o desenvolvimento sustentável do planeta. “No processo circular se reaproveita. Para fazer plástico, por exemplo, você usa petróleo. Aí depois que usa esse plástico, você recicla e não precisa tirar petróleo de novo! Quando se queima o plástico, se queima petróleo!”

Como tudo deveria ser

Frequentando salas de aula vez ou outra para fazer atividades de educação ambiental, Alex nunca se afastou totalmente da escola. E sentia vontade de retornar como aluno. Em 2015, passando em frente a um colégio público perto de sua casa, decidiu entrar para se informar sobre uma possível retomada. Acabou ficando até concluir o 5º ano – e os demais do ensino fundamental.

Alex na cooperativa onde atua: mesmo antes de concluir o ensino fundamental, nunca deixou de aprender. Foto: Jaqueline Sordi
Alex na cooperativa onde atua: mesmo antes de concluir o ensino fundamental, nunca deixou de aprender. Foto: Jaqueline Sordi

Na sequência cursou o ensino médio e frequentou um cursinho popular para prestar vestibular, sendo aprovado para o curso de ciências sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A trajetória, que chama atenção de alguns pela singularidade – quando, na verdade, a educação é um direito de todos previsto na Constituição Federal –, lhe rendeu até o apelido de ‘catador doutor’.

Agora, prestes a terminar a faculdade, está realizando o projeto de pesquisa que levará ao trabalho de conclusão. Neste, pretende abordar a construção do “eu catador”. A escolha visa apresentar o universo dos catadores a quem não o conhece – proposta semelhante à “Do Lixo a Bixo: a cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vida”. O tema da educação, como o próprio título informa, está presente no livro a partir de uma análise sobre o papel da escola e do estudo para o pleno desenvolvimento dos sujeitos.

Em seu argumento, o catador critica o sistema de ensino atual que, baseado em uma fórmula antiga, ainda enxerga estudantes como meros receptáculos do conhecimento transmitido por professores. “É como uma empresa em que as pessoas têm que cumprir vários requisitos. Eu mesmo aprendi mais na vida, levando as revistas e livros que achava na cooperativa para casa do que na escola”, afirma.

Além da educação emancipatória, o catador defende a solidariedade, a empatia e o amor – o chamado “tripé de sustentação da vida”, que completa o nome do livro – como valores necessários à manutenção da existência humana na Terra. “Somos seres livres, que se associam livremente para partilhar.” Essa ideia, aliás, está na raiz da criação das cooperativas de catadores que Alex tanto se orgulha de defender.

“Acreditamos em pessoas se juntando para dividir o trabalho que precisa ser feito e dividir também os frutos, sem precisar que todos sejam muito pobres pra que apenas um de nós fique muito rico”, diz ele que, junto com seus colegas, busca outras formas de se relacionar com as pessoas e o com meio ambiente para melhor – e por mais tempo – viver.

(*) No Rio Grande do Sul, a expressão “Bixo” é usada para indicar as pessoas que são aprovadas nos vestibulares. Daí o título do livro: “Do Lixo a Bixo”, que traduz o percurso de vida de Alexandro Cardoso. Se quiser mais informações sobre o trabalho do catador doutor, pode procurar no Instagram @alexcatador

Alexandro na porta universidade com o seu livro recém-lançado. Foto Vinicius Cardoso
Alexandro na porta universidade com o seu livro recém-lançado. Foto Vinicius Cardoso

Fernanda La Cruz

Jornalista e mestra em Direitos Humanos. Atua na coordenação de conteúdo de uma agência de comunicação e engajamento social desenvolvendo projetos de comunicação e educomunicação para promoção de causas e sujeitos de clientes como Unesco, Unfpa e Fiocruz. Como repórter freelancer, atua na cobertura de temas como saúde, violências e desenvolvimento social. Desenvolveu reportagens para publicações de UOL, Gazeta do Povo, Jornal do Comércio e Revista Superinteressante, entre outros. Recebeu cinco prêmios jornalísticos universitários e profissionais.

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