‘O racismo está na alma do Brasil’

Jesse de Souza: “A tentativa de reduzir os direitos trabalhistas está no cerne da questão. Menos direitos, mais exclusão”. Foto Claudia Araújo

Em entrevista ao #Colabora, sociólogo Jesse de Souza, que está lançando um novo livro, diz que o país condenou negros e negras ao mesmo lugar do passado escravocrata

Por Claudia Silva Jacobs | ODS 10 • Publicada em 20 de setembro de 2021 - 10:49 • Atualizada em 27 de setembro de 2021 - 08:31

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Jesse de Souza: “A tentativa de reduzir os direitos trabalhistas está no cerne da questão. Menos direitos, mais exclusão”. Foto Claudia Araújo

O racismo nunca deu trégua no Brasil. Ele regula as relações entre classes sociais, entre patrões e empregados, entre ricos e pobres, entre os pobres e os mais pobres. O país nasceu, caminhou, mas nunca deixou que as relações mais honestas e transparentes ditassem os rumos da nação. E a necessidade de desvendar a essência dessa sociedade tão estratificada fez com que o sociólogo Jessé Souza se debruçasse na tarefa de entender os caminhos que o Brasil havia tomado a partir de 2018: “A eleição de Bolsonaro me adoeceu por dentro. Eu pensei: que país doente e podre é esse que elege Bolsonaro. Chega a ser até difícil explicar isso. Eu estudei muito nesses quase três anos”, disse Souza que materializou todo esse trabalho no livro Como o racismo criou o Brasil, lançado recentemente pela editora Estação Brasil.

Não é a primeira vez que o sociólogo disserta sobre os caminhos do país, mas os últimos anos foram mais intrigantes. Para Souza, a necessidade de manter as relações entre senhores e escravos ficou mais transparente, com a tentativa do governo de aprovar mudanças na lei trabalhista, que foi vetada pelo Senado. Mesmo com esse freio, o racismo que estrutura nossa sociedade se mantém firme, e reproduz essa relação de exploração até mesmo entre pessoas de baixa renda.

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Para Jessé Souza, o neoliberalismo está na raiz da relação que privilegia a meritocracia. Com ela, 1% da chamada “classe desfavorecida” alcança algum sucesso, tornando-se porta-voz de uma massa enorme que segue invisível, dentro dos padrões da “escravidão moderna”. “Bolsonaro se utilizou dessa guerra entre os pobres. Em nome do empreendedorismo se ressalta um por cento, que por um motivo ou outro consegue se destacar, em detrimento de uma classe enorme de desfavorecidos”.

Segundo ele, o Brasil condenou negros e negras a continuarem no mesmo lugar do passado escravocrata, quando você usa esse número pequeno como exemplo, como a imagem de uma classe oprimida: “A tentativa de reduzir os direitos trabalhistas está no cerne da questão. Menos direitos, mais exclusão”.

Alguma esperança de dias mais justos? A resposta, otimista, vem em forma de crédito para uma nova geração que luta para se impor tanto no mercado de trabalho quanto nos outros campos da vida.

Abaixo, mais um pouco da boa conversa de Jessé Souza com o #Colabora

Reprodução

#Colabora – Qual foi a motivação para você lançar esse livro?

A motivação foi Bolsonaro, ele me adoeceu por dentro. Eu pensei: que país doente e podre é esse que elege Bolsonaro. Chega a ser até difícil explicar isso. Eu estudei muito nesses quase três anos. Claro que como estudioso eu sei como se engana as pessoas, a questão das fake news, a manipulação das informações. Tudo isso começou com a fraude da Lava Jato, eu nunca tive dúvidas.  A política brasileira foi determinada por bastante tempo pela Lava-Jato, pela mentirada da Lava Jato. Eu fui um dos pioneiros a achar que isso era uma fraude, ainda em 2015. Eu sempre liguei a operação a história brasileira, uma história que sempre favorece a elite. Mas quando a sociedade elege um bandido como Bolsonaro é um caso para ser estudado, e é uma motivação irracional. E eu sabia que a maior força irracional é o racismo. E o racismo racial vai ser predominante.

#Colabora – O racismo é a base de tudo, como você vê o racismo nesse contexto?

Eu acredito que o racismo não tinha sido compreendido, acho que eu avancei nesse livro, posso estar enganado. Racismo é um tema muito difícil de se compreender. Acho que eu avancei nessa compreensão, tanto nacional como internacionalmente. Você só pode compreender o racismo, a outra face da moeda do que está por trás, através do aprendizado. Compreender a gramática do racismo, entendendo o que está por trás. Tem todo um contexto que foi construído e moldado moralmente, para que a gente não exerça a nossa inteligência.

As pessoas vão usar o racismo para dividir os negros, para dividir os pobres. Isso não era claro para mim. Obviamente, quando fiz a crítica ao neoliberalismo identitário eu também estou pensando nisso, porque as pessoas vão usar o racismo para alimentar essa cultura da meritocracia.

Até a coisa de ter um direito grupal, só dos negros, das mulheres, eu acreditava nisso. Hoje, acho que é uma grande bobagem, é reacionário. Estudei muito para ter isso claro. Para compreender o racismo brasileiro tem que entender as formas que ele vai se mascarando. A gente não consegue pela emoção, é um processo de reflexão.

O moralismo é racismo. É importante perceber isso, como o racismo se configura, como ele toma forma. O que explica Bolsonaro é o racismo.

#Colabora – Quando você fala do “lixo branco” e do “lixo negro”, aquele que se acha melhor que o outro, mesmo que estejam no mesmo ambiente, aqueles que se enxergam melhores por qualquer motivo, isso diz muito do racismo que enfrentamos até mesmo entre os mais próximos. Você acha que todo esse processo é justamente para fortalecer essa ideia de que existe um grupo inferior?

Esse é o cerne do problema, a nossa sociedade está enraizada nessas bases. Bolsonaro une, pela primeira vez, o racismo da elite e da classe média branca, contra o povo mestiço e negro, com esse novo racismo popular, “o lixo branco”, de São Paulo e do Sul (basicamente), e do mestiço evangélico (quase sempre) do Rio de Janeiro e o restante das regiões contra o próprio negro.

O principal para mim é a construção de uma “raça classe” condenada à barbárie. Todo mundo poderia tirar uma satisfação substitutiva disso. É a ideia de que tem alguém que é pior e, por isso, posso matar, posso cuspir, tenho direito a pisar, tem uma classe inferior. Ele tem a sensação de que pode humilhar e passar por cima dos outros que ele considera inferiores.

 #Colabora – O que essas pessoas buscam, a superioridade, a “branquitude”?

Sem que a gente perceba, as pessoas procuram na vida é o reconhecimento. Existe uma ideia neoliberal de que somos fortes, heróis e heroínas, que podemos tudo, mas na verdade somos muito frágeis. Nós precisamos do reconhecimento alheio. Essa é a necessidade primeira, essa pode ser universalizável, como nos países escandinavos, onde 90% da população é incluída, são respeitados. A polícia não pode entrar na casa de um trabalhador alemão, norueguês, por exemplo, cai um governo.

E tem sociedades que não tem a ver com ser rico ou pobre, isso é importante ressaltar. Você tem a sociedade americana que é racista e violenta como a brasileira, mesmo sendo a sociedade mais rica do mundo.

#Colabora – Por que somos tão racistas no Brasil e nos Estados Unidos? É um país rico e outro pobre que funcionam da mesma forma em relação ao racismo?

Fazemos isso equalizando as pessoas, ou dando uma satisfação substitutiva, mentirosa, para que vivam se achando superiores. No Brasil e nos Estados Unidos os negros foram criados e mantidos como marginais, excluídos, para que as diferenças fiquem claras, um manda e o outro obedece.

E esse sistema acaba definindo as classes de elite, os inteligentes. E isso acontece não só nessa elite, mas também nas classes intermediárias. É fundamental essa compreensão para entender como o Brasil funciona.

# Colabora – A minirreforma trabalhista que o governo queria aprovar previa a diminuição de benefícios aos trabalhadores, uma mudança significativa na CLT. Você acredita que esse tipo de atitude é parte do processo de fortalecer um sistema “escravocrata”, deixando os trabalhadores sempre dependentes de seus patrões?

Acho que precisamos entender e criticar essa postura de glorificar o oprimido, dessa romantização. Para mim é um erro. O pior inimigo do pensamento crítico é romantizar o oprimido, é o que o neoliberalismo faz. O Brasil está condenando os negros e negras a ocuparem o mesmo lugar em que estavam durante a escravidão. Você exclui essas pessoas do mercado competitivo de trabalho, assim você exclui a maioria permanentemente, dificulta as condições de reprodução familiar, reforça a humilhação, entre outras coisas.

É óbvio que isso atinge em cheio quem está na pobreza. Esse entendimento de “classe raça” atinge 80%, 90% da população pobre, majoritariamente negra, e essa exclusão é contínua.

Tem gente que consegue sair da pobreza, se destaca profissionalmente, o que é ótimo, felizmente saem desse ciclo miserável e de submissão, mas isso não pode ser parâmetro para a realidade da maioria. Precisamos denunciar a desconstrução desse processo de barbárie que as pessoas vivem.

Temos que ter em mente que esse 1% de negras e negros vitoriosos estão dentro de um sistema de concessão mínima e não vão mudar a vida dos outros 99%, mas a ideia é fazer com que essa grande massa se sinta representada

Jesse de Souza
Sociólogo

Para mim é importante mostrar que o lugar dos negros no Brasil, a classe foi montada evolutivamente, as pessoas escolheram isso. A cada golpe de estado no Brasil contra alguém que quer ajudar negros e pobres, se reafirma esse projeto. Ou a gente se conscientiza ou a gente não vai mudar nunca. É difícil ter um distanciamento afetivo da sua própria condição. Chamar favela de comunidade não vai mudar a realidade. Esse é um dos maiores enganos da esquerda, do pensamento democrático.

#Colabora – Como a gente pode reagir a essas práticas de servidão que estão tentando resgatar de alguma forma, quebrando direitos básicos conseguidos ao longo de muitas décadas? 

É necessário incluir esses poucos por cento de negros e tirar essas pessoas como a representação de todo um grupo de oprimidos. Isso é uma loucura. Tudo isso em nome do livre-mercado e do chamado empreendedorismo, na esfera pública comprada pelo neoliberalismo. Temos que ter em mente que esse 1% de vitoriosos estão dentro de um sistema de concessão mínima e não vão mudar a vida dos outros 99%, mas a ideia é fazer com que essa grande massa se sinta representada.

A pobreza não é só econômica. Essa condenação é continua, e é por isso que precisamos denunciar esse projeto político. Isso não ajuda nada.

#Colabora – A defesa da meritocracia e do empreendedorismo, dentro desse discurso que “o sol brilha para todos”, pode ser uma forma de mascarar a realidade?

Concordo plenamente. É mais fácil incluir um por cento. É uma concessão mínima que o sistema faz e que as pessoas não percebem que isso é apenas uma pequena concessão, nada mais.  Isso não vai mudar a vida de 99% das pessoas, até porque a luta delas passa a ser invisível, já que em nome do empreendedorismo, do livre mercado, do neoliberalismo essas pessoas passam a representar toda uma classe.

O pior é que precisamos manter tudo isso em mente. É fundamental manter o senso crítico a esse tipo de coisa. Mas é preciso ter muita coragem de falar e discutir esse tema.

Essa visão permite que você crie uma guerra entre os pobres, sem ter uma solidariedade entre os pobres, estabelecendo que uns são melhores que os outros. E isso não deve acontecer. Não é à toa que Bolsonaro se utilizou disso, que Trump utiliza esse discurso.

É preciso redimir de verdade os escravos, porque eles continuam escravos, de uma forma moderna. O aspecto racial tem que ser utilizado de outro modo, não desse neoliberalismo identitário que é uma armadilha

Jesse de Souza
Sociólogo

É muito importante criticar essas ideias, porque só conseguimos no nível das ideias. Envenenar essas ideias que continuam oprimindo e dividindo as pessoas que deviam estar unidas. O pior é que o sofrimento de 99% das pessoas que estão fora dessa linha de “sucesso” fica completamente invisível. Isso dá espaço para todos os tipos de violência.

Ideologia do empreendedorismo, na verdade é meritocrática. Isso permite que você crie uma guerra entre os pobres, e você não consegue uma unidade entre os pobres.

#Colabora – Existe um processo de cegueira, um processo que não nos deixa ver a realidade, os caminhos que estamos tomando?

Sem dúvida é uma cegueira. Só se tem mudança se for através da consciência. Lula e Dilma fizeram coisas interessantes, mas não explicaram. E deu nisso. É importante se perceber o Brasil como racista, perceber como uma forma velada de racismo.

Construíram uma coisa no Brasil que é condenar a sua própria cultura. Dizer que o povo é um lixo, é uma forma de reproduzir o racismo. Precisamos desconstruir essa identidade nacional, mudar a ideia. O comportamento é motivado por ideias.

#Colabora – Você acha que conseguimos reverter esse cenário?

Eu acho que esse momento não vai perdurar. Bolsonaro é inviável. Pode ficar pior, mas pode ter uma chance grande de aprendizado, sempre qualquer mudança é processo de conscientização. Você tem que reescrever a história do Brasil.

Tem que passar pela história, e a imprensa tem que ser plural de uma vez por todas. Nós temos as melhores condições de impor agenda que vai ter que ser aceita. Você pode ter regressão, violência. Tenho certeza de que o Lula vai ganhar a próxima eleição.

#Colabora – Como você vê a nova geração que busca ocupar espaço no mercado, luta por direitos e para garantir essa identidade cultural e racional. Você é otimista?

Eu sou otimista, acho que vamos trilhar outros caminhos, e os  jovens são fundamentais nesse processo. Os negros são fundamentais e precisam ocupar um papel importante em todo esse processo. A classe é invisível, mas a raça não é. A percepção é de que é uma classe fadada a conviver com a barbárie eterna. Você tem que contar com a remissão dessa classe. É preciso redimir de verdade os escravos, porque eles continuam escravos, de uma forma moderna. O aspecto racial tem que ser utilizado de outro modo, não desse neoliberalismo identitário que é uma armadilha. Ele atualiza a lei de embranquecimento do país. Está na alma do brasileiro

Claudia Silva Jacobs

Carioca, formada em Jornalismo pela PUC- RJ. Trabalhou no Jornal dos Sports, na Última Hora e n'O Globo. Mudou-se para a Europa onde estudou Relacões Políticas e Internacionais no Ceris (Bruxelas) e Gerenciamento de Novas Mídias no Birkbeck College (Londres). Foi produtora do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, onde participou de diversas coberturas e ganhou o prêmio Ayrton Senna de reportagem de rádio com a série Trabalho Infantil no Brasil. Foi diretora de comunicação da Riotur por seis anos e agora é freelancer e editora do site CarnavaleSamba.Rio. Está em fase de conclusão do portal cidadaoautista.rio. E-mail: [email protected]il.com

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