Uma cidade partida em números

Entre as celebradas medalhas olímpicas e os nossos fracassos sociais

Por Agostinho Vieira | ods1rio-2016 • Publicada em 16 de agosto de 2016 - 13:16 • Atualizada em 17 de agosto de 2016 - 13:14

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Rafaela Silva, medalha de ouro no judô, veio da Cidade de Deus, que tem um dos índices de progresso social mais baixos da cidade. Foto de Rafaela Silva, medalha de ouro no judô, veio da Cidade de Deus, que tem um dos índices de progresso social mais baixos da cidade. Foto de William Volcov/Brazil Photo Press
Rafaela Silva, medalha de ouro no judô, veio da Cidade de Deus, que tem um dos índices de progresso social mais baixos da cidade. Foto de Vanderlei Almeida/AFP
Rafaela Silva, medalha de ouro no judô, veio da Cidade de Deus, que tem um dos índices de progresso social mais baixos da cidade. Foto de William Volcov/Brazil Photo Press

O que têm em comum Rafaela Silva, Tamires Morena e Bárbara Seixas? As três são cariocas, atletas de alta performance e ganhadoras ou, no mínimo, fortes candidatas à medalha olímpica. As semelhanças, no entanto, não vão muito além disso. Rafaela, que já garantiu o sonhado ouro no judô, veio da Cidade de Deus; Tamires, destaque da seleção de handebol, foi criada em Vila Valqueire e treinou na Mangueira; enquanto Bárbara deu seus primeiros saques e cortadas nas redes de vôlei de praia em Ipanema. Detalhes geográficos que, em princípio, não as tornam melhores ou piores, apenas diferentes.

Apenas 4% dos jovens entre 18 e 24 anos que vivem no Complexo do Alemão tiveram a oportunidade de frequentar ou concluir uma universidade. No outro extremo, 69% dos jovens da região de Botafogo, que inclui Flamengo, Laranjeiras e Cosme Velho, estão frequentando ou concluíram uma faculdade.

No entanto, uma rápida olhada no Índice de Progresso Social (IPS) do Rio, divulgado recentemente pelo Instituto Pereira Passos, revela que o caminho das três vencedoras até o pódio teve obstáculos de dimensões bem distintas. Criado pelo economista e professor da Harvard Business School Michael Porter, em 2010, o IPS é uma das muitas tentativas de substituir o PIB (Produto Interno Bruto) e humanizar a avaliação do desempenho de países, cidades e regiões. Segue uma lógica semelhante à do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e da FIB (Felicidade Interna Bruta). Em lugar de valorizar apenas o desempenho econômico, ele leva em conta critérios como satisfação das necessidades básicas da população, bem-estar social e volume de oportunidades oferecidas.

Rafa (6)/ Fernando Alvarus

Os índices vão de 0 (pior) a 100 (melhor). O IPS Global, por exemplo, divulgado pela primeira vez em 2013, levou em conta 52 indicadores e avaliou a situação de 133 países, inclusive o Brasil, que aparece na 46ª posição, com 71,70. Rafaela, Tamires e Bárbara talvez não saibam disso, mas os bairros onde iniciaram as suas carreiras estão em três diferentes níveis de progresso social. Ipanema, que faz parte da Região Administrativa da Lagoa, está no alto do ranking, com um índice de 85,18, semelhante ao da Alemanha. Vila Valqueire, que fica na região de Jacarepaguá, está numa situação mediana: 60,09. Do tamanho do Egito. Já a Cidade de Deus tem um índice de progresso social baixo, de apenas 48,31. Mais parecido com o de países como a Libéria, Moçambique ou Etiópia.

Se a situação da Cidade de Deus não parece boa, o que dizer das outras áreas do Rio que estão em posições ainda piores, como Santa Cruz, Guaratiba, Rocinha e Pavuna? Aliás, quem quiser fazer um passeio através do espectro social da cidade basta pegar a linha 2 do metrô, pois ela liga a melhor região, Botafogo (86,90) à Pavuna (41,43), última colocada. Para efeito de comparação, o IPS do Rio de Janeiro é 60,70, bem próximo do índice de Vila Valqueire. Apenas 38% dos cariocas vivem em regiões onde o progresso social está acima da média da cidade. Ou seja, o conceito de cidade maravilhosa pode variar muito de acordo com a origem de cada habitante.

Vôlei no fim de tarde em Ipanema, um bairro com progresso social superior ao da França. Foto de Silvana de Araújo/AFP
Vôlei no fim de tarde em Ipanema, um bairro com progresso social superior ao da França. Foto de Silvana de Araújo/AFP

O acesso ao ensino superior, por exemplo, é um indicador muito ruim em toda a cidade. Média de 32,36. Mas ele pode ser muito pior em alguns lugares, como o Jacarezinho (2,34) e a Maré (2,25). Apenas 4% dos jovens entre 18 e 24 anos que vivem no Complexo do Alemão tiveram a oportunidade de frequentar ou concluir uma universidade. No outro extremo, 69% dos jovens da região de Botafogo, que inclui Flamengo, Laranjeiras e Cosme Velho, estão frequentando ou concluíram uma faculdade.

Muitas vezes as pessoas tendem a fazer uma relação automática entre progresso social e renda. Essa relação existe e é positiva, mas não é óbvia. O IPS mostra isso claramente. A Lagoa tem uma renda per capita muito superior ao do resto da cidade (R$ 8.244,48), mas o seu progresso social é ligeiramente inferior ao de Botafogo, que tem uma renda menor (R$ 5.523,24). Uma das explicações é a qualidade do serviço de transporte público e a quantidade menor de favelas. Não custa lembrar que ter um carro e ficar engarrafado com ele não é sinal de progresso social. Já a Barra da Tijuca, que tem uma renda semelhante à de Botafogo, tem um progresso social inferior (70,83), talvez por conta da falta de infraestrutura e, principalmente, de saneamento.

Esta é a primeira vez que o Índice de Progresso Social do Rio é medido. Ajustes podem e devem ser feitos. Ainda soa muito estranho ver a cidade receber 83,68 em saneamento, 77,77 em moradia e 68,72 em segurança. Resultados que não casam com os deveres de casa que andamos fazendo. Mas é um começo. Não dá para criticar o termômetro, vamos cuidar da febre. E a doença da desigualdade por aqui é muito grave e muito antiga. Uma cidade saudável, certamente, teria condições de produzir quantidades maiores de Rafaelas, Tamires e Bárbaras.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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