Com Temer, lugar de mulher é no lar

Num regime democrático, a influência que cada grupo exerce no Estado não é mero detalhe

Por Roberta Jansen | artigoods1 • Publicada em 14 de maio de 2016 - 12:00 • Atualizada em 14 de maio de 2016 - 13:57

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Brazil’s interim President Michel Temer(2L) presides the first ministers meeting at the Planalto Palace in Brasilia between Chief of Staff Eliseu Padilha(L) and Economy Minister Henrique Meirelles on May 13, 2016. AFP PHOTO/ANDRESSA ANHOLETE Temer kicks off his new administration Friday, seeking to resuscitate the economy and steer clear of the corruption scandal that helped bring down his predecessor. / AFP PHOTO / ANDRESSA ANHOLETE
O presidente interino Michel Temer cercado pelos novos ministros: homens e brancos
O presidente interino Michel Temer cercado pelos novos ministros: homens e brancos

Quando o recém-eleito primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, apresentou o novo ministério no fim do ano passado, chamou logo a atenção de todo mundo a sua composição eclética: eram 15 homens e 15 mulheres, para começar. E entre eles, três sikhs, uma refugiada afegã, um cadeirante. Questionado por um jornalista sobre o porquê daquela composição tão eclética, Trudeau respondeu com simplicidade: “Porque estamos em 2015”.
No Brasil de 2016 a situação é bem diferente. Coincidência ou não, a primeira presidente mulher eleita no país é afastada do cargo por um processo de impeachment questionado legalmente por muitos especialistas, e o novo governo de Michel Temer, que tomou posse na última quinta-feira, é 100% masculino. Tal composição de governo não se via no país desde a presidência do general Ernesto Geisel, em plena ditadura militar.
“Não há democracia sem mulheres”, afirmou na manhã desta sexta-feira a representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman.

Num regime democrático, a influência que cada grupo exerce junto ao estado não é mero detalhe. Ao montar uma coalizão, é natural que diferentes forças políticas tenham voz, se manifestem, é do interesse da sociedade como um todo que isso ocorra

Marcelo Paixão
Professor da Uerj

Para a antropóloga Débora Diniz, da Universidade de Brasília (UNB), em artigo publicado no “Brasil Post”, com a saída da presidente Dilma Rouseff, se afirma a “misoginia como política de governo”.
“Eu nem esperava tanto como um ministério da Saúde, do Planejamento ou da Economia”, escreveu Débora. “Minha esperança resignava-se à história: ministérios de assistência ou de minorias. Mas a novidade foi ainda mais espetacular: acabou-se isso de Secretaria de Mulheres ou de Igualdade Racial. Não há mulheres nem homens negros nos ministérios. Mulheres negras não devem existir para a nova política, pois já houve gente famosa que, recentemente, confundiu uma senadora negra com a ‘tia do cafezinho’.
Coincidência ou não, exatos 128 anos depois da abolição da escravatura no Brasil (em 13 de maio de 1888, como bem lembrou o historiador Raphael Kapa), o ministério de Temer é exclusivamente formado de brancos, uma composição que tampouco se via no país pelo menos desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. Tal composição está bem longe de representar a sociedade brasileira, na qual, de acordo com os últimos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), metade da população é formada por mulheres e, na mesma proporção, por negros e mestiços.
“Esse ministério reflete um movimento conservador que vem tomando corpo desde as eleições presidenciais”, explica o economista Marcelo Paixão, que coordenava o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais da UFRJ e, atualmente, está trabalhando na Universidade de Austin, Texas, nos Estados Unidos.
Paixão lembra que, além de a sociedade brasileira ser composta por pelo menos 50% de mulheres, negros e mestiços, o próprio congresso nacional – apesar de predominantemente branco e masculino – tem 10% de negros e de mulheres. Ou seja, nem isso está representado no novo governo.
“E por que isso é importante? Porque num regime democrático, a influência que cada grupo exerce junto ao estado não é mero detalhe. Ao montar uma coalizão, é natural que diferentes forças políticas tenham voz, se manifestem, é do interesse da sociedade como um todo que isso ocorra”, explica o especialista.
Paixão lembra ainda que, o novo ministro da Educação e Cultura, Mendonça Filho, é do DEM, partido que, em 2009, entrou com uma ação no Supremo contra a política de cotas raciais – uma das maiores conquistas do movimento negro dos últimos anos. E ainda, afirma, na recente votação do impeachment da presidente no Congresso, vários deputados evocaram não apenas Deus e a família, mas muitos falaram abertamente contra a “ideologia de gênero”.
“Ao montar um governo homogêneo (100% branco e masculino), há uma sinalização monotendencial, de um determinado tipo de visão de mundo, que é contra a ideologia de gênero e contra as políticas afirmativas”, diz Paixão.
Para o especialista, não foi por acaso que a atual primeira-dama, Marcela Temer, foi perfilada por uma revista nacional sob o título de “Bela, recatada e do lar”. Esse parece ser o lugar das mulheres no atual governo Temer, não apenas na sua casa.

Roberta Jansen

Trabalhou como repórter especializada em ciência, saúde e meio ambiente nos jornais Estado de S. Paulo e O Globo. No último ano integrou a coordenação de internacional da GloboNews. É feminista desde os 11 anos de idade

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