Covid-19 atinge mais duramente comunidades negras e pobres nos EUA

Fila para distribuir alimentação para pessoas desempregadas ou em situação de rua em Los Angeles: covid-19 atinge mais comunidades negras e pobres e realça desigualdades (Apu Gomes/AFP)

Avanço da pandemia realça falhas no acesso aos serviços básicos e falta de cuidados com os marginalizados na sociedade americana

Por The Conversation | ODS 1ODS 10 • Publicada em 10 de abril de 2020 - 09:23 • Atualizada em 16 de abril de 2020 - 11:06

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Fila para distribuir alimentação para pessoas desempregadas ou em situação de rua em Los Angeles: covid-19 atinge mais comunidades negras e pobres e realça desigualdades (Apu Gomes/AFP)

*Grace A. Noppert

À medida que a pandemia da covid-19 continua avançando, de forma devastadora, nos Estados Unidos, surge uma história nada surpreendente: comunidades pobres são focos críticos de a transmissão do novo coronavírus. A taxa de mortalidade por covid-19 parece ser incrivelmente alta entre os afro-americanos em comparação com os brancos. O jornal Washington Post relata, por exemplo, que enquanto 14% da população de Michigan é negra, 40% das mortes por covid-19 neste estado estão entre os negros.

Esse é um padrão familiar para uma epidemiologista de doenças infecciosas e sociais como eu. São evidências de séculos de segregação e discriminação que colocaram pessoas afro-descendentes desproporcionalmente em comunidades sem acesso a cuidados de saúde, lotadas, com condições de vida degradadas e com a falta de oportunidades básicas para seu bem-estar. No contexto da atual pandemia, é mais provável que os negros tenham empregos com baixos salários que não permitam opções remotas de trabalho ou ofereçam seguro de saúde ou licença médica remunerada. O resultado de séculos de marginalização pela sociedade americana aparece de maneira mais óbvia numa crise de saúde.

Os pobres e marginalizados já carregam injustamente o fardo de outras doenças como asma, certos tipos de câncer, derrame e doenças cardiovasculares. Essa pandemia em andamento parece não ser diferente. E a pobreza nos EUA está muito ligada à raça e etnia. Em 2018, 11% dos brancos tinham renda familiar abaixo do nível federal de pobreza, em comparação com 23% dos negros e 19% dos hispânicos. Negros e latinos também também têm maior probabilidade de viverem em comunidades de baixa renda com falta de acesso a recursos básicos para saúde e bem-estar.

A ligação entre pobreza e doenças infecciosas está bem documentada. As hospitalizações relacionadas à gripe em bairros de baixa renda são quase o dobro dos bairros de alta renda. As internações pediátricas por pneumonia bacteriana são significativamente maiores em bairros de baixa renda em comparação com bairros de alta renda. O mesmo ocorre em grande parte com a tuberculose nos EUA, onde a sua transmissão ativa está em andamento em bairros pobres – em padrões que não se devem simplesmente ao maior número de pessoas que vive nessas áreas.

A tuberculose, em particular, há muito está ligada à situação socioeconômica. Mesmo diante de uma epidemia generalizada de tuberculose nos EUA no início dos anos 1900, havia um padrão notável em que pessoas afro-descendentes, imigrantes e aqueles que viviam em ambientes pobres tinham mais probabilidade de serem infectados com tuberculose e uma probabilidade muito menor de receber cuidados. Nós que estudamos o ônus da doença sobre os pobres temos visto o mesmo padrão básico nos EUA de hoje. Pessoas com tuberculose geralmente vêm de ambientes de extrema desvantagem socioeconômica. Bairros pobres e pessoas negras e hispânicas continuam a carregar, de maneira desproporcional, o fardo da tuberculose entre os indivíduos nascidos nos EUA.

Bairro pobre de Detroit, no estado do Michigan: 14% da população estadual é negra, mas 40% das mortes por covid-19 estão entre os negros (Foto: Jeff Kowalsky/AFP)
Bairro pobre de Detroit, no estado do Michigan: 14% da população estadual é negra, mas 40% das mortes por covid-19 estão entre os negros (Foto: Jeff Kowalsky/AFP)

O caso marcante da tuberculose

O caso da tuberculose oferece um ponto de vista único para entender como essas desigualdades emergem. Os processos que operam em nível social, como a segregação residencial, estão em funcionamento desde o início do século XX. Esses processos colocaram sistematicamente populações de minorias étnicas e raciais em comunidades de baixa renda com menos recursos e mais exposição a riscos ambientais.

Os esforços de renovação urbana e desenvolvimento no século passado beneficiaram sistematicamente os brancos, deslocando ainda mais as comunidades negras e hispânicas. Isso resultou em comunidades com maiores proporções de moradias de baixa qualidade e pobreza, com implicações diretas no risco subseqüente de doenças infecciosas. Assim, populações não brancas são indevidamente colocadas em ambientes que aumentam a exposição a patógenos infecciosos, como Mycobacterium tuberculosis (o patógeno causador da tuberculose), e limitam a capacidade dos indivíduos de acessar cuidados de saúde para minimizar os efeitos da doença.

A falta de recursos também significa que as comunidades de baixa renda têm maior prevalência de condições crônicas. Por exemplo, bairros de baixa renda com acesso reduzido a alimentos saudáveis e menos oportunidades de atividade física apresentam taxas mais altas de pressão alta, obesidade e diabetes. Essas condições crônicas geralmente resultam em imunidade comprometida, tornando os indivíduos mais vulneráveis a doenças infecciosas – como é o caso, já provado hoje, da covid-19.

Um dos efeitos de viver em uma comunidade de baixa renda é o número crônico de estresse no corpo, particularmente no sistema imunológico. A desvantagem socioeconômica – por meio de discriminação, instabilidade no trabalho e na habitação e insegurança alimentar – resulta no aumento do estresse. Esta exposição ao estresse é biologicamente pesada para o corpo. As doenças infecciosas, como a tuberculosa ou a covid-19, podem prosperar mais facilmente entre as populações que vivem em comunidades de baixa renda, devido ao aumento da exposição a patógenos infecciosos e à capacidade reduzida dos indivíduos de combater infecções.

Hora de mudar é agora

A covid-19 parece estar seguindo uma trajetória semelhante, embora amplificada, a da tuberculose. Se não agirmos, as desigualdades que vemos hoje só aumentarão nos próximos meses e anos. Pessoas não-brancas continuam enfrentando discriminação nos mercados de habitação e de trabalho. Por exemplo, ainda existem práticas de “linha vermelha” (nos anos 1930, 239 cidades americanas usavam cores para definir suas áreas urbanas – a vermelha significava área de risco, onde os moradores tinham mais dificuldade de conseguir crédito para comprar casas ou outros bens -nota do tradutor) – embora de maneiras mais sutis, como evidenciado pelo aumento das práticas predatórias de empréstimos e diminuição do acesso a bens e serviços em bairros de minorias. O desinvestimento nessas comunidades criou espaços e lugares onde a vida das pessoas tem valor desigual, onde é permitido que algumas pessoas não tenham acesso aos recursos para levarem vidas saudáveis.

Embora epidemias de doenças infecciosas como a tuberculose, ou agora a covid-19, possam indubitavelmente criar disparidades na saúde, elas certamente exacerbam as já existentes, afastando as cortinas das conseqüências da desigualdade com a qual todos nos acostumamos. A pandemia de covid-19 nos oferece um momento para prestar atenção a essas desigualdades. Focos de transmissão do novo coronavírus, em qualquer comunidade, mantêm vivo o risco de uma epidemia duradoura para todas as comunidades.

Eu acredito que deve ser uma alta prioridade para os formuladores de políticas públicas formar parcerias com profissionais de saúde locais e organizações comunitárias para fornecer às comunidades de baixa renda recursos para lidar com esta epidemia. Essas intervenções devem reduzir ou eliminar o custo dos testes e tratamento e oferecer apoio social e econômico às famílias que podem precisar de tempo longe do trabalho para tratamento médico ou que perderam o emprego por causa da covid-19. Finalmente, à medida que se desenvolvem as possibilidades de tratamentos e vacinas, é necessário estabelecer planos que entreguem esses benefícios às comunidades de baixa renda primeiro – e não por último.

*Grace A. Nopper é especialista em Epidemiologia, pesquisadora do Centro de População de Carolina, na Universidade da Carolina do Norte (EUA)

Tradução: Oscar Valporto

The Conversation

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