A cara da fome em tempos de pandemia

Vivian da Silva Borges tem 23 anos e mora com os três filhos no Parque das Missões, em Caxias: “Já passei muitos perrengues, sem trabalho e sem comida, mas agora melhorou um pouco porque comecei a fazer trancinhas e consigo dinheiro pro pão, leite, mistura e carne”. Foto João Roberto Ripper. Março/2021

Ação da Cidadania promove pesquisa em 12 comunidades do Rio e lança livro com 300 fotos. Trabalho será estendido a outras regiões do país

Por Ligia Coelho | ODS 1 • Publicada em 30 de março de 2021 - 10:56 • Atualizada em 13 de julho de 2021 - 08:57

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Vivian da Silva Borges tem 23 anos e mora com os três filhos no Parque das Missões, em Caxias: “Já passei muitos perrengues, sem trabalho e sem comida, mas agora melhorou um pouco porque comecei a fazer trancinhas e consigo dinheiro pro pão, leite, mistura e carne”. Foto João Roberto Ripper. Março/2021

(Com fotos de João Roberto Ripper, Sara Gehren e Breno Lima)

Que rosto tem a fome? Como vivem, sobrevivem e sonham homens, mulheres e crianças que passam fome no Brasil? Como é acordar de manhã sem saber se terá algo com que se alimentar ao longo do dia? Essas são algumas reflexões que motivaram a Ação da Cidadania, uma das organizações sociais mais respeitadas do País, a produzir um livro documentário sobre a fome nesses tempos de pandemia.

Inicialmente centrado em 12 comunidades pobres do Rio de Janeiro e Região Metropolitana, entre favelas, bairros de periferia e assentamentos, o trabalho, em uma segunda etapa, será estendido às demais regiões do Brasil. A documentação foi realizada nos primeiros meses deste ano e envolveu três fotógrafos e dois pesquisadores. O livro foca apenas o registro feito no Grande Rio, com previsão de ser lançado ainda neste semestre. O lançamento será acompanhado de uma exposição virtual, seguida de uma mostra no próprio armazém da Ação da Cidadania, na zona portuária do Rio.

Jandira Maria da Silva vive na Vila Central, em Queimados, na Baixada Fluminense. Foto Sara Gehren. Março/2021
Jandira Maria da Silva vive na Vila Central, em Queimados, na Baixada Fluminense. Foto Sara Gehren. Março/2021

“Quando se fala em fome, ressaltamos sempre números, percentuais. Mas é preciso mostrar os rostos, as histórias e as trajetórias das pessoas que sofrem com a fome” – afirma Daniel Souza, da coordenação nacional da ONG. Filho do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, Daniel deu continuidade ao trabalho do pai, idealizador e fundador da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida. A campanha foi criada em 1993 e inspirou iniciativas governamentais bem-sucedidas e reconhecidas em todo o mundo, como o Bolsa Família e o Fome Zero, projetos responsáveis por tirar o Brasil do Mapa da Fome, indicador criado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Com o lançamento do livro, o que se pretende, além de traçar o perfil da fome no Rio de Janeiro, é chamar a atenção para o flagelo que voltou com força ao País, nos últimos anos.

Os autores três fotógrafos documentaristas contratados pela Ação da Cidadania, João Roberto Ripper, Sara Gehren e Breno Lima – registraram mais de mil imagens, das quais 300 foram selecionadas. “É um trabalho super-rico, em termos de texto e imagens, sobre a fome no Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, tambor do Brasil”, salienta Daniel. O registro fotográfico foi acompanhado pelos pesquisadores Thaís Assumpção e João Gabriel Malaguti. Thaís é doutoranda da Escola Nacional de Ciência Estatística do IBGE, bióloga, com mestrado em Filosofia da Ciência. Seu trabalho foca a questão ambiental atrelada à questão alimentar.

Graduado em Estatística pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestrando da Escola Nacional de Ciência Estatística do IBGE, Malaguti auxiliou a pesquisa com a produção de um roteiro de perguntas que serviram de base para o trabalho dos demais profissionais e para a consolidação das respostas em um relatório final.

Coube a Breno Lima, também designer de livro, a tarefa de finalizar a obra. A fotógrafa Sara Gehren é também socióloga e João Roberto Ripper é jornalista, com longa trajetória como repórter fotográfico e documentarista dos movimentos sociais.

Rosilene é uma das personagens do livro documentário sobre a fome nesses tempos de pandemia. Foto Breno Lima. Fevereiro/2021
Rosilene é uma das personagens do livro documentário sobre a fome nesses tempos de pandemia. Foto Breno Lima. Fevereiro/2021

O Brasil de volta ao Mapa da Fome

Em 2014, após uma série de ações e iniciativas do governo e da sociedade civil, o Brasil comemorou a sua saída do Mapa da Fome. Em 2018, porém, voltou a fazer parte desse triste indicador. Segundo Thaís, sua pesquisa traça uma espécie de linha do tempo da fome no Brasil nos últimos 20 anos e busca responder à seguinte pergunta: “por que o País levou tanto tempo para sair do Mapa da Fome e voltou para ele em tão pouco tempo?”

Ela explica que, teoricamente, o Brasil ainda está fora do Mapa da Fome. Mas esclarece que, na prática, não é o que ocorre. Isso porque os dados da ONU se baseiam em censos, e, no Brasil, o último censo data de 2010, pois, devido à pandemia, o de 2020 não foi realizado.

Além disso, acrescenta, os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) e da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizadas mais recentemente pelo IBGE, comprovam que o Brasil voltou a integrar o Mapa da Fome, ao revelar um aumento substantivo desse flagelo no País.

O trabalho dos cinco profissionais foi realizado nas comunidades da Providência e na ocupação “Ocupa Elma”, na Gamboa, Centro do Rio; também foram visitadas comunidades no complexo da Maré, na Cidade de Deus, na Baixada Fluminense, e em um assentamento rural de Nova Iguaçu.

Pandemia agravou a fome no País

O advento da pandemia, segundo Thaís, agravou a fome nas famílias brasileiras mais vulneráveis, aumentando os níveis de insegurança alimentar. “Dados da PNAD mostram taxas de desocupação de 14% entre maio e novembro do ano passado, com uma subutilização da força de trabalho da ordem de 29%”, aponta.

O auxílio emergencial concedido no primeiro ano da pandemia não foi suficiente para acabar com a fome. As pesquisas revelaram que, em novembro, nas famílias que receberam o auxílio, a média de renda mensal foi de R$ 745,00, contra R$ 1.794,00 nas famílias que não necessitaram do auxílio, atesta. Outros dados contribuíram para aprofundar o problema, entre eles o fato de crianças e adolescentes ficarem sem ir à escola, onde, antes, contavam com alimentação saudável e equilibrada.

Segundo a pesquisadora, além da pandemia, contribuíram para o agravamento da fome no Brasil o descompromisso da atual gestão e o abandono de políticas públicas voltadas para os pobres. A situação só não é mais grave devido à rede de solidariedade sustentada por ONGs e movimentos sociais, diz.

Parâmetros da FAO balizaram pesquisa

De acordo com a FAO, a insegurança alimentar se classifica em três níveis: leve, quando as famílias manifestam alguma preocupação com o medo de não ter o que comer; moderada, quando algum membro da família já teve ou tem que pular ao menos uma refeição no dia; e grave, quando algum deles já passou um dia inteiro sem fazer uma única refeição.

Esses foram os parâmetros que balizaram a pesquisa orientada pelo estatístico João Gabriel Malaguti nas 12 comunidades do Rio. Ao todo foram visitados 68 domicílios, com uma média de 4,8 pessoas cada. Em apenas dois o entrevistado não manifestou algum tipo de preocupação com uma possível falta de alimento. A mostra concluiu que a preocupação existe em 97% dos domicílios (insegurança alimentar leve). Em 31%, constatou-se insegurança alimentar moderada e em 20%, insegurança alimentar grave.

Idade, número de filhos, número de pessoas na família e questões relacionadas a trabalho, emprego e desemprego, auxílio emergencial e doações de cestas básicas foram outros pontos abordados.

Continuidade O trabalho iniciado no Rio pela Ação da Cidadania deverá se expandir a outras regiões do País. A ideia é estender a pesquisa a pelo menos um estado por região. Segundo Thaís Assumpção, Roraima deverá ser um dos estados visitados. Lá, diz, certamente vão surgir situações diferentes, envolvendo populações de refugiados, indígenas e quilombolas.

Ligia Coelho

É jornalista há mais de 40 anos. Entre outros veículos, passou pelo jornal Última Hora, TV Manchete e assessorias de imprensa. Trabalhou como jornalista concursada da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de onde se aposentou após dez anos. Em 2002, venceu o Concurso de Monografias Giovanni Falcone, na categoria jornalista, promovido pela Associação de Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), sobre o tema “Direito à privacidade e liberdade de expressão”.

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