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O último táxi

O dia em que o Uber e os outros aplicativos acabaram com a categoria


A foto com as bananas também foi ideia do pessoal do marketing. Foto JAG IMAGES / Cultura Creative
A foto com as bananas também foi ideia do pessoal do marketing. Foto JAG IMAGES / Cultura Creative

Os passageiros, mal disfarçando o riso, perguntam o que acho do Bolsonaro. Sou filiado ao PSTU, sempre votei na esquerda, prefiro enfiar um lápis no olho e rodar a votar num reacionário. Antes de responder olho pelo retrovisor: dois rapazes de barba cheia, cabelo raspado nas laterais, óculos de aro grosso. Já sei o que eles querem ouvir. Me exalto e começo a gritar:

– É o único que vai dar jeito nisso aí! Tem que enquadrar esses bandidos, esses gays, essas vagabundas! Acabar com essa pouca vergonha toda!

Os dois sorriem satisfeitos. Ficam em Ipanema.

Na Gávea, pego uma moça de cabelo azul com uma tatuagem na testa. Acho que já a vi num programa na TV a cabo. Ela quer ir no Mercadão de Madureira. Nunca foi, senão diria só Mercadão. Também não iria na hora do rush. Me pergunta se o subúrbio mudou, se está diferente. Muito, digo. Quer saber há quanto tempo estou na praça. Quarenta anos, respondo. “O senhor deve ouvir muitas histórias…” Conheço essa deixa, é a hora da ficção. Invento histórias sobre um subúrbio idílico, sambistas de sapato bicolor, crianças jogando bolinha de gude, conversas de comadres na porta da vila. Ela sorri e anota tudo o que digo com sofreguidão. Pergunta sobre Cartola, Candeia, Madame Satã. Um samba do crioulo doido.

Já sei que a verei de novo na TV, falando sobre o novo livro.

Há algum tempo sou o último táxi do Rio de Janeiro. A concorrência com o Uber e outros aplicativos acabaram com a categoria. A prefeitura, preocupada com o marketing, decidiu me subvencionar. Fui tombado como “Patrimônio imaterial do Rio de Janeiro”, junto com o biscoito Globo e alguma música do Tom Jobim de que não me lembro agora. Também me pediram para trocar o Corolla novo por um Meriva velho e com ar-condicionado quebrado. Foi outra ideia do marketing. “as pessoas querem reviver a “experiência” do táxi” explicou o coxinha, “quente desconfortável, com motorista…ahnnn… rude”. Sutileza não é o forte dos almofadinhas marqueteiros.

Tanto faz.

Também por imposição da prefeitura tive que deixar de ouvir a MEC FM e passei para as rádios evangélicas. “Em volume alto, por favor”, faz questão de frisar o coxinha. Deve ter razão, tem gente que me dá nota de cem para pagar corrida de dez só pra ver se saio do sério, querem ter histórias pra contar no bar com os amigos. Todo mundo fala em se reinventar. Foi o que fiz, era taxista agora sou uma caricatura ambulante.

No centro pego um senhor de terno. Começamos a conversar.

– Difícil conseguir um táxi…

– Este é o último

– Força de expressão?

– Não. Literalmente

– Que pena… sou funcionário de um escritório contábil. Entro às nove, saio às seis. Casado há trinta anos. Dois filhos. Todo dia tudo igual. Meu sonho sempre foi ser livre como um táxi.

Sorrio pelo retrovisor.

Os barbudos, a tatuada e o coxinha nunca entenderiam.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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