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A encantadora de turistas

Moradora guia visitantes nas vielas da Santa Marta, quebrando estereótipos pelo caminho


Nascida e criada no Santa Marta, Sheila Souza é ativista social, graduada em turismo e fala três línguas. Foto de Elizabeth Oliveira
Nascida e criada no Santa Marta, Sheila Souza é ativista social, graduada em turismo e fala três línguas. Foto de Elizabeth Oliveira

Quando Michael Jackson fez a emblemática gravação do clipe They don’t care about us do alto da comunidade Santa Marta, em 1996, as imagens que correram mundo chamaram a atenção para a realidade local. Saltavam aos olhos as inúmeras demandas sociais não atendidas pelo poder público, apesar da localização privilegiada, em Botafogo, plena Zona Sul do Rio. Do alto do morro é possível admirar alguns dos mais famosos cartões postais da cidade, como o Cristo Redentor. Sheila Souza, nascida e criada nas ruelas da região, tinha 25 anos na época e já trabalhava como ativista social.

Trabalhamos também para que os nossos serviços não sejam confundidos com favela tour. Nada contra essa prática, mas são formas diferentes de atuação. A nossa proposta tem uma carga social muito forte e para nós a favela é muito mais do que um atrativo

Sheila Souza
Turismóloga

Em 20 anos, a comunidade se tornou, gradativamente, alvo de interesse turístico depois de ter passado por experiências pioneiras de urbanização e segurança.  Ninguém duvida que a repercussão causada pela passagem do rei do pop deu um empurrãzinho nesse processo de melhoria da infraestrutura local. A trajetória de Sheila também passou por muitas mudanças, a começar pelos avanços profissionais que garantiram um novo fôlego para o ativismo social na Santa Marta. Graduada em Turismo, com MBA em Turismo e Negócios, ela idealizou e lançou, em 2010, a empresa Brazilidade, uma iniciativa pioneira de turismo comunitário em favela.

“A maior dificuldade foi transformar as ideias iniciais em negócio”, conta. Segundo ressalta, a proposta só deslanchou depois de ter participado da primeira turma de empresas incubadas no Projeto Rio Criativo.  A partir dessa oportunidade, desenvolveu logomarca e plano de negócio, criou site, além de passar a entender melhor de questões mercadológicas.

A destinação correta do lixo continua sendo um dos grandes problemas da comunidade. Foto de Elizabeth Oliveira
A destinação correta do lixo continua sendo um dos grandes problemas da comunidade. Foto de Elizabeth Oliveira

A alta demanda de turistas estrangeiros confirma a visibilidade global conquistada pela  comunidade. Mas aos olhos da turismóloga, a quebra do estereótipo de favela como ambiente de miséria e criminalidade ainda representa um grande dilema.  Parte desse desafio, assumido como um compromisso pessoal desde a juventude, ela transferiu para a missão da Brazilidade.

“Enfrentamos muitas dificuldades e abordamos a nossa realidade de maneira clara para os visitantes, mas também contextualizamos os fatos a partir da perspectiva de quem vive aqui e conhece tanto os problemas, como as potencialidades locais. Como a nossa marca é o ativismo social, as pessoas enxergam beleza na forma de apresentar a comunidade”, observa.

Atuando como liderança comunitária, a trajetória de Sheila começou com o trabalho de mobilização dos moradores para a busca de soluções dos problemas locais no início da década de 1990. O desejo de aprimoramento pessoal impulsionou o intercâmbio de ideias e de informações com integrantes de outros grupos e redes. Comunicativa, logo se tornou referência na recepção de visitantes na Santa Marta, incluindo estrangeiros. Assim precisou mergulhar no aprendizado de outros três idiomas nos quais se tornou fluente (inglês, alemão e espanhol), o que lhe abriu novas alternativas de participação em eventos internacionais para contar a experiência desenvolvida na comunidade carioca.

Tentando fazer diferente

O forte do trabalho é a indicação de quem já passou pela experiência e a recomenda para amigos e parentes. “Não faço panfletagem na rua. Atendo somente por agendamento no site”, esclarece a turismóloga. A demanda que não para de crescer começou sendo formada, principalmente, por grupos de visitantes europeus e, aos poucos, foi mobilizando também brasileiros.

Se você olha para uma casa da favela, aquela não é apenas uma estrutura estática. Ali dentro tem uma família que certamente vai te oferecer um café

Sheila Souza
Turismóloga

Os passeios duram duas horas, mas nenhum guiamento é igual a outro, segundo afirma.  As questões a serem discutidas e os locais visitados geralmente variam de acordo com a formação dos visitantes. Alguns querem saber mais sobre os aspectos sociais, outros sobre o histórico da ocupação e a forma de construção das moradias. Turmas de jovens também se interessam pela produção cultural local.

Nas palestras associadas à experiência de visita à Santa Marta também são abordadas as contradições sociais. Uma das mais evidentes, na opinião da turismóloga, se refere à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), a primeira a ser instalada em uma comunidade no Rio, em 2008, e que ocupou um imóvel onde funcionaria uma creche. Essa demanda local, por sua vez, permanece sem ter sido atendida, embora represente uma grande prioridade para os moradores.

Mas, entre a discussão dos problemas reais e a descoberta de potencialidades locais, surpresas também acontecem com frequência durante os passeios. Sheila conta que recentemente foi visitar um hostel com dois turistas italianos e eles acabaram sendo convidados pelo proprietário para comer uma feijoada. Isso não estava planejado, mas o convite foi aceito e os visitantes se encantaram com a espontaneidade da experiência.

Como o resgate de animais e o encaminhamento para a adoção fazem parte das atividades sociais que Sheila desenvolve, no dia da realização desta entrevista, a conversa foi interrompida pelo encontro surpresa com um cachorro que ela resgatou quando filhote e que a reconhece até hoje. “Por isso os turistas dizem que se sentem como se fossem locais comigo. Estou guiando e interagindo o tempo todo”, observa com bom humor.

Apesar de algumas vitórias alcançadas, a turismóloga reconhece que quebrar barreiras sociais não representa uma tarefa fácil, principalmente porque demanda ações de longo prazo. “Trabalhamos também para que os nossos serviços não sejam confundidos com favela tour. Nada contra essa prática, mas são formas diferentes de atuação. A nossa proposta tem uma carga social muito forte e para nós a favela é muito mais do que um atrativo”, ressalta. Na busca por uma interação mais humanizada entre visitantes e moradores, Sheila acrescenta que o importante é valorizar a identidade local: “Se você olha para uma casa da favela, aquela não é apenas uma estrutura estática. Ali dentro tem uma família que certamente vai te oferecer um café.”

O serviço de entrega de correspondências dos moradores com gavetas coloridas organizadas por ordem alfabética. Foto de Elizabeth Oliveira
O serviço de entrega de correspondências dos moradores com gavetas coloridas organizadas por ordem alfabética. Foto de Elizabeth Oliveira

Nessa perspectiva, um dos acordos com os visitantes é para que não fotografem os moradores e suas residências, em respeito à privacidade dos que nem sempre desejam servir de personagens das imagens alheias. A orientação é bem aceita e as fotos, em geral, são dos grupos com a turismóloga, sem closes exagerados na vivência da comunidade.

Sheila também deixa a critério do visitante o preço a ser pago pelo passeio e considera que nunca deixou de receber um retorno justo pelo seu trabalho, cada vez mais valorizado pelos turistas mais identificados com esse tipo de vivência cultural.

Como forma de ampliar o legado da Brazilidade, parte dos recursos arrecadados com as atividades de turismo desse empreendimento social é destinada à Associação de Moradores, onde diversas ações são mantidas, incluindo um serviço de entrega de correspondências dos moradores com gavetas coloridas organizadas por ordem alfabética.

Os próximos passos

Em 2016, a Brazilidade passou a receber consultoria da Social Starters, organização britânica que apóia ações de empreendedorismo social globalmente. Como parte do planejamento, a turismóloga adianta que pretende trabalhar com voluntários e está sendo orientada para esse objetivo.

Aprimorar o material de divulgação também faz parte dos planos. Isso envolve a reformulação do site para deixar ainda mais claro o modelo de turismo proposto. “Construir uma Declaração de Posicionamento é parte do processo”, comenta.

Em 2017, como parte das mudanças no processo de comunicação, Sheila também quer divulgar mais amplamente as manifestações culturais locais. “Aqui é um espaço vivo e pulsante que a todo tempo está se transformando. Precisamos acompanhar e dar mais voz aos protagonistas desse movimento”, conclui.


Escrito por Elizabeth Oliveira

Elizabeth Oliveira

Jornalista apaixonada por temas socioambientais. Fez doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED), vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, e mestrado em Ecologia Social pelo Programa EICOS, do Instituto de Psicologia da UFRJ. Foi repórter do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e colabora com veículos especializados, além de atuar como consultora e pesquisadora.

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