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A terra dos sabores desconhecidos

Em um sítio, em Xerém, são cultivadas mil espécies de frutas comestíveis


Geniparana: uma das mil espécies de frutas comestíveis cultivadas no E-Jardim. Foto: Caio Ferrari

Conhece o mapati? E o puruí? Ao menos ouviu falar do cambucá ou da Geniparana? Essas são algumas das frutas nativas brasileiras que o carioca Marco Lacerda cultiva no viveiro E-Jardim, em Xerém, distrito de Duque de Caxias. Quase metade do sítio de 10 hectares, que ele herdou da família, é coberta por árvores e arbustos frutíferos. O clima é frio e úmido, bem parecido com o da Serra Fluminense. Das cerca de 3 mil espécies, 1/3 é comestível – pois é, são cerca de mil frutas que a maioria dos brasileiros desconhece. Lacerda, ao contrário, é perito em cada galhinho que cresce por ali. Coautor do livro Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas (Plantarum), ele sabe de cor o nome científico de cada uma. “Sempre gostei de frutas. Lembro que meu pai já levava espécies amazônicas para casa e que minha avó, que tinha quintal, amava cambucá.”

Cambucás e cambucis: sabores pouco conhecidos. Foto: Caio Ferrari

É preciso percorrer a propriedade na companhia de Lacerda para enxergar – e aproveitar – tamanha diversidade. Ele é capaz de ensinar que a flor do ipê roxo tem gosto de alface; que a flor da couve-d’água fica uma delícia empanada e frita; que a sapucaia dá castanhas deliciosas; ou que o tucum é um coquinho que se come que nem jabuticaba.

Diante do pé de frutas-do-milagre, os visitantes dificilmente escapam de uma pegadinha: Lacerda faz com que provem os pequeninos frutos vermelhos e, poucos minutos depois, os desafia a chupar um limão. As caras de surpresa são inevitáveis. “A fruta-do-milagre bloqueia as papilas gustativas que percebem o sabor ácido por cerca de 15 minutos. Depois de comê-la, qualquer um chupa limão e acha uma delícia”. Ele também se enche de orgulho ao exibir a suculenta superguabiroba, uma novidade no mundo da botânica. “Trata-se de uma espécie nativa da Mata Atlântica que acaba de ser descoberta e sequer recebeu nome científico. Parece um cambuci, mas com mais polpa e menos acidez.”

Flor de jabuticaba: o sítio tem mais de 50 tipos da fruta. Foto: Caio Ferrari

Sua maior paixão, no entanto, são as jabuticabas. Comuns demais? Pois saiba que ele cultiva 50 variedades – isso mesmo, meia centena. Tem jabuticaba de casca peluda, jabuticaba branca, listrada de branco e vermelho e até tamanho gigante, como uma bola de ping-pong. “Comecei a pesquisa em 2001, mas a coleção cresceu mesmo entre 2006 e 2008, quando o Harry Lorenzi, coautor do livro sobre frutas, me convidou para fazer expedições botânicas pelo Brasil e descobrir novas variedades”, conta Lacerda.

Produzidas em escala reduzida, as frutas do viveiro E-Jardim ainda não chegam ao mercado regular. Durante o segundo semestre de 2016, Lacerda até formou uma bem-sucedida parceria com a chef vegetariana Inês Braconnot, que passou a adquirir alguns de seus produtos para o restaurante de comida crua Ró, no Jardim Botânico – mas a casa subitamente encerrou as atividades no fim de dezembro. Enquanto procura um novo cliente disposto a fazer experimentos culinários com frutas nativas, o produtor estuda formas de receber mais visitantes. “Eu e a Inês estamos planejando receber grupos para passeios pelo sítio, seguidos de oficina com degustação e preparação de pratos”, anuncia Lacerda. A quem quiser iniciar o próprio pomar, o produtor também vende mudas de plantas frutíferas pelo site www.e-jardim.com – os preços variam entre R$ 20 e R$ 30.

Marco Lacerda e a chef Inês Braconnot: plano de receber grupos no E-Jardim, com oficinas de degustação. Foto: Caio Ferrari

Escrito por Flávia G. Pinho

Flávia G. Pinho

Flávia G Pinho trocou o Rio de Janeiro por São Paulo há 17 anos e desconfia que não volta mais. Jornalista especializada em gastronomia, já escreveu três livros, teve duas filhas e plantou uma árvore. Passou por algumas das maiores redações do Brasil (quando ainda eram grandes) e hoje atua como freelancer, escrevendo sobre a parte mais gostosa da cozinha – a comida de verdade que brota das lavouras familiares, das pequenas criações de animais e das fabriquetas artesanais Brasil afora.

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