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Procura-se um lar para ‘crianças’ especiais

Abandonadas por famílias, pessoas com deficiência são criadas dentro de abrigos, com chances mínimas de adoção


Crianças especiais abandonas pela família passam suas vídas em abrigos, com chances mínimas de adoção (Foto Beatriz Basto)

Gustavo tem por volta de 1,60m de altura, cabelo bem curto e rosto liso. Seu olhar pode passar a sensação de que ele é um garoto triste, mas a impressão logo passa. O que mais chama a atenção no jovem é o seu carinho – em alguns momentos, excessivo – com outras pessoas. Gosta sempre de apertar a mão e dar abraços em quem acaba de conhecer, mesmo que a pessoa não esteja muito aberta a contato: “Às vezes me dão um fora quando eu abraço”, conta rindo. Um de seus brinquedos favoritos é um urso de pelúcia rosa, com quase metade do seu tamanho. “Ele usa laço rosa no pescoço. Nas mãos e nos pés têm uma parte marrom. É um ursão”, descreve com entusiasmo. Uma das certezas do rapaz é a paixão pelo lugar onde mora: “Sou muito querido aqui. Nunca vou querer morar em outro lugar. É o melhor lugar do mundo”.

Sou muito querido aqui. Nunca vou querer morar em outro lugar. É o melhor lugar do mundo

Gustavo, 31 anos
Sofre de déficit mental

Gustavo tem déficit mental, e os médicos trabalham com a hipótese de que apresente traços psicóticos. Aos 31 anos, sente-se e vive como uma criança: “Eu amo ser criança, brincar, me divertir e estudar. Não tem nada melhor”. Ele tinha 15 anos quando chegou ao Centro de Integração ao Portador de Deficiência Professor Almir Ribeiro Madeira, um abrigo que é, pelo menos em teoria, para pessoas com deficiência física e mental com idades entre 0 a 18 anos. Apenas em teoria, porque 70% dos moradores já passaram dessa idade.

Poucos lares para maiores

O centro fica em Barreto, Niterói, no Estado do Rio, e pertence à Fundação para Infância e Adolescência (FIA), ligada à Secretaria de estado de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social. Atualmente, 24 jovens vivem no abrigo e a capacidade do lugar é de 33 pessoas. Além de Gustavo, 16 já passaram dos 18 anos, e apenas sete têm entre 0 e 18 anos. A assistente social Elisangela do Carmo afirma que o abrigo realiza um trabalho em conjunto com o Ministério Público a fim de achar outro lar para os jovens que já passaram dos 18 anos. Segundo ela, no entanto, a tarefa é difícil, pois a maioria está lotada, e alguns acabaram fechando por causa da crise financeira.

“Há poucos lugares adequados e com condições para as crianças. Deveria ter mais abrigos. É muito triste, têm muitas pessoas em condições ruins precisando de um lugar”, diz Elisangela, funcionária da Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEDHA), ONG que trabalha em parceria com a FIA. Além dela, há mais funcionários que são da AEDHA e prestam serviço no abrigo, como duas fisioterapeutas, uma fonoaudióloga, algumas assistentes de enfermagem e outros. Ao todo, são mais de 30.

Uma das moradoras do abrigo em hora de estudo (Foto Beatriz Bastos)
Uma das moradoras do abrigo em hora de estudo (Foto Beatriz Bastos)

De acordo com a secretaria, esse é o único abrigo sob a gestão da pasta para menores de idade com deficiência. Para quem tem 18 anos ou mais, há seis abrigos. O mais próximo é o Lar Maria de Lourdes, localizado na Taquara, em Jacarepaguá. Eles não são capazes de informar, porém, o número de vagas de cada um, nem se estão lotados, porque, segundo a pasta “a quantidade de vagas de cada abrigo varia de acordo com a rotatividade dos abrigados, devido aos possíveis reingressos familiares, encaminhamentos através dos Conselhos Tutelares, Vara da Infância, e outros órgãos”. Essa distância entre os abrigos, segundo Marcio Henriques, subdiretor do CICAPD Professor Almir Ribeiro Madeira, é outro dos problemas: “A intenção do juiz da comarca daqui de Niterói é mantê-los perto da sua família, do lugar que já conhecem. Então, não é bom afastá-los”.

Eu vou à escola, quando volto brinco aqui com minhas bonecas ou lá fora no pátio. Quando a gente sai é muito legal também. Adoro assistir a peças de teatro

Mariana, 17 anos
Tem problemas de mobilidade

O local tem cozinha, refeitório, um espaço para fisioterapia, enfermaria, sala pedagógica, uma área externa com brinquedos, outras salas onde trabalham os funcionários e dois dormitórios. Em um deles, ficam os jovens mais independentes, que conseguem andar sozinhos. No outro, os que necessitam de auxílio para se locomover. Mariana, de 17 anos, é uma das que dormem nesse espaço. Tem cabelo preto curto cacheado e conta ser vaidosa. Sempre que pode, está com as unhas pintadas: “As cores de que eu mais gosto são o rosa e o vermelho”. A jovem chegou ao abrigo há 10 anos e diz gostar de morar lá, principalmente por causa da rotina: “Eu vou à escola, quando volto brinco aqui com minhas bonecas ou lá fora no pátio. Quando a gente sai é muito legal também. Adoro assistir a peças de teatro”. Além da deficiência física que a impede de andar e a obriga a usar cadeira de rodas, ela tem déficit intelectual. Com dificuldade para falar e concatenar as ideias, demonstra timidez na primeira vez que interage com alguém. Mas basta a conversa começar a fluir para passar a contar sobre si com empolgação, como em uma tarde em que estava brincando e ouvindo um DVD do Luan Santana: “ele é o meu cantor preferido. Aliás, ele e a Anita. Eu sempre peço para colocarem música enquanto brinco”.

É uma responsabilidade muito grande lidar com pessoas que pedem ajuda com o olhar. Trabalhar aqui é uma sensação de realização

Eliete Fernandes
Enfermeira

Duas meninas não dormem em nenhum desses dois dormitórios. O estado delas é mais delicado, por isso precisam de mais atenção. Uma das jovens tem hidrocefalia, respira por aparelhos e se alimenta por sonda, mas está passando por um processo de adaptação para conseguir comer alimentos pastosos. Segundo o subdiretor Marcio, ela chegou ao abrigo há 11 anos e tinha um diagnóstico de que só viveria mais 4, no máximo. Para a enfermeira Eliete Viana, de 52 anos, o trabalho é de constante comprometimento: “É uma responsabilidade muito grande lidar com pessoas que pedem ajuda com o olhar. Trabalhar aqui é uma sensação de realização”.

O abrigo existe desde 1997 e, a partir de 2001, Maria Angélica Peixoto, de 63 anos, tornou-se a diretora. Ela é formada em psicologia e admite que o trabalho não é simples. Maria Angélica conta algo que pode parecer estranho para quem não conhece o abrigo e as histórias de quem mora lá: “Ninguém nunca chegou aqui e teve dificuldade de adaptação. Eles não têm boas lembranças de casa, então se acostumam bem”, conta. Segundo a diretora, alguns sofreram violência doméstica, outros têm pais que não conseguiram cuidar deles e há ainda as crianças que fugiram de casa. Depois disso, alguns pais chegam a procurar os filhos, mas, diante da dificuldade de cuidar deles, preferem deixá-los na instituição e a maioria não volta para visitá-los. A diretora só se lembra de duas crianças que voltaram à antiga casa.

Apenas uma criança adotada

Pelas lembranças de Maria Angélica e Marcio, apenas uma criança foi adotada em seus quase 20 anos de trabalho: uma menina com síndrome de down que à época tinha 3 anos. O subdiretor explica que existe o trabalho de adoção, mas não é o foco do abrigo. Isso porque uma criança com deficiência requer mais gastos com alimentação, medicamentos e o tratamento em si.  “Outra coisa, quando você adota uma pessoa com deficiência, você tem que ter consciência que ela tem uma vida mais curta. Tendo tudo isso em vista, eu acabo por receber muitas ligações de pessoas com interesse em adotar, mas quando eu falo que aqui é um abrigo para pessoas com deficiência física ou mental, elas desistem”, conta Marcio, ressaltando que o objetivo do trabalho é cuidar dessas crianças e tentar reinseri-las de alguma forma na sociedade.

Uma das ideias de Maria Angélica durante sua gestão foi sugerir que os professores das escolas frequentadas pelos jovens fossem ao abrigo para poder conhecer melhor as crianças, acompanhar o tratamento e entender as necessidades delas: “Os professores que estão lá não estão preparados para cuidar deles que têm necessidades especiais. Como é que eles vão ser inseridos num lugar em que todas as pessoas são diferentes deles?”, indaga a diretora. Em alguns finais de semana, os funcionários levam os jovens ao cinema, a uma lanchonete, ao teatro ou até à Praça Enéas de Castro, que fica em frente ao abrigo.

A importância dos voluntários

Rodrigo é um dos mais empolgados com essas saídas. Sempre é lembrado por quem trabalha lá como um dos jovens mais alegres. Uma das suas atividades preferidas é jogar dominó, mas também gosta muito de ir à praça: “Quando eu vou lá, o mais legal é jogar futebol e basquete”, diz. Em um primeiro momento, assim como Mariana, tem dificuldades de conversar com uma pessoa nova, mas é só o tempo passar para que essa barreira seja quebrada. Rodrigo encantou o contador Marcos Antônio dos Santos, de 37 anos, que há cerca de um ano e meio costuma ir ao CICAPD Professor Almir Ribeiro Madeira às quintas-feiras tocar violão e cantar com as crianças. Marcos costumava levar Rodrigo à praça e jogar basquete com ele: “O Rodrigo tem um carinho enorme por mim. Me chamava de pai”.

*Os nomes dos jovens desta reportagem são fictícios para preservar as suas identidades


Escrito por Gabriel Morais

É estudante de jornalismo da ESPM e estagiário na pesquisa de um livro sobre a Lava Jato que vai ser lançado pela Cia das Letras em 2019. Foi repórter do Portal de Jornalismo da ESPM-RJ e estagiário de edição da Band.

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