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O futuro pós-capitalista já
começou, decreta livro

Jornalista britânico aponta produção colaborativa como alternativa


O touro de Wall Street em Nova York: símbolo do capiallismo
O touro de Wall Street em Nova York: símbolo do capitalismo

O jornalista britânico Paul Mason estava na porta do Lehman Brothers quando o banco declarou falência em setembro de 2008. Editor de economia do Channel 4 News, um dos principais telejornais da TV britânica,  e colunista do jornal “The Guardian”, ele registrou a cena dos funcionários que haviam acabado de perder seus empregos deixando o prédio e vagando por Wall Street com seus pertences em caixas de papelão. Era o início do pandemônio financeiro que sacudiria as maiores potências econômicas do mundo e cujas sequelas econômicas e sociais continuamos a sentir. Desde então, Mason pouco parou na Inglaterra. Percorreu o mundo para cobrir o que define como aftershocks (aqueles abalos sísmicos que se seguem a um grande terremoto) da catástrofe financeira, do movimento Occupy Wall Street à Primavera Árabe, do desemprego em massa na Espanha à depressão grega, geralmente com o foco voltado para gerações de jovens desiludidos, seja nas ruas do Brasil ou na guerra civil da Ucrânia. O balanço do que viu o levou a concluir o seguinte: o capitalismo já não pode se reiventar seguindo as mesmas regras que sempre sustentaram o sistema. Para ele, estamos entrando numa nova era, a do pós-capitalismo.

No recém-lançado livro “PostCapitalism: a guide to our future” (“Pós-capitalismo: um guia para nosso futuro”, ainda não traduzido para o português), Mason provoca a esquerda e a direita, argumentando que existe uma alternativa ao neoliberalismo, e ela não tem nada a ver com o formato conhecido de socialismo e intervenção do Estado. Para ele, o caminho para uma economia sustentável já começou a ser traçado porque as novas tecnologias da informação não são compatíveis com os modelos de negócios que pautaram o desenvolvimento da humanidade nas últimas décadas.

Estão surgindo bens, serviços e organizações que não respondem mais ao que é ditado pelo mercado e pela hierarquia gerencial. O maior produto de informação do mundo _ a Wikipedia _ é feito de graça por 27 mil voluntários, abolindo o negócio da enciclopédia e privando a indústria da publicidade de um faturamento estimado em US$ 3 bilhões

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Paul Mason

Mason acredita que a internet, ou melhor, a sociedade em rede, permite a emergência de atividades que transcendem o modelo baseado em hierarquias e monopólios. São novas possibilidades de trabalho ou de pura troca de informação que desafiam as regras tradicionais do mercado. “Vemos a emergência espontânea de uma produção colaborativa”, diz ele, acresentando: “Estão surgindo bens, serviços e organizações que não respondem mais ao que é ditado pelo mercado e pela hierarquia gerencial. O maior produto de informação do mundo _ a Wikipedia _ é feito de graça por 27 mil voluntários, abolindo o negócio da enciclopédia e privando a indústria da publicidade de um faturamento estimado em US$ 3 bilhões”, exemplifica. Em sua visão, é exatamente esse fluxo livre de informação que estaria balançando os alicerces do comércio capitalista.

O livro, que incluiu uma extensa pesquisa sobre diferentes teorias econômicas, irritou os defensores do neoliberalismo e, certamente, parece exagerado em alguns pontos, como a argumentação de que o capitalismo chegou a seu limite máximo de adaptação e já não tem solução. Mas, apesar de ressalvas, a obra foi considerada importante por diferentes críticos dos principais jornais britânicos por provocar um debate econômico mais profundo sobre a revolução tecnológica e sobre como o planeta poderia ficar menos desigual e maltratado se pudéssemos usar todo o potencial de conexão da rede para redesenhar as noções vigentes de produção, valor e relações de trabalho. Nas redes sociais, a hashtag #postcapitalism (pós-capitalismo) também tem provocado discussões acaloradas, impulsionando o livro ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos da Amazon entre as obras de economia internacional. Para Mason, a função do Estado deveria ser fornecer estrutura e serviços básicos para que os indivíduos possam inovar, graças aos benefícios trazidos pela tecnologia, sem ter que se submeter aos desmandos do mercado.

A ideia de Mason é utópica? Por enquanto sim, porque afinal de contas a revolução digital não apenas possibilita projetos sem fins lucrativos e sem um único dono, como a Wikipedia, como também fortalece o poder de novos impérios que em nada sugerem a destruição do capitalismo, como Google, Facebook e Apple, só para mencionar os mais óbvios. O autor, porém, acredita que gigantes tecnológicos não conseguirão monopolizar a troca de conteúdo para sempre. Nada disso vai se resolver de uma hora para outra, claro, mas Mason cita números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para lembrar que precisamos ter uma certa pressa em mudar o rumo das coisas ou vamos deixar um cenário caótico para as próximas gerações: de acordo com relatório da entidade divulgado em 2014, a economia mundial terá baixos índices de crescimento nos próximos 50 anos devido à desaceleração das economias emergentes, enquanto as desigualdades sociais vão crescer 40%. O resultado, em meio à queda de investimentos públicos, redução de salários e envelhecimento populacional, pode ser catastrófico, com mais conflitos, extremismo, migração descontrolada, governos arbitrários e aceleração das mudanças climáticas.

Mas antes que o leitor entre em depressão profunda, o jornalista aponta três fatores que fazem do momento atual a hora certa para buscar saídas mais sustentáveis que possam alterar esse ritmo catastrófico previsto pela OCDE. Primeiro, diz ele, novas tecnologias reduzem a necessidade de trabalho, ou seja, máquinas substituem empregos, além de embaralhar as fronteiras entre ofício e lazer. Em segundo lugar, a facilidade de acesso à informação corrói a capacidade do mercado de estipular preços. Se todo conteúdo pode ser teoricamente copiado e colado, a tendência é que seu preço fique próximo de zero. E, por fim, atividades econômicas não tradicionais começam a se proliferar como resultado da crise financeira global, entre elas moedas paralelas, cooperativas, bancos de tempo (que promovem a troca de serviços entre indivíduos sem a utilização de dinheiro) e práticas de autogestão. “Novas formas de propriedade, novas formas de concessão de empréstimos, novos contratos legais: toda uma subcultura emergiu ao longo dos últimos dez anos, o que a mídia apelidou de ‘economia compartilhada’. Termos da moda, tais como ‘bens comuns’ e ‘produção entre pares’, são atirados por todos os lados, mas poucos se preocuparam em perguntar o que isso significa para o próprio capitalismo”, escreve Mason.

Além disso, como as pessoas estão cada vez mais conectadas, revoluções, revoltas e protestos acabam explodindo mesmo quando espaços como Facebook e Twitter são censurados, lembra ele. A tecnologia reforça o apetite por mudanças, principalmente entre os jovens que não conhecem a vida sem celular. Foi assim no Irã e no Egito, por exemplo. É verdade que as revoltas do século 21 não foram adiante (“A Primavera Árabe foi suprimida, como no Egito e no Bahrain, ou engolida pelo Islamismo, como na Líbia e na Síria”, admite Mason), mas ficou comprovado que tecnologias digitais nas mãos de massas insatisfeitas podem alterar o equilíbrio de poder por meio de movimentos que nada têm a ver com o antigo conceito de luta de classes. Ou seja, estamos num momento de transição, no qual crise e avanços tecnológicos se combinam de forma inédita, tornando impossível qualquer previsão sobre o futuro. Segundo Mason, é uma revolução tão profunda quanto a ocorrida há 500 anos, na transição do feudalismo para o capitalismo que vem, desde então, atravessando diferentes ciclos e se adaptando.

Cartas no Ocupy Wall Street: movimento se espalhou pelos EUA
Cartaz no Ocupy Wall Street: movimento se espalhou pelos EUA

Aí entra a tese principal do livro: o capitalismo teria chegado agora ao limite máximo da sobrevivência, permitindo que o mundo se dê ao direito de imaginar um outro tipo de ciclo econômico, mais solidário que o atual. A Grécia forneceu, recentemente, exemplos de alternativas encontradas por cidadãos comuns para driblar a recessão, lembra o autor, mencionando pelo menos 70 projetos e centenas de pequenas iniciativas, como transportes comunitários e jardins de infância gratuitos. “Para a economia dominante, tais coisas mal podem ser classificadas como atividade econômica, mas é esse o ponto. Elas existem porque utilizam, mesmo que de forma hesitante e ineficiente, a moeda do pós-capitalismo: tempo livre, atividade em rede e serviços gratuitos”, sustenta ele.

Dividir o uso de bens e serviços não é um conceito recém-nascido, mas os avanços tecnológicos ampliam as novas formas de consumo a um nível sem precedentes, causando rupturas e, naturalmente, resistência. Basta pensar no Uber, que é bom para quem precisa se locomover por áreas urbanas e para quem tem carro particular e quer trabalhar como motorista, sem precisar de intermediários. Mas nada é tão simples assim. Não é à toa que o aplicativo é motivo de protestos em várias cidades do mundo, do Rio a Londres, onde os eficientes e lendários black cabs não aceitam a concorrência de um serviço que não é regulado pelo Estado e não se submete às mesmas regras trabalhistas e de segurança que os taxistas tradicionais.

Resumindo: economia compartilhada pode mudar o mundo, mas ela tem várias formas e a discussão é complexa. Se levará a uma ordem econômica global mais justa e sustentável, ninguém pode dizer. A favor de Mason pesa a honestidade com que admite implicar com o neoliberalismo. Ele não faz esforço algum para disfarçar suas ideologias, mas por ser uma voz influente e respeitada, de alguém que já percorreu meio mundo,  seu livro não foi ignorado nem pelos que discordam de suas posições. Tampouco é um anarquista. Acredita que inovações terão que ser combinadas com a presença de governos e corporações. Ele sabia que não haveria consenso em relação a suas ideias e nem era isso o que buscava. Quis provocar um debate sobre o futuro, com base no potencial de novas vozes e modelos. Está conseguindo e é fundamental acompanhar a briga entre os que acreditam que a tecnologia pode nos salvar e os que temem que ela apenas nos manterá rodando em círculos.

 

 


Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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