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Hambúrguer sem boi, banana em tubo de ensaio

O avanço da tecnologia na luta contra a fome e a obesidade


Em 2013, um hamburguer gerado em laboratório custava 325 mil dólares. Hoje custa 11,26 dólares. ABO / Science Photo Library
Em 2013, um hambúrguer gerado em laboratório custava 325 mil dólares. Hoje custa 11,26 dólares (Foto: ABO / Science Photo Library)

A Revolução Verde, um conjunto de novas práticas e tecnologias utilizadas na agricultura a partir de meados do século 20, pode ter salvado centenas de milhares de pessoas da fome, sobretudo na Ásia e na África. Mas a população mundial em 1960 era de 3 bilhões de habitantes, e hoje passa dos 7.5 bilhões. O modelo dá sinais de esgotamento, e 11.3% da população ainda não têm o que comer diariamente. São 805 milhões de pessoas, das quais 526 milhões vivem na Ásia. No momento, cientistas lutam contra mudança do clima, escassez de água, crescimento populacional e taxas crescentes de obesidade para alimentar o planeta. Até 2050, haverá outros 2 bilhões de pessoas necessitando de alimentos e nutrição.

Algumas das soluções são de relativa simplicidade, como a criação de fazendas verticais, com hidroponia. As plantas crescem em ambiente controlado. Lâmpadas LED podem ser utilizadas para imitar o sol e a produtividade é 75 vezes maior por metro quadrado

Cerca de 80 % das pessoas em pobreza extrema vivem em áreas rurais. A maioria delas depende da agricultura. E morrem mais pela fome do que por doenças como malária, tuberculose e Aids combinadas. Paradoxalmente, mais de um quarto da população mundial – 1,9 bilhão – está acima do peso, pelo consumo abusivo induzido pelos produtores de comida processada. Delas, 600 milhões são obesas, e a taxa cresce em ritmo acelerado. Em muitos países, mais gente morre de obesidade do que por homicídios. Enquanto isso, 16 % das colheitas são desviadas para propósitos não alimentares, como a produção de biocombustíveis, cuja demanda não para de aumentar.

Segundo estima da Organização Mundial de Alimentos e Agricultura da ONU (FAO), a desnutrição tem um custo de 3,5 trilhões de dólares por ano.  Até 2050, a produção agrícola terá de crescer cerca de 60 %. Diversos fatores colocam esta meta em risco. O desperdício atual impressiona. Um terço dos alimentos produzidos no mundo fica perdido ou é jogado no lixo. O preço disso é de 2.6 trilhões de dólares por ano, incluindo 700 bilhões de custo ambiental e 900 bilhões de custos sociais.

A edição genética de plantas, o uso de drones e tratores com sensores estão entre as novidades do setor. WLADIMIR BULGAR / SCIENCE PHOTO LI / WBU / Science Photo Library
A edição genética de plantas, o uso de drones e tratores com sensores estão entre as novidades do setor (Foto Wladimir Bulgar/Science Photo Li/WBU/Science Photo Library)

Algumas das possíveis soluções para o problema são de relativa simplicidade, como a criação de fazendas verticais, com hidroponia. As plantas crescem em ambiente controlado, o que elimina a necessidade de pesticidas em herbicidas.  Lâmpadas LED podem ser utilizadas para imitar o sol e a produtividade é muito eficiente, 75 vezes maior por metro quadrado, e o uso de água é 95 por cento menor que em colheitas tradicionais.  São, ainda, uma opção mais limpa e mais sustentável e, importante, se aproveitam de espaços urbanos.

O combate ao desperdício é fundamental. Requer mudanças em logística e armazenamento e mudança de comportamento do varejo, que escolhe apenas alimentos de estética perfeita, descartando outros que podem não parecer tão bonitos mas que têm as mesmas propriedades nutritivas. Não se deve também cozinhar mais do que vamos comer, e é fundamental comprar com mais consciência e aproveitar as sobras.

O uso de organismos geneticamente modificados (OGM) é ainda um ponto de controvérsia. Seus defensores afirmam que gera colheitas mais confiáveis e resistentes, impedindo a perda de safras. Além disso, plantas podem ser fortificadas com nutrientes para combater a desnutrição. Um dos sérios problemas aqui é um mercado controlado mundialmente por poucas corporações e o risco da eliminação paulatina da agricultura familiar, geradora de centenas de milhões de empregos sobretudo nas regiões mais pobres. De qualquer forma, e independente da escala, há que se lidar com questões que estão na raiz do problema da fome – os meios de produção e distribuição.

E começa a entrar em cena o uso de uma tecnologia de ponta inimaginável há alguns anos – a criação de carne em laboratórios. O gado é um dos maiores contribuintes das emissões de gases de efeito estufa e talvez a maior fonte de poluição da água.  Estressa os ecossistemas e é considerado uma das causas mais importantes da perda de biodiversidade. Não parece uma saída apetitosa, mas é, segundo alguns que provaram a carne assim produzida. A evolução destes esforços é notável. Em 2013, um hambúrguer gerado em laboratório custava 325 mil dólares. Hoje custa 11,26 dólares. Daqui a uns quatro anos ele poderá estar em sua mesa.

Mudar o comportamento de consumidores e agricultores não será tarefa fácil, diz Bruce Campbell, diretor do Programa de Mudança do Clima do Grupo de Consultores de Tecnologia Agrícola, uma rede global de cientistas.  Ele trabalha em laboratórios financiados pela ONU perto de Viena, onde se usa sequenciamento genético, equipamento robótico e plantas e insetos de todos os tamanhos, e tecnologia nuclear para impedir que insetos ou fungos se reproduzam e dizimem culturas como a da banana, rica em micronutrientes – as bananeiras começam sua vida dentro de tubos de ensaio.

Trabalha-se com outras inovações, como a edição genética de plantas, drones e tratores com sensores e o aproveitamento de celulares para facilitar a distribuição e a chegada de alimentos aos mercados, assim como fornecer meios de partilha de equipamentos para fazer alimentos chegarem aos mercados com a utilização de redes de telefones celulares, prática hoje disseminada na África.  No entanto, uma revolução agrícola será impossível sem um avanço em políticas e subsídios ao setor,  e o empoderamento das mulheres, que têm papel preponderante na agricultura familiar. Estamos ainda engatinhando em parte crucial do caminho, e não temos mais muito tempo para aprender a andar.


Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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