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México e Brasil: juntos na alegria, na violência e na corrupção

Adversários na Copa do Mundo, os dois países têm vários pontos em comum, da polarização entre esquerda e direita à desigualdade


Policiais patrulham a aldeia indígena Nahuatzen, no estado de Michoacan: milhares de índios bloquearam estradas em protesto contra as eleições, revoltados contra a corrupção (Foto Enrique Castro/AFP)
Policiais patrulham a aldeia indígena Nahuatzen, no estado de Michoacan: milhares de índios bloquearam estradas em protesto contra as eleições, revoltados contra a corrupção (Foto Enrique Castro/AFP)

Época de Copa do Mundo é líquido e certo. Todo dia, toda hora, um estereótipo é usado para descrever uma população. Japonês é disciplinado, argentino é raçudo, alemão é frio… até que provem o contrário. Para brasileiros e mexicanos, sobra sempre a alegria. Bobagens, por vezes racistas, à parte, talvez poucos países sejam tanto o espelho do Brasil como o México. Mas se estamos juntos na tal alegria, o mesmo vale para a tristeza. Violência, corrupção, desigualdade são alguns dos problemas comuns às duas nações, cujas seleções  se enfrentam nesta segunda (2/07), às 11h, pelas oitavas-de-final do mundial de futebol. Países de grandes dimensões, superpopulosos e pouco desenvolvidos, outros pontos menos conhecidos também nos  aproximam de nossos verdadeiros ‘hermanos’.

Eleições polarizadas. Os mexicanos foram às urnas neste domingo (1/06), apenas quatro meses antes do Brasil. E lá como cá, há uma polarização entre esquerda e direita. Já comparado a Lula, Andrés Manuel López Obrador, do partido Movimento de Regeneração Nacional (Morena), finalmente, venceu, em sua terceira corrida à Presidência. Com o crescimento da candidatura de esquerda, marcada por mensagens contra o sistema e o neoliberalismo e denunciando a “máfia no poder”, explodiu uma campanha para espalhar o medo, afirmando que AMLO promoverá uma “venezualização” do país, que teria vínculos com a Rússia e que destruirá a economia. O segundo colocado nas pesquisas era Ricardo Anaya, do conservador Partido de Acción Nacional, que, apoiado por uma coalizão, tentou se promover com um social-democrata. Com as denúncias de corrupção contra o atual governo, o candidato da situação, Jose Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional, entrou na disputa totalmente enfraquecido.

AMLO, como Obrador é chamado, comemora a vitória nas urnas (Foto Alfredo Estrella/AFP)
AMLO, como Obrador é chamado, comemora a vitória nas urnas (Foto Alfredo Estrella/AFP)

Assassinatos de políticos. O pleito mexicano foi marcado pela violência, que afeta o país brutalmente desde 2006. Foram contabilizados 136 assassinatos desde setembro do ano passado, quando começou a campanha eleitoral. Histórias brutais se sucederam, como a do candidato a deputado Fernando Purón, baleado pela costas quando tirava uma selfie. O político havia combatido o cartel Los Zetas, quando era prefeito de Piedras Negras, Coahuila. O cenário é tão tenso que há preocupação sobre a presença dos eleitores nas urnas. Sem estatísticas oficiais, o Brasil ainda se pergunta “quem matou Marielle?”. Nas eleições de 2016, o Superior Tribunal Eleitoral afirmou que houve 28 assassinatos com motivação aparentemente política.

Protesto contra os políticos na Cidade do México, às vésperas das eleições (Foto Ulises Ruiz /AFP)
Protesto contra os políticos na Cidade do México, às vésperas das eleições (Foto Ulises Ruiz /AFP)

Violência e narcotráfico. No ranking dos 132 países mais inseguros do mundo, feito pela ONG Social Progress Imperative, em 2017, o México está em nono lugar, um pouco à frente do Brasil, no 11º. Para elaborar a lista, foram levados em conta número de homicídios, de crimes violentos, percepção da criminalidade, terrorismo e mortes no trânsito. Em outro levantamento, da Organização Mundial da Saúde, nosso país supera o vizinho dos Estados Unidos em número de assassinatos: são 30,5 homicídios por 100 mil habitantes por aqui, contra 19 em terras mexicanas. Os números, portanto, não deixam dúvidas da violência extrema a que as populações dos dois países são submetidas, mas há diferenças. No México, a maioria dos assassinatos acontece no contexto da guerra dos cartéis do narcotráfico e está concentrada no campo de atuação desses grupos. Enquanto algumas cidades têm índices de homicídios de países desenvolvidos, outras estão entre as mais violentas do mundo, como a turística Los Cabos. São comuns as imagens de corpos mutilados e queimados em beiras de estradas ou mulheres degoladas flutuando em rios. E chocou o mundo o caso dos 43 estudantes sequestrados e desaparecidos sem rastros. Há indícios de que o tráfico se infiltrou em várias estruturas governamentais. “Não consigo pensar em outro país onde o crime organizado alcançou tanto poder como no México”, diz Sergio Aguayo, especialista em segurança da universidade El Colegio de Mexico.  

Intervenção militar.  Quando começou a intervenção militar no Rio de Janeiro, o México foi usado como exemplo de fracasso desse tipo de ação. Não é à toa. A escalada de violência no país começou justamente a partir de 2006, quando então presidente Felipe Calderón decidiu usar as forças armadas para combater o narcotráfico.  A estratégia deu errado e o resultado foi a fragmentação dos grupos. Hoje há cerca de 400 cartéis no México e sua luta por poder é uma das origens de tanta violência.

Corrupção. Entre 176 países, o México está em 123º lugar no Index de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional, enquanto o  Brasíl é o 79º da lista. Escândalos se acumulam no atual governo, do presidente Enrique Peña Nieto. Um deles envolveu a primeira-dama que teria comprado uma mansão de uma empreiteira que presta serviço para o governo, com facilidades.    

Desigualdade. Com índices de desenvolvimento humano equivalentes (0,754 para o Brasil e 0,762 para o México), os dois países sofrem com a concentração de renda. Segundo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), dois terços da riqueza estão em poder de 10% das famílias do país. Já um levantamento do IBGE aponta que os 10% brasileiros mais ricos detêm 43,3% da renda total do país. Os 10% mais pobres ficam com 0,7%.


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