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Bem-vindos à (outra) capital do samba

São Paulo compensa ausência de grifes do Carnaval carioca com trabalho e estrutura


A Nenê de Vila Matilde no Sambódromo paulista lotado. A Nenê de Vila Matilde no Sambódromo paulista lotado. Foto de Marcelo Messina (Liga SP)
A Nenê de Vila Matilde no Sambódromo paulista lotado. Foto de Marcelo Messina (Liga SP)

Poetinha, meu prezado, que saudade!

Mas mando-lhe esta para informar: um de seus aforismos mais famosos ficou anacrônico. Desatualizado. Como se diz hoje em dia, necessitado de um update.

Sabe quando você, para aconselhar o amigo Johnny Alf a se mudar para o Rio, chamou São Paulo de “túmulo do samba”? Muita coisa mudou desde aquela noite, na década de 50 do século passado. O Brasil é bem outro – não trataremos disso aqui, para não amofiná-lo – e a metrópole cinza correu atrás para construir sua festa. Funcionou, Poetinha! E o Brasil tem outra capital do samba.

Diminuir o investimento da festa mais famosa pode dar a ideia de tirar das outras. Sem o Rio somos todos mais fracos

Paulo Sérgio Ferreira
Presidente da Liga das Escolas de São Paulo

Quer ver? São mais de 2h, mas a madrugada alta não provoca um bocejo sequer no público que lota o Sambódromo do Anhembi. Acabou de entrar a última escola da maratona de folia iniciada – você não vai acreditar – no fim da tarde do sábado, ainda com sol a pino. Não dá para duvidar, amigo: ali está uma reunião de inegociáveis apaixonados por Carnaval.

Enquanto isso, a 429 quilômetros de distância, no querido Rio de Janeiro, da Mangueira, da Portela, do Salgueiro, silêncio. Depois de inventar a mais maravilhosa festa antes da festa, os ensaios técnicos que lotavam a Sapucaí (a Passarela do Samba, você não chegou a conhecer), os responsáveis por ela desistiram. Parece mentira, mas você não sabe do culto a metade, meu poeta.

Começa que a terra do samba, do candomblé e da umbanda, inventou de enfiar na prefeitura um bispo neopentecostal que fez o possível para sabotar o Carnaval. Tempos estranhos, amigo. E a Liga das Escolas de Samba aproveitou para cancelar as apoteoses dominicais e se concentrar no que realmente lhe interessa: o desfile oficial, voltado aos turistas.

Mas digressiono, me perdoe. São Paulo enfrentou crise econômica, má vontade do prefeito (um mauricinho gomalinado chamado João Doria) e construiu o Carnaval do seu jeito: com trabalho. No segundo fim de semana do ano, ensaiaram 14 escolas no Sambódromo do Anhembi. Pororoca de samba, Poetinha! Lá, treinam na avenida integrantes das três principais divisões do babado – e passa ao vivo pelo Facebook. No dia 13, passaram nomes poucos conhecidos, como a Tradição Albertinense e o Colorado do Brás, e marcas cascudas da folia na garoa – Nenê de Vila Matilde, Unidos de Vila Maria, Rosas de Ouro, Gaviões da Fiel e Vai-Vai. No sábado de verão ameno e céu estrelado, o Sambódromo do Anhembi recebeu perto de 50 mil pessoas, que se revezaram pelos nove setores de arquibancadas ao longo dos 530 metros de pista.

Amigo, cá entre nós: bateu uma inveja doída, parecia até ressaca… A Liga das Escolas de Samba de São Paulo apostou num formato diferente. Enquanto no Rio eram duas, no máximo três escolas por noite, lá ensaiam até 10 no mesmo programa. A proposta é as pessoas chegarem para assistir às suas escolas de preferência e deem lugar a outras torcidas, numa sucessão foliã, madrugada adentro.

O Sambódromo do Anhembi: projeto de Oscar Niemeyer. Foto de divulgação
O Sambódromo do Anhembi: projeto de Oscar Niemeyer. Foto de divulgação

Funciona. Projeto (como a carioca) de Oscar Niemeyer, a Passarela paulistana, com 33 mil lugares, impressiona pela estrutura. Concentração e dispersão têm espaço de sobra para alegorias e componentes; o recuo da bateria oferece um latifúndio para os ritmistas “manobrarem”. Nos dois lados da pista, há corredores de serviço, para diminuir o número de pessoas na pista.

Poetinha, na verdade, a diferença entre Rio e São Paulo, no Carnaval, funciona como no resto todo: enquanto seu balneário amado tem glamour e patina – cada vez mais feio – nos serviços e no profissionalismo, a terra do concreto rala para melhorar à base de trabalho e estrutura. Carioca é cigarra; paulista, formiga. O Rio, que ninguém nos ouça, anda lembrando o verso de seu amigo Caetano – já foi proveito, hoje é pura fama. Enquanto isso, do lado de lá da Via Dutra, acalenta-se projeto ambicioso: abrigar o maior Carnaval do Brasil.

Calma, amado. O próprio presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Paulo Sérgio Ferreira, o Serginho, apressa-se em afastar especulações sobre uma possível rivalidade com o Rio. “Não há como competir com o Carnaval de vocês. Nosso ponto principal é a luta pela cultura popular. Se unirmos esforços, seremos mais fortes na relação com governos e patrocinadores”, convoca o administrador de empresas de 45 anos, explicando que a história do tamanho se explica pelos números.

Diferentemente da carioca, concentrada exclusivamente na elite do paticumbum, a Liga paulistana administra três divisões, somando 34 escolas. Batalha para ser grande na organização, na segurança e na logística que oferece até um hotel dentro do Sambódromo. A força, por lá, virá da união para pavimentar sonhos.

“São Paulo exporta turistas nos feriados e férias”, reconhece Serginho. “Estamos conseguindo inverter esse fluxo graças ao Carnaval”. Olha, Poetinha, continua não tendo Mangueira nem Salgueiro, tampouco Beija-Flor. Falta o glamour do nosso balneário. Mas vá dizer isso à turma das arquibancadas ou aos componentes, milhares de foliões se esbaldando na plateia e na pista.

O Rio é o inventor do negócio. Os sambistas tradicionais de São Paulo sabem que nunca vamos atingir o nível de vocês

Raimundo Pereira da Silva, o Mercadoria
Consultor de Carnaval

De sua parte, a Liga investe na logística. Conclui até março a Fábrica do Samba 2, no bairro do Carandiru (a 800 metros do Sambódromo) – 22 galpões com tamanhos entre 600 e mil metros quadrados, para as escolas dos grupos 2 e 3. A obra, de R$ 20 milhões, está sendo bancada pela própria entidade, a partir de patrocínios da iniciativa privada e receitas de merchandising, além dos 5% da taxa de administração do arrecadado pelas escolas.

(A Fábrica do Samba 1, erguida pela Prefeitura para o Grupo Especial na Barra Funda, do outro lado do Rio Tietê, a 2,3 quilômetros da Passarela, está na metade. A promessa é concluir os sete barracões restantes até setembro.)

Poetinha querido, tem conterrâneo seu órfão de ensaio técnico tomando a Ponte Aérea (ou a rodoviária, porque a turma encara qualquer viagem pela sua paixão) para conhecer a versão paulistana do babado. Serginho rechaça eventuais festejos com a desgraça alheia. “A crise do Rio é ruim para o Carnaval do Brasil inteiro”, sustenta. “Diminuir o investimento da festa mais famosa pode dar a ideia de tirar das outras. Sem o Rio somos todos mais fracos”, aponta ele, que, habitué do Desfile das Campeãs na Sapucaí, define-se fã das escolas cariocas “pelo trabalho que viabiliza grandes espetáculos”.

A homenagem das baianas da Mocidade Alegre à mangueirense Evelyn Bastos. Reprodução/Facebook
A homenagem das baianas da Mocidade Alegre à mangueirense Evelyn Bastos. Reprodução/Facebook

A atitude dos bambas da garoa, em relação à terra de Cartola e Candeia, aliás, mostra inegociável reverência. No ensaio do sábado 27, as baianas da Mocidade Alegre passaram com o nome de Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira, nas suas saias rodadas. “As escolas de São Paulo imitam as do Rio. O começo de nosso crescimento foi graças aos carnavalescos de lá, que trouxeram técnicas diferentes a partir dos anos 1990”, recorda Raimundo Pereira da Silva, o Mercadoria, 74 anos, 63 de samba, hoje consultor de Carnaval para várias escolas e orientador de jurados na Liga.

Campeão seis vezes com a Rosas de Ouro, uma na X-9 (nome esquisito, né, Poetinha?) e com passagens por Nenê de Vila Matilde e Unidos de Vila Maria, ele atribui a Jorge Freitas – carnavalesco com passagens por Portela e Vila Isabel, no Rio, atualmente no Império da Casa Verde – a mudança de patamar em São Paulo, a partir da virada do século. “Os cantores cariocas também trouxeram técnicas novas”, acrescenta ele, referindo-se a Quinho e Preto Joia, entre outros.

Meu poeta, você não faz ideia da constelação carioca que desfila seu talento no paticumbum paulistano. Gilsinho, intérprete da Portela, também puxa o samba no Vai-Vai; Bruno Ribas, ex-Mocidade e Tijuca, canta na Tom Maior; Ito Melodia, da União da Ilha, na Mocidade Alegre; Nêgo, ex-Império Serrano, na Camisa Verde e Branco; Viviane Araújo, rainha de bateria do Salgueiro, ocupa o mesmo cargo na Mancha Verde; Sabrina Sato, rainha de bateria da Vila Isabel, sai à frente dos ritmistas da Gaviões da Fiel; Mauro Quintaes, ex-Unidos da Tijuca, é o carnavalesco da Unidos do Peruche, seguindo o caminho antes percorrido por Renato Lage, Milton Cunha e Alexandre Louzada; Fran Sergio, multicampeão na Beija-Flor, responde pelas fantasias e alegorias da Vila Maria, que tem Wander Pires, da Mocidade Independente, como intérprete.

(No caminho inverso, Camila Silva, a monumental rainha de bateria do Vai-Vai, brilha no mesmo cargo na Mocidade Independente. E os cantores Celsinho Mody, da Acadêmicos do Tatuapé, e Grazzi, do Vai-Vai, vão estrear na Sapucaí em 2018, pelo Paraíso do Tuiuti.)

“O Rio é o inventor do negócio”, constata Mercadoria, sem estresse. “Os torcedores mais jovens ainda sonham repetir a rivalidade do futebol. Mas os sambistas tradicionais de São Paulo sabem que nunca vamos atingir o nível de vocês”, garante, contando que, todo ano, caravanas numerosas deixam a maior cidade brasileira para acompanhar as finais de samba-enredo na terra carioca. A migração acontecia também nos ensaios técnicos. Só que aí…

Mas São Paulo tem lá suas bizarrices para tourear. A principal delas mistura torcidas organizadas do futebol à festa do samba. Quatro das 14 integrantes do Grupo Especial que desfilam sexta e sábado de Carnaval nasceram das facções dos estádios: Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras), Dragões da Real e Independente (São Paulo). No ensaio do dia 13, uma característica da união ficou clara na arquibancada do Anhembi: quando a escola preto e branca da torcida corintiana pisou a avenida, sinalizadores foram acesos, espalhando fumaça pelo Sambódromo. Ao fim da apresentação, foram todos embora, ignorando o Vai-Vai, que passou em seguida.

As torcidas chegaram ao Carnaval numa tentativa de aumentar o público da festa, no fim dos anos 1980. Desde sempre, a elite paulistana ignora o espetáculo – ou vem para o Rio ou simplesmente faz de conta que as escolas da capital não existem (a mídia da cidade faz a mesma coisa). À época, a Gaviões era um bloco previsivelmente muito popular, o que motivou o convite; mais adiante, Mancha e Dragões a seguiram.

Wagner Lima e Adriana Mondjian, mestre-sala e porta-bandeira da Gaviões da Fiel. Foto de Marcelo Messina (Liga SP)
Wagner Lima e Adriana Mondjian, mestre-sala e porta-bandeira da Gaviões da Fiel. Foto de Marcelo Messina (Liga SP)

Não prestou – junto, explodiram as brigas de torcida no meio da folia, a ponto de provocar uma cisão na liga, que durou dois carnavais. A reunificação se deu em 2012, criando o cenário de força crescente, em vigorosa consolidação até hoje. Mas a pacificação ainda não vingou por inteiro: a viagem dos carros alegóricos das escolas de torcida, do barracão à avenida, exige escolta policial, para evitar conflitos e depredações. No Rio, reina a paz, na convivência fraterna entre os apaixonados pelas escolas, que se visitam cotidianamente.

Os ensaios nas quadras paulistanas também são programas excelentes. Domingo, no fim da tarde, o Vai-Vai reúne uma multidão em frente à sua sede, no Bixiga. Fundada no primeiro dia de 1930, a escola supertradicional (chamada no gênero masculino, como “o” Salgueiro e “o” Império Serrano, por ter nascido de um cordão), que celebra Gilberto Gil no enredo de 2018, guarda várias semelhanças com as grifes cariocas. Na quadra pequena, saltam aos olhos a devoção aos santos e a galeria de troféus. Além, claro, da paixão desenfreada dos componentes, enquanto do lado de fora, a bateria Pegada de Macaco – nome espetacular, né não? – dita o ritmo do babado.

“Eiiiinnnntão” (como dizem eles), Poetinha, convide seu amigo Johnny Alf para outro uísque. Se puder, chame também Cartola, Paulo da Portela, Joãosinho Trinta, Adoniran e Paulo Vanzolini. Erga um brinde à outra capital do samba – onde o Carnaval está mais vivo do que nunca.


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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