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Jesus Cura Homofobia. Amém!

Pastor batista cria movimento de defesa da diversidade sexual presente em seis estados


O pastor José Barbosa Júnior com o Babá Adailton, do Ilê Omiajuarô, na Caminhada pela Liberdade Religiosa. Foto André Teixeira
O pastor batista José Barbosa Júnior com o Babá Adailton, do Ilê Omiojuarô, na Caminhada pela Liberdade Religiosa. Foto André Teixeira

Precisa apurar os ouvidos – tão curtidos eles estão no caldo de intolerância – para entender a mensagem preciosa do movimento criado pelo pastor José Barbosa Júnior: Jesus Cura Homofobia. Preste atenção: HO-MO-FO-BIA. Na contramão da imensa maioria (quase totalidade) de seus pares evangélicos, o religioso prega a tolerância pela via da fé. Inventou sua cruzada há dois anos e, no extremo oposto dos malafaias da vida, tem representantes em seis estados brasileiros. Uma bênção, nesses dias de cura gay.

Jesus não fala absolutamente nada sobre homossexualidade. Não trata do tema. Quem disser o contrário está mentindo. Nas narrativas dos evangelhos, não há uma palavra sobre o assunto,

José Barbosa Júnior
Pastor batista

A cruzada surgiu em 2015, na Parada Gay de São Paulo. Ele e uns amigos levaram a faixa com a frase-título, como um pedido de desculpas, pela forma como a igreja tratou o assunto ao longo dos anos. “E queríamos fazer o contraponto da cura gay, que também estava muito falada na época”, relembra. A repercussão foi um espetáculo. “Em uma semana, recebemos mais de 700 mensagens no grupo de gays cristãos do Facebook”, contabiliza.

À época, ele desenvolvia trabalho em defesa da tolerância na Igreja Batista da Vila Maria, na Zona Norte de São Paulo. A pressão dos fiéis e de outros pastores contra a iniciativa cresceu a ponto de inviabilizá-la. “O titular da igreja ficou do meu lado, porque entendeu o valor daquilo”, relembra. “Mas muitas pessoas conservadoras começaram a me questionar ferozmente, pressionando para que eu fosse expulso”.

O preceito batista dá mais autonomia a seus pastores e não tem a estrutura hierarquizada dos católicos. Assim, cada comunidade decide sobre como será e quem vai liderar sua igreja. Barbosa recebeu o apoio discreto de muitos pares. “Encontrei três tipos de reação: os que eram contra, sem saber argumentar; uns poucos a favor; e muitos, que concordam mas evitam se posicionar”, descreve. “São pastores que precisam sair do armário”, brinca, rindo.

O pastor José Barbosa na quadra da Mangueira. Foto Arquivo pessoal
O pastor José Barbosa na quadra da Mangueira. Foto Arquivo pessoal

Sempre com um sorriso tatuado no rosto, José Barbosa Júnior, 46 anos, divorciado, uma filha, tempera com voz alegre a firmeza de sua pregação. Nele, inexistem as carrancas e caretas comuns aos colegas repressores. Mas sobra solidez na argumentação. Na verdade, a rebeldia contra a ordem unida dos evangélicos surgiu na convivência com gente cristã e LGBT. “As pessoas me falavam de experiências com Deus e a sexualidade”, relata. “Passei a ouvir e acreditar. Daí, começou o meu questionamento”.

Ele, então, iniciou seu combate à intolerância, baseando-se nos testemunhos que ouvia mas, num dado momento, incomodou-se por repetir ideias alheias. Para ir adiante, decidiu mergulhar fundo na História. Formado em teologia, fluente em grego antigo, uma das línguas originais da Bíblia (as outras são aramaico e hebraico), caçou os versículos-base dos homofóbicos – Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 6, versículos 9 e 10 – e encontrou uma fraude.

O discurso da intolerância reza sobre a sentença “Não se deixem enganar: nem imorais, nem efeminados, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus”. Barbosa descobriu, ao visitar a fonte, que o significado se perdeu nas incontáveis traduções. “A palavra que virou ‘efeminado’ quer dizer macio. E a transformada em ‘homossexual’ é, na verdade, um neologismo criado por Paulo, do qual rigorosamente ninguém sabe o significado exato”, ensina. “O que mais se aproxima é ‘coito do homem’”.

Além disso, não se pode pegar o texto bíblico, escrito há milhares de anos, e aplicá-lo nos dias de hoje, “na seca”. “É preciso usar o método histórico-crítico, estudar no contexto em que foi formulado. Não dá para pegar algo escrito há quatro mil anos e aplicar hoje”, ensina, falando em “má fé” de quem faz assim. “Jesus não fala absolutamente nada sobre homossexualidade. Não trata do tema. Quem disser o contrário está mentindo. Nas narrativas dos evangelhos, não há uma palavra sobre o assunto”, arremata.

A opção pela tolerância levou o pastor José Barbosa Júnior a se aproximar de outros oprimidos, como os seguidores das religiões de matriz africana. Domingo (17), ele participou da 10ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, confraternizando com pais e mães de santo. (Havia gente de todos os credos no evento, inclusive outros evangélicos; mas Barbosa se sente em casa.) Na véspera, foi à quadra da Mangueira, acompanhar uma etapa da escolha do hino para o Carnaval 2018. “Gosto do samba do Tantinho”, avisa.

O determinado pastor: "Sou paciente, entendo o lado deles". Foto André Teixeira
O determinado pastor: “Sou paciente, entendo o lado deles”. Foto André Teixeira

Pesada mesmo é a batalha com o outro lado. Quando confrontados pelos argumentos do Jesus Cura Homofobia, os pastores da intolerância partem para o ataque. Barbosa coleciona impropérios como “devasso” e “desviado”, além de ouvir que “quer aparecer”, “ficar bem com todo mundo” e “estar virando gay”. “Sou paciente, entendo o lado deles. Comigo, foi um projeto, uma doutrinação”, explica, minimizando a cantilena do outro lado. “O Malafaia é só grito”.

Contribuiu para a atitude o engajamento em movimentos sociais, participando de manifestações contra a violência, a corrupção e, claro, a intolerância. “Sou de esquerda”, assume, consciente de que a luta é pesada. Tanto que ele reduz a distinção entre evangélicos e neopentecostais, quando o assunto é homofobia e repressão à diversidade religiosa. “As igrejas tradicionais repetem veladamente o que as mais novas gritam de maneira extremada”, constata. “A diferença está na coragem de falar”.

Sobra até para a própria igreja Batista, que, no Brasil, tem sua base nos brancos do sul dos Estados Unidos, e não nos negros que bombaram o gospel. “Nas igrejas daqui, é impossível achar aqui um atabaque”, argumenta ele. Mas a luta continua – e o Jesus Cura Homofobia aproveita a diáspora brasileira para se espalhar. Hoje está presente em Minas Gerais, Rio, São Paulo, Ceará, Maranhão e Paraná. “Temos núcleos estruturados e vamos crescer”, avisa o apóstolo da tolerância.

Eu ouvi amém?


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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