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A culpa é do outro

Tentando entender o mundo através das redes sociais


Nas redes sociais, ninguém tem a menor sombra de dúvida, a culpa é do outro, do que pensa diferente. Foto Alix Minde/AltoPress
Nas redes sociais, ninguém tem a menor sombra de dúvida, a culpa é do outro, do que pensa diferente. Foto Alix Minde/AltoPress

Acordo de manhã e começo a ler os jornais, essa antiga maneira de entender o que está acontecendo.

Começo pela política. O governo transborda corrupção. Tem pra todo lado: esquerda, direita, centro, deputado, senador, ministro e presidente, é claro. Pra onde você olhar tem um sujeito com a mão na massa. Quem botou essa gente lá? De quem é a culpa?

Pego o celular e dou uma passada nas redes sociais. Como sempre está transbordando de tretas. Ali ninguém tem culpa de nada. Pelo que vejo no meu feed a responsabilidade é dos outros, que é uma gente atrasada, corrupta e medieval. E quem são esses seres nefastos, responsáveis pela situação em que vivemos?

Pego o celular e dou uma passada nas redes sociais. Como sempre está transbordando de tretas. Ali ninguém tem culpa de nada. Pelo que vejo no meu feed a responsabilidade é dos outros, que é uma gente atrasada, corrupta e medieval. E quem são esses seres nefastos, responsáveis pela situação em que vivemos? Como sou de esquerda e a maior parte dos meus amigos também, a culpa, ao menos por aqui, é dos coxinhas reaças e golpistas. Por curiosidade vou nas páginas dos meus amigos coxinhas: nem sinal de remorso, pelo contrário. Estão, tranquilos e de consciência limpa, culpando os esquerdopatas gayzistas e bolivarianos, esses sim, segundo eles, os verdadeiros responsáveis pelo Brasil estar do jeito que está. Nenhum dos dois grupos tem a menor sombra de dúvida, a culpa é do outro, do que pensa diferente. Mas afinal, se ninguém é responsável, quem votou nessa quadrilha que ocupa o Congresso? Se o mundo se divide entre petistas e tucanos ou petralhas e coxinhas, de onde sai essa maçaroca fisiológica de PP, PMDB, DEM e cia? Quem vota neles? Aparentemente ninguém, foram trazidos por alguma nave alienígena que passou por Brasília.

Volto aos jornais, ainda não terminei. Agora leio as notícias sobre a violência no Rio. O noticiário mostra o caos na cidade.

Se não fossem os outros, diz o coro afinado do meu feed, estaríamos no melhor lugar do mundo. Foto Eugenio Marongiu/Image Source
Se não fossem os outros, diz o coro afinado do meu feed, estaríamos no melhor lugar do mundo. Foto Eugenio Marongiu/Image Source

Mais uma vez pego o celular para consultar as redes sociais. PM do Rio é uma das polícias mais corruptas do mundo, dizem todos. Absurdo total, vergonha, falta de dignidade, gritam em uníssono os cidadãos de bem. Mas afinal quem é que corrompe essa polícia? Os outros, esbravejam, também em uníssono, os mesmos cidadãos indignados. Que outros? Aí já não é problema nosso, explicam baixinho, quase sussurando. Se a polícia é uma das mais corruptas do mundo é porque tem muita gente pagando propina por aí. Serão os alienígenas? Será que depois de descarregar os políticos em Brasília eles passam aqui no Rio para distribuir propina aos guardas? Só pode ser, afinal nenhum carioca dá dinheiro para os mais corruptos do mundo. Os traficantes de drogas tocam o terror na cidade. Tem um arsenal de dar inveja a atirador em Las Vegas. Tudo coisa fina, fuzil de menos de cinquenta mil reais é visto com desprezo. Mas de onde vem todo esse dinheiro dos traficantes? Dos usuários de drogas. Então a culpa é deles? Claro que não, eles mesmos respondem em uníssono. A culpa é dos outros, afirmam com candura. Muitos outros. A legislação retrógada, por exemplo, aquela que foi escrita pelos políticos vindos da nave alienígena. Ou então a PM, a da propina espacial, que não impede que os traficantes vendam drogas aos usuários.

Se não fossem os outros, diz o coro afinado do meu feed, estaríamos no melhor lugar do mundo

As redes sociais são a nova maneira de entender o que está acontecendo.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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2 Comentários

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  1. Exato… alias quem não quer conversar são os outros, exatamente os mesmos que andam por aí pregando o ódio e a intolerância. Já eu, estou sempre aberta ao diálogo, sou toda paz, amor e tolerância!

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