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A africana que venceu o machismo

A saga da liberiana que, após ser obrigada a se casar e sofrer violência doméstica, governou seu país, ganhou o Nobel da Paz e virou sinônimo de pioneirismo


Ellen Johnson Sirleaf: história singular, em uma sociedade machista e patriarcal. Foto: Chris Kleponis/
Ellen Sirleaf: história singular, em uma sociedade machista e patriarcal. Foto: Chris Kleponis/DPA

Ellen Johnson Sirleaf é uma mulher negra, educada em uma sociedade extremamente machista e patriarcal, obrigada a se casar aos 16 anos, abusada pelo marido e que só conseguiu completar os estudos depois de se separar. Não conhecemos muitas histórias de perseverança que tenham sido tão bem-sucedidas, como a dela. Talvez a escritora nigeriana Buchi Emecheta (que tem apenas um livro publicado no Brasil, o importantíssimo As Alegrias da Maternidade) seja um dos exemplos mais emblemáticos. 

Ellen Sirleaf foi a responsável pela primeira transferência pacífica de poder na Libéria em quase 50 anos, depois que o partido dela, o Unity Party, foi derrotado no segundo turno das eleições liberianas de dezembro de 2017

Mas a economista Ellen Jonhson Sirleaf se tornou sinônimo de pioneirismo. Foi a primeira mulher eleita presidente no continente africano, em 2005 na República da Libéria, pequeno país da África Ocidental. Ela e Leymah Gbowee foram as primeiras liberianas a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, em 2011, dividido com a iemenita Tawakel Karman, líder pró-democracia do movimento pelos direitos das mulheres e pela imprensa livre no Iêmen. Ellen e Leymah foram eleitas pelos esforços de valorização das mulheres e pelas ações não-violentas para por fim à guerra civil no país. Além disso, Ellen Sirleaf foi a responsável pela primeira transferência pacífica de poder na Libéria em quase 50 anos, depois que o partido dela, o Unity Party, foi derrotado no segundo turno das eleições liberianas de dezembro de 2017.

No início de 2018, Sirleaf se tornou a primeira mulher a ganhar o Prêmio Mo Ibrahim para a Excelência na Liderança Africana. A premiação é uma das mais prestigiadas e importantes do continente africano. Foi instituída em 2006, para dar visibilidade aos chefes de Estado ou de Governo que tenham feito uma administração responsável e conciliadora, que tenham deixado o cargo há pelo menos três anos, que tenham sido democraticamente eleitos e que tenham cumprido seus mandatos de forma justa e de acordo com a Constituição de seus países. Ou seja, uma homenagem que celebra apenas as lideranças políticas consideradas excepcionais.

Durante a campanha de 2005, Sirleaf defendeu a bandeira de que décadas de exercício de poder dos homens na política liberiana tinham feito o país descer ao fundo do poço, por duas vezes. Era necessário injetar ‘um pouco de sensibilidade maternal à presidência do país’

Convenhamos que são regras bem excludentes em se tratando dos históricos democráticos da maioria dos países africanos (e sul-americanos também). Tanto que, nos 12 anos em que o prêmio existe, apenas cinco ex-mandatários receberam a comenda: o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, em 2007; o ex-presidente do Botsuana, Festus Mogae, em 2008; Pedro Pires, ex-presidente de Cabo Verde, em 2011; e Hifikepunye Pohamba, da Namíbia, em 2014. Nelson Mandela recebeu o prêmio honorário em 2007.

Ao anunciar Sirleaf como vencedora,  o chefe do comitê de premiação da Fundação Mo Ibrahim, Salim Ahmed Salim, justificou a escolha lembrando que a ex-presidente liberiana “tomou o comando de uma Libéria destruída pela guerra civil e liderou um processo de reconciliação que se concentrou na construção de uma nação e de suas instituições democráticas. Hoje, a Libéria enfrenta muitos desafios. No entanto, durante os 12 anos no cargo, Ellen Johnson Sirleaf estabeleceu os alicerces sobre os quais a Libéria agora pode construir”.

O sucesso relativo da ex-presidente Sirleaf no governo na Libéria se deve ao fato de ela ter levantado, ainda na campanha presidencial de 2005, a bandeira do protagonismo feminino como uma das mais importantes. Afinal, o país havia sido liderado exclusivamente por homens desde a fundação da república liberiana, em 1847. Chamada de “o nosso homem” pelos colaboradores mais próximos, a alcunha nada tem a ver com uma visão preconceituosa, mas, sim, com o fato de ela ter se tornado a prova viva de que era possível às mulheres ocuparem postos geralmente dominados pelos homens.

Ellen Sirleaf e Barack Obama, na Casa Branca, em 2015. Foto: Olivier Douliery DPA
Ellen Sirleaf e Barack Obama, na Casa Branca, em 2015. Foto: Olivier Douliery DPA

Sirleaf se casou aos 16 anos e, com 19, parou de estudar. Só voltou à sala de aula quando viajou com o marido para os EUA e fez um curso técnico em Contabilidade, na Madison Business College, em 1957, aos 24 anos. Ela se separou em seguida, depois de passar anos sofrendo abusos e violência doméstica. Em 1968, aos 34 anos, já mãe de quatro filhos, se formou em Economia e Administração Pública na Universidade de Harvard. Retornou à Libéria em 1972, convidada pelo presidente William Tolbert para trabalhar no ministério das Finanças. Não demorou muito para que angariasse inimigos ao denunciar casos de corrupção e de lavagem de dinheiro dentro do governo. Mesmo assim, em 1979 foi  primeira mulher nomeada ministra no país, mesmo sendo a adjunta de Finanças. Vitória e reconhecimento da capacidade de uma mulher numa sociedade essencialmente machista e patriarcal.

Durante a campanha de 2005, Sirleaf defendeu a bandeira de que décadas de exercício de poder dos homens na política liberiana tinham feito o país descer ao fundo do poço, por duas vezes. Era necessário injetar “um pouco de sensibilidade maternal à presidência do país”, como ela mesma disse. Ou como afirma a ativista liberiana, escritora e doutora em Estudos de Desenvolvimento pela Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, Robtel Neaji Pailey, “Sirleaf embarcou em uma revisão de imagem estratégica, enquadrando-se como uma ameaça tripla: educada, experiente e mulher. Abandonou o apelido de ‘dama de ferro’, atribuído a ela por manter a disciplina fiscal enquanto foi ministra das Finanças nos anos 1970, substituindo-o por algo mais suave e palatável: ‘ma Ellen’.

Os principais desafios de Ellen Sirleaf foram reestruturar as instituições do Estado, qualificar a mão-de-obra, empoderar as mulheres liberianas e desmobilizar, desarmar e reintegrar as centenas de ex-crianças-soldados que haviam se tornado jovens sem qualquer qualificação e estabilidade emocional

Segundo Pailey, no livro Liderança na África Pós-Colonial, publicado em 2014, “evocando essa alcunha materna, Sirleaf foi capaz de se lançar  como uma alternativa viável e contemporânea à enorme concorrência com outros 21 candidatos homens, alistando, dessa forma, um exército de mulheres que a apoiaram e que votaram nela em peso”. 

A eleição de “ma Ellen”, em 2005, foi um acontecimento festejado em todo o mundo. Afinal, ela foi a primeira mulher a ser eleita presidente em todo o continente africano e venceu ninguém menos do que o homem mais popular do país, o astro internacional George Weah, o Pelé do futebol liberiano (e atual presidente, eleito em 2017).

Os principais desafios de Ellen Sirleaf foram reestruturar as instituições do Estado, qualificar a mão-de-obra, empoderar as mulheres liberianas e desmobilizar, desarmar e reintegrar as centenas de ex-crianças-soldados que haviam se tornado jovens sem qualquer qualificação e estabilidade emocional. A tarefa não era fácil. Além de reerguer a economia, ma Ellen tinha a missão de resgatar a autoestima de um país inteiro, neurotizado, no qual a juventude era encarada com desconfiança e como uma ameaça em potencial.

“Sirleaf já tinha uma reputação internacional excelente, tendo ocupado cargos de destaque nas Nações Unidas, no Citibank e no Banco Mundial. Por isso, ela conseguiu atrair para a Libéria organizações internacionais ligadas ao desenvolvimento e focadas especialmente nos direitos das mulheres, no fim da violência de gênero, em construir o ‘empoderamento’ e em promover a reconciliação dos ex-combatentes.  Organizações como o Carter Center, o Médicos Sem Fronteiras, a CARE, o Comitê Internacional de Resgate e a Oxfam ajudaram a Libéria a (re)construir o Estado de Direito, a Justiça Social e a Saúde. Entre 2006 e 2011 o Departamento de Estado dos EUA identificou mais de US$ 16 bilhões em novos investimentos estrangeiros na Libéria.” Afirma a doutora Pamela Scully,  em um artigo no Washington Post. Scully é integrante do Departamento de Estudos da Mulher, de Gênero e de Sexualidade da Emoty College of Arts and Sciences (na Geórgia, EUA) e autora de um livro sobre a vida e a carreira da ex-presidente liberiana.

Porém “ma Ellen” também foi duramente criticada ao deixar que a sensibilidade materna misturasse questões de foro público com o privado. Um exemplo foi a contratação de três dos quatro filhos para cargos de confiança no governo. “Embora criticasse o presidente William Tolbert pelo nepotismo que praticou nos anos de 1970, Johnson Sirleaf usou o cargo para empregar familiares de primeiro e segundo graus como os filhos Fombah Sirleaf (diretor da Agência Nacional de Segurança), Charles Sirleaf (vice-diretor do Banco Central da Libéria) e Robert Sirleaf (consultor sênior da presidência e presidente do Conselho da Companhia Nacional de Petróleo da Libéria)”, afirma Robtel Pailey. A então presidente se defendeu das acusações de nepotismo alegando que os filhos eram plenamente qualificados para os cargos aos quais foram indicados.

“Para entender a presidente Sirleaf e as duas administrações dela, primeiro é preciso entender que a história da Libéria foi moldada por tensões entre as várias comunidades indígenas da Libéria e os américo-liberianos, descendentes dos colonos afro-americanos que chegaram a partir das primeiras décadas do XIX, fugindo do racismo”, lembra Pamela Scully. Décadas de corrupção desmesurada e nepotismos desavergonhados levaram a população liberiana a nutrir um ressentimento cada vez mais forte pelo governo liberiano. Em 1980, o sargento Samuel Doe liderou o primeiro golpe militar no país, reunindo representantes de várias etnias contra o governo dos américo-liberianos, classe dominante que estava no poder desde a fundação do país. Doe depôs e executou o presidente William Tolbert e parte do gabinete presidencial. Sirleaf, que fazia parte do governo,  foi poupada e nomeada presidente do Banco Liberiano para o Desenvolvimento e Investimento. Mas ela fugiu do país em novembro, depois de criticar publicamente o regime de terror instaurado pelo novo presidente militar.

Filha de pai da etnia gola, de mãe da etnia cru e neta de avô alemão, Ellen Sirleaf voltou para os EUA logo depois do golpe e só retornou à Libéria para participar das eleições de 1997, promovidas e organizadas pela ONU depois do fim da primeira guerra civil liberiana. Ficou em segundo lugar (com cerca de 25% dos votos válidos), derrotada pelo ex-senhor da guerra Charles Taylor (quase 75% dos votos válidos), um dos responsáveis pelo golpe que derrubou Samuel Doe do poder em 1989 e que mergulhou a Libéria num conflito civil entre diversas milícias étnicas até 1996. Taylor venceu as eleições liberianas pelo fato de ser o principal senhor da guerra e ter acesso a áreas do país que nenhum outro candidato teria capacidade, recursos ou coragem de visitar naquele momento, mesmo com a presença dos capacetes azuis da ONU e de contingentes da então Organização da Unidade Africana (atual União Africana) e da Cedeao, a Organização dos Estados da África Ocidental.

A paz liberiana durou pouco. Em 1999, um novo conflito civil explodiu no país, fruto da linha dura estabelecida por Taylor e do envolvimento dele em ações para financiar, armar e treinar milícias opositoras nos vizinhos Serra Leoa e Costa do Marfim. No fim da segunda guerra civil liberiana (entre 1999 e 2003), Taylor foi deposto, exilado e posteriormente detido e enviado ao Tribunal Penal Internacional (TPI), onde foi condenado a 50 anos de prisão num processo que o considerou responsável por crimes de guerra e participação direta na violenta Guerra Civil de Serra Leoa. Taylor se tornou o primeiro ex-chefe de Estado a ser condenado pelo TPI. Na época em que estava no poder, dizia-se que o único vizinho com quem Taylor tinha boas relações era com o Oceano Atlântico.

Por causa desses 14 anos de guerra civil, as mulheres liberianas foram obrigadas a assumir também os papéis tipicamente masculinos em suas famílias, aldeias, regiões ou bairros, já que grande parte dos homens estava envolvida na guerra como integrantes das forças armadas ou das milícias étnicas que combatiam umas as outras e também quem mais estivesse no governo. Nesse Estado sem lei, parte significativa das crianças e jovens foram sequestrados e incorporados à força nessas milícias.

Ellen Sirleaf e o atual presidente da Libéria, George Weah, na cerimônia de posse dele, em janeiro de 2018. Foto: Issouf Sanogo/ AFP

Assim que assumiu a presidência, “ma Ellen” agradeceu o apoio das mulheres liberianas, reconheceu publicamente a importância delas para a economia familiar e a presença maciça delas nos mercados locais. Eram elas as principais comerciantes que movimentavam a economia do país no varejo, além de serem as responsáveis pelo sustento das famílias. Foi para esse contingente de mulheres, meio milhão de liberianas (cerca de 1/3 da população em 2006 e representando 85% do mercado informal de produtos agrícolas), que o governo abriu linhas de microcrédito e ajudou a financiar o SMWF (Sirleaf Market Women’s Fund), fundo usado para organizar creches e serviços de pré-escola para filhos e filhas das mulheres comerciantes.

Mas a presidente não nomeou tantas mulheres em cargos de liderança quanto prometeu durante a campanha de 2005. “Nas duas administrações foram nomeadas apenas cinco ministras de meia idade, enquanto a distribuição de cargos a jovens que mal haviam passado dos trinta anos – todos homens – foram bem mais generosas”, lembra a ativista, acadêmica e escritora Robtel Pailey. “Ela também aprovou licitações para a exploração de cerca de 1/3 das terras produtivas sem o conhecimento ou a aprovação das populações locais”.

A autora do livro sobre Ellen Sirleaf, Pamela Scully, também lembra que, apesar de ter enfrentado corajosamente o surto de ebola, em 2014, durante o segundo mandato, “a partir do momento em que ela nomeou os filhos para papéis-chave no governo, os defensores da ética e os críticos liberianos acusaram-na de nepotismo, o que arranhou de vez a imagem que ela havia construído de um governo que lutava contra e tinha pouca tolerância com a corrupção.”

Apesar de terminar os segundo mandato dividindo opiniões, principalmente entre a população mais jovem (o que comprovou o jornal investigativo Front Page Africa, que se tornou um dos mais populares entre os liberianos), o fato de ela ter mantido a paz, desafiando os senhores da guerra e recuperando a credibilidade do país, fazem dela uma líder política que realmente fez a diferença. Como lembrou a ativista Leymah Gbowee, que dividiu o Nobel da Paz com Sirleaf em 2011,  em entrevista à BBC: “Ela realmente fez história. A administração ficou marcada pelos casos de nepotismo, mas ela provou ao mundo que uma mulher pode disputar o poder com o poder patriarcal e exercê-lo bem. Ela é uma grande inspiração para todas nós”.


Escrito por Alexandre dos Santos

Alexandre dos Santos

Jornalista formado pela Uerj em 1996 e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Trabalhou como repórter de jornal impresso e atualmente é jornalista de TV e professor de História da África no curso de Relações Internacionais da PUC-Rio. E-mail: alexandredossantos@me.com. Instagram: @alsantos72

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