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Neste Carnaval, uma por todas e todas por uma

Campanhas estimulam que mulheres se ajudem contra o assédio na folia

A campanha #minasdevermelho: contra o assédio no carnaval (Foto de divulgação)
A campanha #minasdevermelho: contra o assédio no carnaval (Foto de divulgação)

Fernanda foi perseguida por um homem que não aceitou um “não”. Luiza foi agarrada por um sujeito que só a largou após ouvi-la dizer que tinha namorado. M. foi agarrada pelo próprio amigo. Encontrar histórias de mulheres que já sofreram assédio durante o Carnaval não é uma tarefa difícil. Infelizmente. Diante disso, multiplicam-se campanhas para que o elas se apoiem e se socorram,  caso alguém passe dos limites.

Criada pelas amigas Luiza Navarro de Azevedo, Ana Luiza Credidio Geraldini, Marina Spieth e Anahi Cubas, a #minasdevermelho incentiva que, neste Carnaval, as mulheres usem uma faixa amarrada no braço para que todas se reconheçam e saibam que podem contar com ajuda. As estudantes de Barão Geraldo, Campinas, São Paulo estavam cansadas de sofrerem no Carnaval de rua.

Eles achavam que eram engraçados. Eram foliões que estavam ‘curtindo o bloco’. Aí que mora um grande problema: quando alguém acha que é piada. Quando a outra não está gostando, quando ambas as pessoas não estão rindo, não é nada engraçado. Quando você invade o espaço de uma mulher é assédio

Nicole Meireles
Bloco Amigos da Onça

“Às vezes você está sozinha no meio de toda aquela multidão carnavalesca e não sabe com quem contar, e quem irá te ajudar nessa situação. Então pensamos nessa faixa vermelha, como um modo fácil de reconhecimento entre essa rede de mulheres”, conta Luiza, que já perdeu as contas de quantas vezes um ‘não’ foi insuficiente e teve que contar com a ajuda das amigas.

Elas criaram uma página no Facebook e vão espalhar lambe-lambes (um tipo de cartaz) pela sua cidade, além de disponibilizar as artes para que outras mulheres espalhem a ideia: “A divulgação tem sido bem maior do que esperávamos, o que é maravilhoso!”, avalia Luiza.

Quem também está estimulando a sororidade neste Carnaval é a revista “AzMina” com a campanha #umaminaajudaaoutra. Se no ano passado o veículo feminista fez uma campanha ensinando aos homens como se comportar, desta vez o foco está nas mulheres. Além de publicar relatos de mulheres que fizeram algo por outras, elas ensinam como fazer parte da corrente socorrendo uma moça que não está bem ou envolvida em alguma confusão.

“Ser mulher é perigoso. Mas se posicionar de um jeito diferente daquele para o qual fomos treinadas pode ser muito empoderador”, conta Leticia Bahia, diretora institucional.

Oncetes do bloco Amigos da Onça: assédio não é brincadeira (Foto de divulgação)
Oncetes do bloco Amigos da Onça: assédio não é brincadeira (Foto de divulgação)

Quem também está nessa é o bloco Amigos da Onça, que desfila geralmente durante a madrugada no Carnaval do Rio com uma ala de dançarinas, as chamadas oncetes. O grupo resolveu este ano distribuir adesivos com dizeres como “não é não” para ver ser os homens entendem  o recado. Elas mesmas sofrem o assédio no Carnaval.

“A onça é um felino que, entre outras características, tem a sensualidade muito forte sim, isso faz parte do personagem. Infelizmente, na sociedade que vivemos hoje, convivemos com muitos homens que não respeitam esse nosso espaço, nem da mulher nem da personagem, ultrapassando todos os limites de respeito”, conta Nicole Meireles, uma das integrantes.

Nicole lembra que, em determinado ano, ela resolveu inovar e sair com um rabo de oncinha gigante, e alguns homens acharam que seria divertido puxá-lo e fazer piadinhas:

“Eles achavam que eram engraçados. Eram foliões que estavam ‘curtindo o bloco’. Aí que mora um grande problema: quando alguém acha que é piada. Quando a outra não está gostando, quando ambas as pessoas não estão rindo, não é nada engraçado. Quando você invade o espaço de uma mulher é assédio”.

Adesivos do bloco Amigos da Onça: campanha
Adesivos do bloco Amigos da Onça: campanha (Reprodução)

Outra iniciativa é o “Apito contra o assédio“, criado pelas amigas Lia Marques, Marina Gabos e Amanda Cursino. Depois de presenciarem uma violência no último Carnaval em São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, elas decidiram distribuir apitos no Carnaval. Assim, quando a mulher se sentir invadida, é só apitar para chamar a atenção de quem estiver perto. A ideia atraiu a Skol, que resolveu fechar uma parceria para distribuir 50 mil apitos na folia.

Relatos de assédio

Iniciativas assim animam mulheres como Fernanda Ribeiro. Ano passado, ela foi em um bloco em Santa Teresa, no Rio, e um homem segurou seu braço. Fato nada extraordinário, principalmente no Carnaval. Ela pediu que ele a soltasse, mas o rapaz não gostou da resposta e passou a segui-la no bloco.

“Ele me esperou entrar num banheiro e ficou me esperando sair pra falar comigo, ficou insistindo muito e não parava de me seguir. Uma hora ele apareceu do nada e me abraçou. O cara era bem mais alto, e eu não tinha o que fazer. Estragou meu bloco e meu dia. Fui embora. O pior que eles só param de investir quando te olham com outro homem. Só um ‘não, solta meu braço, eu não quero’ não foi suficiente”, lembra.

Um cara me agarrou pelo braço, e eu comecei a gritar, só que ele era imenso e o meu amigo não viu que eu fiquei para trás. Aí eu falei ‘por favor, meu namorado está ali, e eu vou me perder dele’. Ele falou ‘aquele é teu namorado? Então quero ver’. Daí me soltou. Meu amigo ficou superpreocupado e só largou minha mão quando me entregou para o meu namorado. Me senti um pacote

Luiza Andrade
Foliã

Essa sensação de ser um objeto que pertence a alguém também afligiu a analista de Marketing Luiza Andrade. No ano passado, ela estava com um grupo no Baixo Gávea, Zona Sul do Rio, quando decidiu fazer um lanche com um amigo em vez de ficar com o namorado. 

“Um cara me agarrou pelo braço, e eu comecei a gritar, só que ele era imenso e o meu amigo não viu que eu fiquei para trás. Aí eu falei ‘por favor, meu namorado está ali, e eu vou me perder dele’. Ele falou ‘aquele é teu namorado? Então quero ver’. Daí me soltou. Meu amigo ficou superpreocupado e só largou minha mão quando me entregou para o meu namorado. Me senti um pacote.”

Mas nem sempre o perigo vem dos desconhecidos. M. é advogada e, no último domingo, resolveu brincar no pré-Carnaval pelas ruas do Centro do Rio com uma amiga, o namorado dela e um amigo, que conhecia há quase 15 anos. Nem a amizade nem vários ‘nãos’ foram o suficiente para ele respeitá-la. Mesmo negando um beijo, ele tentou agarrá-la:

“Não acreditei, mas quando vi o que realmente ele ia fazer meti a mão na frente da cara dele, empurrei e falei ‘chega! Já deu’. Ele insistiu e disse que era brincadeira. Eu disse que não era não. Porque se eu não coloco a mão na frente e empurro ele ia beijar minha boca. Ele ainda falou que achava que eu merecia, e eu falei que ele não tinha que achar nada que eu escolho quem eu quero beijar.”

Os relatos confirmam a necessidade de mais campanhas contra o abuso. Para Letícia Bahia, da revista “AzMina”, no ano passado a campanha #carnavalsemassedio, dedicada a eles, teve um bom engajamento e a expectativa é positiva para a campanha deste ano, ainda que seja necessário ser realista e perceber que estamos longe de resolver o problema:

“As mensagens contra o machismo precisam ser repetidas à exaustão e de todas as maneiras que a gente conseguir pensar, porque somos diversos e escutamos também de maneira diversa. O discurso que toca um grupo não é o mesmo que toca outros”.

Escrito por Bibiana Maia

Bibiana Maia

Jornalista formada pela PUC-Rio com MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF. Trabalhou no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e nos jornais O Globo, Extra e Expresso. Atualmente é freelancer e colabora com reportagens para jornais e sites.

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