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Academia de defesa pessoal para LGBTs

A Piranhas Team usa o krav magá para ensinar gays, lésbicas e trans a se defenderem no país em que mais se mata no mundo por questões homotransfóbicas

Lana e Halisson treinam no Piranhas Team: krav magá (Divulgação)
Lana e Halisson treinam no Piranhas Team: krav magá (Divulgação)

Há tempos a transmullher Karolyne Keller, de 50 anos, buscava encontrar uma maneira de se defender. Quando foi cercada por grupo de skinhead em Curitiba viveu momentos de pavor, mas saiu ilesa fisicamente. Em Sete Lagoas, sua cidade natal, a mineira, que trabalhava numa fábrica de cimentos, foi agredida por vizinhos que a perseguiram durante anos. Também foi assaltada em Curitiba e no centro do Rio, sempre em meio a agressões homofóbicas. Como ela, muitos gays, lésbicas e transgêneros temem a morte no país em que mais se mata no mundo por questões homotransfóbicas. Até o fechamento desta reportagem, 108 assassinatos foram cometidos no Brasil este ano, segundo as contas do Grupo Gay da Bahia. De acordo com os dados relativos a 2016, 340 pessoas foram mortas em decorrência da LGBTfobia, 11 mortes a mais do que em 2015. A maior parte dos assassinatos ocorreu em espaços públicos por tiros, asfixia, facadas, espancamentos e outros tipos de violência. 

Alguns não entendem nosso estilo de vida e não aceitam a gente ter nascido menino, mas ser menina de fato. Decidi me preparar. Já aprendi como fugir de um ataque e como escapar de um enforcamento

Karolyne Keller

Karolyne se cansou de sentir medo. E foi à luta. Queria pelo menos aprender a se defender, a escapar do agressor, a não apanhar.  Deu de cara com um anúncio em um poste. “Ei, viado, puta, trava! Defenda-se. Defesa pessoal para os LGBTs”. Anotou os contatos da Piranha Team e começou a praticar krav magá há três meses.

“Sou pacífica, mas a gente pode estar na rua fazendo programa, num barzinho, distraída por aí e do nada ser agredida. Vivo ouvindo piadas, agressões verbais, e você não pode adivinhar se ou quando um doido vai te bater repentinamente. Alguns não entendem nosso estilo de vida e não aceitam  a gente ter nascido menino, mas ser menina de fato. Decidi me preparar. Já aprendi como fugir de um ataque e como escapar de um enforcamento”, conta, aliviada.

Lana e Halisson: luta contra o preconceito no Piranhas Team (Foto divulgação)
Lana e Halisson: luta contra o preconceito no Piranhas Team (Foto divulgação)

O krav magá é uma arte marcial de origem israelita. Trata-se de uma forma de luta de defesa pessoal. É o método de autodefesa mais eficiente do mundo e é indicado a todas as pessoas que querem aprender a se defender de ataques individuais ou em grupos.  A oportunidade de aprender a se defender em situações de perigo, além de dar espaço e levar diversidade a um lugar de prática de artes marciais tradicionalmente dominado por pessoas cisgênero e héteros, são os objetivos do Piranha Team, um grupo de LGBTs que escolheu acolher e ensinar a prática do krav Maga. A ideia surgiu quando Lara Lincoln, de 31 anos, procurava academia para malhar ao lado do amigo Thiago Bassi. “Eu sou a mãe e ele é o pai do projeto”, conta.

Com o auxílio  luxuoso do professor Alisson Paes, que reuniu amigos que militavam em movimentos de pelos direitos de gays, bissexuais, lésbicas e transgêneros, eles conseguiram acolhida no CT Tori, academia que fica na Lapa, onde a turma tem aulas duas vezes por semana.  A mensalidade custa R$ 80 reais e há também uma taxa de 20 reais por matrícula. Quem pode mais, contribui com uma espécie de vaquinha para ajudar a quem não pode pagar.

É o que faz Elton Madeira, de 33 anos, estudante de História. Há três anos, ele sofreu um AVC e ficou com parte do lado esquerdo paralisada. Passou a fazer ioga e a lutar kung fu para restabelecer os movimentos. Em dezembro, reencontrou o amigo Alisson Paes e aceitou o convite para experimentar o krav magá. 

Gay declarado há três anos, Elton elogia o projeto social e busca sempre recomendar aos amigos. Para ele, é importante que os gays e, principalmente, os transgêneros tenham um espaço onde exista respeito e oportunidade para aprender a se defender de um possível ataque.

“Ninguém aguenta ouvir piada babaca o tempo todo ou coisas que agridem. Muitos LGBTs não se sentem à vontade num ambiente com tendências machistas. Eu tenho certas vantagens porque consigo passar por hétero, fiz isso no trabalho durante anos, aí sofro menos a pressão dos homofóbicos. Mas a vida pode ser muito complicada para quem foge dos padrões hétero normativo”, avalia.

O assaltante tentou botar a mão em mim e quase quebrei seu braço. Não quero agredir ninguém porque já fui vítima de violências, mas também não vou mais deixar ninguém me bater ou roubar na mão grande

Lara Lincon

Lara Lincoln esteve afastada por um tempo das aulas por causa de problemas pessoais e como perdeu o emprego de manicure agora conta com a ajuda para treinar de graça. E recentemente conseguiu se livrar de uma tentativa de assalto no Campo do Santana, no Centro do Rio. Graças a preciosas dicas percebeu que o assaltante estava desarmado e rapidamente o imobilizou.

“Ele tentou botar a mão em mim e quase quebrei seu braço. Não quero agredir ninguém  porque já fui vítima de violências, mas também não vou mais deixar ninguém me bater ou roubar na mão grande”, avisa.

Nascida e criada em Caxias, na Baixada Fluminense, Lara sofreu muita perseguição e violência. Quase sempre era agredida por pessoas  conhecidas, como colegas de escola ou vizinhos. Até não aguentar mais e deixar a cidade há cinco anos. Uma das vezes mais marcantes aconteceu num posto de ônibus, após ser perseguida durante quase um quilômetro sob xingamentos e ameaças.

Sofro muitas violências, mas meus grupos de amigos também passam por isso. Então, espero que numa situação tensa e perigosa, eu possa tanto me safar de levar porrada ou ser estuprado

Eduardo Cruz

“Eles me bateram muito e me chutavam com ódio quando estava caída no chão, totalmente fraca e submissa. Mas nada me doeu mais do que olhar no rosto deles e identificar vizinhos e colegas que estudaram comigo”, recorda-se, com tristeza.

Por isso mesmo, sabe que fez a coisa certa ao criar o Piranhas Team e dar oportunidade para que outras pessoas não sejam mais vítimas de violência, que aprendam a se defender e reagir diante de qualquer agressão.

O Piranhas Team unido por uma causa
O Piranhas Team unido por uma causa (Foto de divulgação)

“Por natureza, nós, trans, e os gays mais afeminados, somos mais fragilizados. Não só mentalmente, porque fomos a vida toda submetidos a todo o tipo de agressão e assédio, mas fisicamente também.  A gente tem de se unir e procurar soluções para, aos poucos, acabar com isso. Enquanto não acabamos com a violência, pelo menos aprendemos a nos defender”, raciocina Lara.  

Eduardo Cruz, 21 anos, nasceu designado como menina. Estudante de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, está sempre sendo vítima de violências verbais nas ruas. E não deixa de reagir. Simplesmente porque entende esse gesto de revolta como uma defesa. Mas o estudante não quer mais ser perseguido e nem sentir medo.

“Antes de me assumir trans, tinha cara de sapatão, vivia sendo ofendido. Há dois anos, já usando hormônios masculinos, uns caras me chamaram de viado e jogaram o carro em cima de mim para me atropelar. Escapei por pouco. Eu reajo sempre quando me chamam de viadinho.  Em alguns casos, correm atrás de mim e tenho que me esconder. Estou cansado dessa violência quase diária”, desabafa Edu.

Por isso mesmo, decidiu treinar krav magá para não mais fugir do confronto e realmente tentar se defender sem medo. E acha importante estar preparado para ajudar algum amigo em situação de perigo.

“Sofro muitas violências, mas meus grupos de amigos também passam por isso. Então, espero que numa situação tensa e perigosa, eu possa tanto me safar de levar porrada ou ser estuprado, por exemplo, como também poder ajudar a quem precise. Gostaria de falar que espero nunca precisar, mas na nossa sociedade parece ser impossível conseguir a paz absoluta e a minha liberdade”, lamenta a triste realidade.

Escrito por Martha Esteves

Martha Esteves

Martha Esteves é jornalista esportiva há 33 anos. Começou na revista Placar, trabalhou no Jornal do Brasil e foi subeditora do caderno de esportes de O Dia por 20 anos. Também trabalhou como freelancer para a TV Globo e as revistas Claudia, Caras, Playboy, Quatro Rodas e Marie Claire. Ela joga nas 11.

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