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O lado B de todas as Olimpíadas

Assim como no Rio, pobres dos EUA se agarravam a seus barracos para resistir às remoções

O quadro do pintor americano George H. Rothacker mostra uma favela (hooverville) em pleno Central Park
O quadro do pintor americano George H. Rothacker mostra uma favela (hooverville) em pleno Central Park

(Lisa Goff*) –  As autoridades cariocas levaram meses retirando moradores de favelas, demolindo seus barracos e construindo quilômetros de painéis para esconder esta marca do Rio de Janeiro dos olhos das centenas de milhares de turistas que foram à cidade para as Olimpíadas.

Descrições da imprensa americana sobre a retirada forçada das populações de favelas no Século XIX são similares às reportagens sobre o desalojamento forçado de pobres, como parte dos preparativos para os jogos da Rio 2016. Em ambos os casos, os moradores se agarraram às suas moradias precárias.

Mas o Rio não é a única grande cidade a esconder ou desmantelar suas favelas. Pobres são considerados feios em qualquer lugar e as cidades exercitam regularmente seu poder para livrar a paisagem dos barracos. A demolição de uma favela ao norte de Pretória, capital da África do Sul, desencadeou motins este ano. Na França, muitas favelas (bidonvilles) foram demolidas em nome da segurança pública, mais recentemente em Calais.  Em 2008, o governo de Ruanda destruiu as últimas “cidades de lata” na capital do país, Kigali.

Os Estados Unidos não são exceção. Muitos acham que as favelas são um problema dos países em desenvolvimento. Mas os EUA têm suas histórias não contadas de moradias miseráveis, que detalho no meu recente livro  “Shantytown USA: Forgotten Landscapes of the Working Poor” (Favelas americanas: paisagens esquecidas dos trabalhadores pobres, em tradução livre).

Heróis da resistência

Descrições da imprensa americana sobre a retirada forçada das populações de favelas no Século XIX são similares às reportagens sobre o desalojamento forçado de pobres, como parte dos preparativos para os jogos da Rio 2016. Em ambos os casos, os moradores se agarraram às suas moradias precárias para resistir a um estado que alegava estar comprometido com a melhoria de sua qualidade de vida.

Outro ponto em comum entre o Rio e os antigos habitantes de favelas americanas: repetidamente, rejeitaram as ofertas do governo para se mudar para habitações melhores, muito longe de onde moravam. Vinte dos 600 moradores originais da favela Vila Autódromo resistiram à pressão da prefeitura para deixar seus barracos na área do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca. Depois de meses de resistência, às vezes sangrenta, eles obtiveram do prefeito do Rio a promessa de reconstruir suas casas no mesmo lugar.

Morador da Vila Autódromo e os cartazes de protesto contra a remoção da comunidade. Foto de Michael Kappeler/DPA/AFP
Morador da Vila Autódromo e os cartazes de protesto contra a remoção da comunidade. Foto de Michael Kappeler/DPA/AFP

A exemplo de seus equivalentes americanos de décadas atrás, as autoridades brasileiras e empresários imobiliários desprezaram os pobres como tática para negar-lhes seus direitos. Carlos Carvalho, magnata do mercado imobiliário brasileiro e dono de grande parte das terras onde o Parque Olímpico foi construído, destacava o “novo Rio” que surgiria das Olimpíadas – um Rio para “a elite, de bom gosto”, cheio de “moradias nobres, não de casas para pobres”.

Cidade repaginada

Para onde deverão ir os pobres? A mesma questão na Nova York do Século XIX e no Rio do Século XXI. Em 2016, mais de 77 mil moradores de favelas foram retirados para construir um “novo Rio”, agradável aos turistas olímpicos. Muitos foram realocados em casas construídos pelo governo, mas não todos – e milhares lamentaram a remoção.

No Século XX, as forças que impulsionavam o crescimento das favelas mudaram. A Grande Depressão deixou milhares sem emprego e sem teto. Entregues à própria sorte, construíram barracos de folhas de flandres, linóleo, caixas de papelão e peças de automóveis.

Favelas são a prova da incapacidade das instituições em responder à demanda por moradias acessíveis aos pobres. Mas elas também expressam uma visão de comunidade dos pobres que eleva seus valores de desenvoltura e reinvenção, em comparação com a fixação da classe média em propriedade e lucro.

Eu defino favelas como comunidades de moradias unifamiliares construídas por trabalhadores com os materiais disponíveis. Diferem, assim, dos conjuntos habitacionais erigidos para os pobres por outros, como governos. É difícil sentir o que os moradores de favelas pensam delas, mas canções e peças populares do Século XIX sugerem que as viam como símbolos de hospitalidade, desenvoltura e autodeterminação. Favelas são também lugares de trabalho, com vários serviços funcionando dentro das comunidades. Moradores frequentam igrejas, votam e até recorrem a tribunais para proteger seus direitos.

Nos EUA, algumas dessas comunidades persistem até hoje na forma de parques de trailers e acampamentos de sem-teto, mas seu auge foi de 1820 a 1940, quando estavam em toda parte, oferecendo moradia a trabalhadores pobres, desempregados e destituídos.  Mas, assim como no Rio, as autoridades americanas, que alegavam estar melhorando a qualidade de vida dos moradores, terminaram por desalojar a maioria dessas comunidades que eram, de várias formas, santuários dos pobres.

Lógica da segregação

No Século XX, as forças que impulsionavam o crescimento das favelas mudaram. A Grande Depressão deixou milhares sem emprego e sem teto. Entregues à própria sorte, construíram barracos de folhas de flandres, linóleo, caixas de papelão e peças de automóveis. Eram chamadas, nos EUA, Hoovervilles, em “homenagem” ao presidente Herbert Hoover, e recebiam grande cobertura da mídia.

Inicialmente, as classes média e alta encaravam as favelas como uma condição necessária, embora temporária, para a rápida industrialização do Século XIX. Os trabalhadores pobres nem sempre perseveraram. Os que permaneceram, e os que chegaram depois, criaram favelas que duraram décadas em cidades como Nova York, Chicago, Atlanta e Washington, D.C.  Essas comunidades cobriam extensas áreas das maiores cidades, incluindo 20 quarteirões da 8ª Avenida, em Nova York, a maior parte do litoral do Brooklyn e do que é agora o Dupont Circle, em Washington, D.C.

As favelas não desapareceram após a Grande Depressão, mas códigos de construção e de zoneamento mais rigorosos, aliados a projetos habitacionais públicos, que visavam oferecer melhor moradia aos pobres, limitaram drasticamente seu crescimento nos EUA.

Nessas políticas bem intencionadas, vemos os direitos e a independência dos pobres sendo suprimidos. Antes, eles eram capazes de exercer algum controle sobre onde moravam; favelas, embora modestas, eram residências unifamiliares frequentemente próximas aos locais de trabalho. Hoje, os pobres são mandados a apartamentos multifamiliares localizados em áreas muito mais afastadas de seus empregos.

*Lisa Goff, historiadora, Universidade da Virgínia, EUA

Tradução: Trajano de Moraes

Escrito por The Conversation

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

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